No clima da copa
- Eu só não viro jogador de futebol porque sou muito nervoso.
- ...
- E porque jogo muito mal. Mas é mais porque eu sou muito nervoso.
30.6.10
7.6.10
4.6.10
tem um acúmulo sobrenatural de sujeira na torneira do meu chuveiro. todas as noites em que tomo banho, fico esperando ansiosamente para que a empregada o limpe. e isso nunca acontece. por algum motivo subliminar, eu não consigo simplesmente pegar a escova de dentes rosa que está sobrando na pia e limpar a torneira eu mesma. acho que é força do hábito de esperar que a pessoa para a qual pagamos para fazer esses serviços baixos realize sua função. e elas nunca o fazem. não com sujeiras na torneira do chuveiro. tampouco com a sujeira que acumula entre os ladrilhos cor de rosa do chão do chuveiro.
eu não tenho uma esponja do bob esponja. eu sempre quis uma, simplesmente pelo pleonasmo da coisa, apesar de odiar o personagem. mas eu tive, recentemente, uma esponja cor de rosa em forma de coração das princesas da disney que tive de jogar fora por risco de contaminação pela sujeira. essa esponja - juntamente com os shampoos (que sempre andam em bando e nunca são jogados fora despeito o seu término), cremes para cabelo, esfoliantes, sabonetes, saboneteiras em forma de banheiras, sabonetes líquidos (que seguem a mesma regra do shampoo), sabonetes íntimos, giletes e lixas para pés - ficava em cima da pequena cômoda de ferro cor de rosa que me acompanha desde a infância com origens distantes e incertas. sim, a mesa, friso, de ferro, fica dentro do box, que é razoavelmente grande. e, sim, friso novamente, ele é muito velho. antiga, com a tinta descasacada em alguns lugares e enferrujada, ela fica dentro do box, mantendo toda a parafernalha feminina - que só não conta com itens como máscara para cabelos e loções pós-banhos pelo fato de eu não saber para que servem - distante da água. mesmo assim, enferrujou devido ao tempo e ao vapor da água. e suja tudo que toca nele, deixando tudo com cor de óxido de ferro e, molhado, preto. minha fiel cômoda enferrujou minhas princesas.
tive que comprar uma esponja nova, daquelas que parecem bolinhas e não têm desenhos. mas pelo menos ela continua cor de rosa, para combinar com todo o resto da indumentária do banheiro. ela fica pendurada na torneira, pela cordinha especificamente colocada pelo fabricante para esse tipo de situação. e todos os dias, após usar a esponja, eu a enxáguo, enquanto me enxáguo, para que ela não fique suja, para que ela também não me suje da próxima vez que eu for me limpar.
---x---
roubei a idéia daqui. visitem-no. :]
eu não tenho uma esponja do bob esponja. eu sempre quis uma, simplesmente pelo pleonasmo da coisa, apesar de odiar o personagem. mas eu tive, recentemente, uma esponja cor de rosa em forma de coração das princesas da disney que tive de jogar fora por risco de contaminação pela sujeira. essa esponja - juntamente com os shampoos (que sempre andam em bando e nunca são jogados fora despeito o seu término), cremes para cabelo, esfoliantes, sabonetes, saboneteiras em forma de banheiras, sabonetes líquidos (que seguem a mesma regra do shampoo), sabonetes íntimos, giletes e lixas para pés - ficava em cima da pequena cômoda de ferro cor de rosa que me acompanha desde a infância com origens distantes e incertas. sim, a mesa, friso, de ferro, fica dentro do box, que é razoavelmente grande. e, sim, friso novamente, ele é muito velho. antiga, com a tinta descasacada em alguns lugares e enferrujada, ela fica dentro do box, mantendo toda a parafernalha feminina - que só não conta com itens como máscara para cabelos e loções pós-banhos pelo fato de eu não saber para que servem - distante da água. mesmo assim, enferrujou devido ao tempo e ao vapor da água. e suja tudo que toca nele, deixando tudo com cor de óxido de ferro e, molhado, preto. minha fiel cômoda enferrujou minhas princesas.
tive que comprar uma esponja nova, daquelas que parecem bolinhas e não têm desenhos. mas pelo menos ela continua cor de rosa, para combinar com todo o resto da indumentária do banheiro. ela fica pendurada na torneira, pela cordinha especificamente colocada pelo fabricante para esse tipo de situação. e todos os dias, após usar a esponja, eu a enxáguo, enquanto me enxáguo, para que ela não fique suja, para que ela também não me suje da próxima vez que eu for me limpar.
roubei a idéia daqui. visitem-no. :]
1.6.10
No prédio velho onde eu morava, havia uma garota no apartamente ao lado. Descobri logo, pelo barulho, que ela era prostituta. Me identificava bastante com ela: ela vendia seu corpo e eu vendia minha alma em minhas histórias. A diferença era que ela não se entregava. Tratava o trabalho, todo aqule contato físico, suor e gemidos falsos ou não, com o distanciamento que alguém trata formulários de exportação ou planilhas de uma grande empresa.
