28.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 3


Bárbara ouviu a porta do restaurante abrir. Continuou passando o pano sobre a bancada, disfarçando preguiça com meticulosidade. Perfume forte de dama da noite invadiu o ambiente. Bárbara torceu o nariz. Olhou para cima.

Mesa para dois. Uma garrafinha de vidro verde com uma florzinha do campo branca no centro. O rapaz corpulento ajudava a namorada a sentar na cadeira de madeira com encosto de vime. Ele encostava nela com a delicadeza de quem tivesse medo que ela fosse quebrar.

Bárbara se aproximou do casal. Bom dia. Deu os cardápios. A cliente nem se dignou a pegar o seu. Olhando de perto, a moça estava uma bagunça. A maquiagem excessiva estava borrada nos cantos e seu cabelo estava oleoso e desarrumado. O perfume forte emanava dela.

– Já sabem o que vão pedir? – Bárbara bateu a caneta na borda da caderneta.

Ele pediu um bife à parmegiana para si mesmo – o melhor da casa, concordou Bárbara – faz com bastante queijo e bastante molho – e uma salada para a namorada.

– Mulheres – disse ele, com uma piscadela – sempre de dieta.

Bárbara esboçou um sorriso educado. A namorada se manteve imóvel, encarando um ponto fixo do outro lado do bistrô. Bárbara a olhou novamente. Ela realmente não parecia nada bem. Não entendia porque algumas pessoas insistiam em sair de casa mesmo tão doentes.


Esse é o segundo capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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Obrigada!

27.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 2


– Ela tem respondido suas mensagens? – perguntou Taís, balançando na única balança que ainda estava inteira no parquinho de