Quando ela não estava trepando, gostava de me convidar para tomar chá com biscotinhos e conversar. Chá só fica bom com bastante açúcar e as bolachinhas, olha que gracinha!, eram mandadas pela avó todas as semanas. Ela se interessava tanto pelo que eu fazia quanto eu pela profissão dela.
"Nunca te faltam idéias?" ela me perguntou uma vez, impressionada.
"É claro que faltam," eu respondi rindo. "E então eu converso com gente interessante como você."
Ela era uma fonte inesgotável de boas histórias. Me dizia como era honroso transar com garotos virgens. Se sentia uma professora, ensinando tudo. Que parecia um presente para todas as outras garotas que aqueles meninos comeriam. Era quase filantropia.
Perguntei-lhe uma vez se ela sentia falta de um namorado.
"Para quê? Trepo o dia inteiro!" disse rindo. "E ainda recebo por isso." completou.
"Mas namorados não são só para trepar," retruquei, romântica incurável que sou. "Eles são aquela pessoa que te ouve, que te faz companhia sempre, que te apóia..."
"Ah!" ela sempre ria quando falava dessas coisas. "Pra isso eu tenho meus amigos, como você."
Quando ela não estava trepando, gostava de me convidar para tomar chá com biscotinhos e conversar. Chá só fica bom com bastante açúcar e as bolachinhas, olha que gracinha!, eram mandadas pela avó todas as semanas. Ela se interessava tanto pelo que eu fazia quanto eu pela profissão dela.
"Nunca te faltam idéias?" ela me perguntou uma vez, impressionada.
"É claro que faltam," eu respondi rindo. "E então eu converso com gente interessante como você."
Ela era uma fonte inesgotável de boas histórias. Me dizia como era honroso transar com garotos virgens. Se sentia uma professora, ensinando tudo. Que parecia um presente para todas as outras garotas que aqueles meninos comeriam. Era quase filantropia.
Perguntei-lhe uma vez se ela sentia falta de um namorado.
"Para quê? Trepo o dia inteiro!" disse rindo. "E ainda recebo por isso." completou.
"Mas namorados não são só para trepar," retruquei, romântica incurável que sou. "Eles são aquela pessoa que te ouve, que te faz companhia sempre, que te apóia..."
"Ah!" ela sempre ria quando falava dessas coisas. "Pra isso eu tenho meus amigos, como você."
23.5.10
catarse/caverna
o ônibus deveria ter saído há 5 minutos. eu tenho um só cd no ipod que já ouvi vezes demais. estou sem disposição para ler os dois livros teóricos que estão na bolsa. tem gente demais no ônibus. conversando. tem crianças demais no ônibus. conversando, gritando e chorando. tudo agudo demais. elas são feias demais, parecem todas bonecas mal-feitas de cerâmica barata ou adultos que não cresceram o suficiente. odeio crianças. de verdade. são incompletas e incorruptas pelo mundo. ou são corruptas demais, escondendo consumismo aceletado atrás de ingenuidade. queria trancar as trompas para não correr o risco de ter meus próprios filhos. meus filhos são meus projetos. todos eles, que insistem em não sair do papel. por falta de tempo, de dinheiro, de esforço, de vontade. queria ter idéias mais fáceis de serem executadas. um gramado. um casal. falando sobre amor e sobre outros temas fundamentais. singelo. simples. absolutamente sem graça.
se eu tivesse continuado a desenhar desde os 9 anos, se eu ouvisse as recomentações da família inteira e nunca parasse de desenhar, eu poderia ter desenvolvido habilidades manuais melhores e fazer minhas próprias animações sozinha, sem depender da porra da disponibilidade de ninguém. minha cabeça tá doendo de tanto chorar. não aguento mais adiar as coisas por falta de tempo - alheia.
o ônibus deveria ter saído há 5 minutos. eu tenho um só cd no ipod que já ouvi vezes demais. estou sem disposição para ler os dois livros teóricos que estão na bolsa. tem gente demais no ônibus. conversando. tem crianças demais no ônibus. conversando, gritando e chorando. tudo agudo demais. elas são feias demais, parecem todas bonecas mal-feitas de cerâmica barata ou adultos que não cresceram o suficiente. odeio crianças. de verdade. são incompletas e incorruptas pelo mundo. ou são corruptas demais, escondendo consumismo aceletado atrás de ingenuidade. queria trancar as trompas para não correr o risco de ter meus próprios filhos. meus filhos são meus projetos. todos eles, que insistem em não sair do papel. por falta de tempo, de dinheiro, de esforço, de vontade. queria ter idéias mais fáceis de serem executadas. um gramado. um casal. falando sobre amor e sobre outros temas fundamentais. singelo. simples. absolutamente sem graça.
se eu tivesse continuado a desenhar desde os 9 anos, se eu ouvisse as recomentações da família inteira e nunca parasse de desenhar, eu poderia ter desenvolvido habilidades manuais melhores e fazer minhas próprias animações sozinha, sem depender da porra da disponibilidade de ninguém. minha cabeça tá doendo de tanto chorar. não aguento mais adiar as coisas por falta de tempo - alheia.
17.5.10
era uma cidade de monstros. monstros grandes e fofos como aqueles que encontramos em desenhos animados japoneses ou em lojas de brinquedos. apesar das aparências, os monstros detestavam-se e cometiam maldades uns contra os outros frequentemente, destruindo a cidade enquanto se auto-destruíam (já que é impossível destruir alguma outra coisa, principalmente um par, sem se destruir pelo menos um pouquinho a si próprio).
um dia, no entanto, apareceu uma besta feroz na cidade. azul petróleo com gigantescos espinhos seguindo em fila indiana de sua cabeça até a ponta de sua grossa cauda. observando todo aquele ódio e toda aquela destruição, o monstro azul petróleo decidiu que precisava fazer alguma coisa, sendo ele, por definição, o monstro do amor.
saiu pela cidade fincando seus espinhos nas costas de todos os monstros que via pela frente, a fim de espalhar o amor pela cidade. algumas criaturas sentiam-se tocadas pelo veneno do inimigo horrendo e começavam a amar furiosamente a todos os monstros ao redor.
outros, no entanto, ficaram bastante irritados com a atitude intrometida do novato da cidade. como ousava ele impôr o amor sobre as pessoas? levantaram um motim e, todos juntos, concordaram em expulsar o pior dos monstros da cidade.
enquanto voava baixo pelo portão da cidade, o monstro do amor ria baixinho, para si mesmo, feliz em ter cumprido sua função.
um dia, no entanto, apareceu uma besta feroz na cidade. azul petróleo com gigantescos espinhos seguindo em fila indiana de sua cabeça até a ponta de sua grossa cauda. observando todo aquele ódio e toda aquela destruição, o monstro azul petróleo decidiu que precisava fazer alguma coisa, sendo ele, por definição, o monstro do amor.
saiu pela cidade fincando seus espinhos nas costas de todos os monstros que via pela frente, a fim de espalhar o amor pela cidade. algumas criaturas sentiam-se tocadas pelo veneno do inimigo horrendo e começavam a amar furiosamente a todos os monstros ao redor.
outros, no entanto, ficaram bastante irritados com a atitude intrometida do novato da cidade. como ousava ele impôr o amor sobre as pessoas? levantaram um motim e, todos juntos, concordaram em expulsar o pior dos monstros da cidade.
enquanto voava baixo pelo portão da cidade, o monstro do amor ria baixinho, para si mesmo, feliz em ter cumprido sua função.
11.5.10
3.5.10
27.4.10
classe média
aprendi com meu pai que lugar de bandido é na cadeia.
aprendi com minha mãe que se tratarmos empregados bem demais eles montam em cima da gente.
aprendi com meu tio que a corrupção do governo é uma vergonha e que sonegar imposto de renda é só um meio para impedir que outras pessoas roubem nosso dinheiro.
aprendi com minha tia que uma massagem linfática e um jeito no cabelo - preferencialmente com descoloração - são a solução para quase todos os problemas. o álcool, combinado com alimentos ricos em fibras e pobres em calorias, solucionam todo o resto.
aprendi com os professores do colégio particular com a maior mensalidade da região que o comunismo é a única saída para o mundo.
já meu tio diz que é a pena de morte.
meu primo mais velho, por outro lado, acredita que é a portabilidade e as tecnologias wi-fi.
minha tia mais velha prega que o ofício não é uma fonte de prazer e que é preciso trabalhar muito e ser muito bem remunerado.
uma amiga minha dos tempos de colégio adorava carros tunados e achava um absurdo quem ia buscar o filho na escola com a BMW da empresa.
meu tio acha que a eleição do PT foi a melhor coisa que já aconteceu com o Brasil. e ele só viaja para trazer souvenirs.
e eu parei de ler jornal para não ter mais alguém me dizendo o que pensar.
aprendi com meu pai que lugar de bandido é na cadeia.
aprendi com minha mãe que se tratarmos empregados bem demais eles montam em cima da gente.
aprendi com meu tio que a corrupção do governo é uma vergonha e que sonegar imposto de renda é só um meio para impedir que outras pessoas roubem nosso dinheiro.
aprendi com minha tia que uma massagem linfática e um jeito no cabelo - preferencialmente com descoloração - são a solução para quase todos os problemas. o álcool, combinado com alimentos ricos em fibras e pobres em calorias, solucionam todo o resto.
aprendi com os professores do colégio particular com a maior mensalidade da região que o comunismo é a única saída para o mundo.
já meu tio diz que é a pena de morte.
meu primo mais velho, por outro lado, acredita que é a portabilidade e as tecnologias wi-fi.
minha tia mais velha prega que o ofício não é uma fonte de prazer e que é preciso trabalhar muito e ser muito bem remunerado.
uma amiga minha dos tempos de colégio adorava carros tunados e achava um absurdo quem ia buscar o filho na escola com a BMW da empresa.
meu tio acha que a eleição do PT foi a melhor coisa que já aconteceu com o Brasil. e ele só viaja para trazer souvenirs.
e eu parei de ler jornal para não ter mais alguém me dizendo o que pensar.
3.4.10
expressionismo alemão
vestidos de preto, eram três. entraram devagar pela porta, tomando cuidado para não fazer barulho. debruçaram-se sobre a cama, observando o homem enorme e gordo roncando. fazia as paredes tremer, o lustre sacudir e toda a casa vibrar. entreolharam-se. com dor no coração, sabiam o que deveria ser feito. ergueram a rede e jogaram-na sobre o homem.
imediatamente ele acordou, gritando, gerando sobressaltos nos três. a mulher ao seu lado despertou igualmente e, furiosa, indagou:
- kinder! was machts du?!
abaixaram a cabeça. os três. já eram grandinhos. deveriam ter se acostumado com isso.
- mutter... - começou um deles.
- é que não conseguimos dormir... - disse o outro.
- papai ronca demais... - completou o terceiro.
- e queremos expulsá-lo de casa. - terminou aquele que falara primeiro.
vestidos de preto, eram três. entraram devagar pela porta, tomando cuidado para não fazer barulho. debruçaram-se sobre a cama, observando o homem enorme e gordo roncando. fazia as paredes tremer, o lustre sacudir e toda a casa vibrar. entreolharam-se. com dor no coração, sabiam o que deveria ser feito. ergueram a rede e jogaram-na sobre o homem.
imediatamente ele acordou, gritando, gerando sobressaltos nos três. a mulher ao seu lado despertou igualmente e, furiosa, indagou:
- kinder! was machts du?!
abaixaram a cabeça. os três. já eram grandinhos. deveriam ter se acostumado com isso.
- mutter... - começou um deles.
- é que não conseguimos dormir... - disse o outro.
- papai ronca demais... - completou o terceiro.
- e queremos expulsá-lo de casa. - terminou aquele que falara primeiro.
16.3.10
o inferno tinha ar condicionado. disso ele já sabia, desde sempre. daquele ar excessivamente gelado e úmido em salas fechadas de dias frios e úmidos, que conserva as gotículas de chuva e - pior - suor depois de ter andado para chegar até lá. além disso, o terno era exatamente da expessura certa para sentir um pouco de frio. daquele que sobe pela coluna, pelos pêlos dos braços, congela os pés.
sentado de terno, sentindo o frio o espetar como agulhas, ocupava-se de seu serviço eterno: catalogar. carros e pessoas e livros e filmes e eletrodomésticos e material escolar e alimentos e roupas e calçados e acessórios esportivos e ônibus e todas as coisas do mundo.
dia após dia, catalogava, sentindo um frio fraco e incômodo, sentado na mesma posição, para todo o sempre. era triste perceber que a vida após a morte era exatamente como a morte em vida.
e morrer de nada adiantaria.
sentado de terno, sentindo o frio o espetar como agulhas, ocupava-se de seu serviço eterno: catalogar. carros e pessoas e livros e filmes e eletrodomésticos e material escolar e alimentos e roupas e calçados e acessórios esportivos e ônibus e todas as coisas do mundo.
dia após dia, catalogava, sentindo um frio fraco e incômodo, sentado na mesma posição, para todo o sempre. era triste perceber que a vida após a morte era exatamente como a morte em vida.
e morrer de nada adiantaria.
24.2.10
aristocrata. grã-fina. daquelas tão finas e demodês que usam estolas de pele com cabeças de animaizinhos mortos penduradas em seus ombros e penachos nas cabeças. gorda de ostentação. viveu todos os seus dias de seus sessenta e poucos anos parasitando a fortuna conquistada ainda pelo avô. pouco ligava para o politicamente correto, afinal, o dinheiro comprava todas as suas facilidades e não era questionada por ninguém.
em seu enorme palácio cercado de empregados, havia um cômodo dedicado unicamente para seu pequeno schnauzer cinzento que a acompanhava desde a terceira viuvês. chamava seu nome com sua voz de soprano lírico dramático adquirida nas aulas de canto da adolescência:
- trotskiiii!!
e o cachorro vinha feliz, saltitante e com a língua para fora, pronto para receber biscoitos de sabores artificiais, banhos de perfumes franceses ou simplesmente afagos infinitos.
não conhecia a origem do nome do cachorro. achava que era um tipo de biscoito delicioso que experimentou certa vez no maravilhosamente lindo museu de tesouro do czar em são petesburgo. e gostou da forma como o nome soava.
em seu enorme palácio cercado de empregados, havia um cômodo dedicado unicamente para seu pequeno schnauzer cinzento que a acompanhava desde a terceira viuvês. chamava seu nome com sua voz de soprano lírico dramático adquirida nas aulas de canto da adolescência:
- trotskiiii!!
e o cachorro vinha feliz, saltitante e com a língua para fora, pronto para receber biscoitos de sabores artificiais, banhos de perfumes franceses ou simplesmente afagos infinitos.
não conhecia a origem do nome do cachorro. achava que era um tipo de biscoito delicioso que experimentou certa vez no maravilhosamente lindo museu de tesouro do czar em são petesburgo. e gostou da forma como o nome soava.
15.2.10
era perfeito. simpático, inteligente, o primeiro da turma e podia conversar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa. bem informado, bem educado. lindíssimo. tocava violão e guitarra numa banda de free jazz. tinha muitos amigos, alguns muito bons e outros muito especiais. boa relação com os pais. adorava animais e crianças. gostava de cinema e lia bons livros. tinha uma namorada bonita e simpática. era um amigo presente, um filho carinhoso e um namorado solícito. tinha todas as qualidades do mundo. e quando chegava em casa sozinho se masturbava olhando fotos de sapatos de bico fino.
10.2.10
saudável. esse era seu lema. preservar-se para a velhice. folhas verdes, frutas, chá antioxidante. açúcar? nunca. aspartame? jamais. vivia do amargo. não ingerie chocolate de qualquer espécie desde os 12 anos. dois litros de água por dia. álcool apenas em produtos de limpeza. mantinha-se longe do cigarro ou de fumaça de qualquer tipo. tinha que manter a pele. filtro solar fator 15 todos os dias no rosto, nos braços e no colo, dependendo do que ia mostrar. desta maneira mantinha-sebronzeada e protegida dos raios ultra-violtera simultaneamente. um creme anti-rugas ao acordar e outro antes de dormir, a partir dos 15 anos. creme hidrantante no corpo todo, todos os dias. drenagem linfática uma vez por mês. limpeza de pele caseira com mel e açúcar uma vez por semana. academia três vezes por semana. Não cruzava as pernas para não causar varizes. só tomava banho em água fria. mesmo no inverno. dormia cedo e acordava cedo - sempre - para impedir olheiras. shampoo, condicionador e creme nos cabelos todos os dias. passava longe da tintura. sob hipótese alguma dormia maquiada. não usava salto alto ou bolsa pendurada em apenas um ombro para manter a postura. evitava trabalhos manuais que ressecassem as mãos. ou aqueles que dão calos. chorava ao perceber uma nova cicatriz.
se cuida tanto para quê?, perguntavam. para a velhice, respondia, orgulhosa.
parecia uma boneca. daquelas de porcelana. que ficam sempre na prateleira, penduradas na parede.
se cuida tanto para quê?, perguntavam. para a velhice, respondia, orgulhosa.
parecia uma boneca. daquelas de porcelana. que ficam sempre na prateleira, penduradas na parede.
21.1.10
do caprincho.
levou dois dias esquematizando o convite ideal. fez frente e verso combinando, lindos, uma obra de arte grafica. pin-ups, combinação de texturas vitorianas e tipografia escolhida a dedo. comprou um bloco inteiro de papel texturizado para fazer quantas impressões fossem precisas até que ficasse perfeito. foi à gráfica próxima de casa. detestou o primeiro resultado. foi procurar outro estabelecimento mais distante. a primeiro cópia ficou perfeita. da segunda em diante, a tinta falhava cada vez mais. depois de horas brigando com a impressora, até que saísse qualquer coisa melhor que aceitável, descobriu que seu querido cartão magnético não seria aceito na loja. teve que rodar a cidade atrás de um banco. encontrou, pagou, foi embora. comprou lindos envelopes cor de vinho, quase da mesma cor do fundo do convite. um tom sobre tom. envelopes pequenos, delicados. adquiriu adesivinhos redondinhos, prateados, combinando com a caneta prateada para escrever endereços. treinou a caligafria antes de anotar os nomes das convidadas. tomou muito cuidado para não ceder à fraqueza habitual do tremor das mãos. percebeu que o adesivo lindo era pequena demais para assegurar que o envelope ficasse fechado por todo o seu trajeto. decidiu fazer bom uso da goma colante disponpivel nas agências dos correios.
à primeira pincelada, percebeu como aquilo havia sido uma péssima idéia. litros de cola escorriam dos lugares delimitados, enrrugando a superfície do envelope, colando um envelope ao outro, tirando toda a beleza de tudo que havia sido trabalhado com tanta calma até então. não tinha envelopes o suficiente para trocá-los. teve medo de os envelopes agora estarem grudados aos convites. realmente não queria que os convites fossem estragados.
com dor no coração, humilhada pela simples existência da goma, entregou à funcionária dos correios os convites de pin-ups e texturas vitorianas, envoltos de lindos envelopes cor de vinho, lacrados com delicados adesivos prateados, que combinavam com a caligrafia caprichada em tinta prateada. tudo isso embrutecido pela goma colante em excesso.
levou dois dias esquematizando o convite ideal. fez frente e verso combinando, lindos, uma obra de arte grafica. pin-ups, combinação de texturas vitorianas e tipografia escolhida a dedo. comprou um bloco inteiro de papel texturizado para fazer quantas impressões fossem precisas até que ficasse perfeito. foi à gráfica próxima de casa. detestou o primeiro resultado. foi procurar outro estabelecimento mais distante. a primeiro cópia ficou perfeita. da segunda em diante, a tinta falhava cada vez mais. depois de horas brigando com a impressora, até que saísse qualquer coisa melhor que aceitável, descobriu que seu querido cartão magnético não seria aceito na loja. teve que rodar a cidade atrás de um banco. encontrou, pagou, foi embora. comprou lindos envelopes cor de vinho, quase da mesma cor do fundo do convite. um tom sobre tom. envelopes pequenos, delicados. adquiriu adesivinhos redondinhos, prateados, combinando com a caneta prateada para escrever endereços. treinou a caligafria antes de anotar os nomes das convidadas. tomou muito cuidado para não ceder à fraqueza habitual do tremor das mãos. percebeu que o adesivo lindo era pequena demais para assegurar que o envelope ficasse fechado por todo o seu trajeto. decidiu fazer bom uso da goma colante disponpivel nas agências dos correios.
à primeira pincelada, percebeu como aquilo havia sido uma péssima idéia. litros de cola escorriam dos lugares delimitados, enrrugando a superfície do envelope, colando um envelope ao outro, tirando toda a beleza de tudo que havia sido trabalhado com tanta calma até então. não tinha envelopes o suficiente para trocá-los. teve medo de os envelopes agora estarem grudados aos convites. realmente não queria que os convites fossem estragados.
com dor no coração, humilhada pela simples existência da goma, entregou à funcionária dos correios os convites de pin-ups e texturas vitorianas, envoltos de lindos envelopes cor de vinho, lacrados com delicados adesivos prateados, que combinavam com a caligrafia caprichada em tinta prateada. tudo isso embrutecido pela goma colante em excesso.
20.1.10
31.12.09
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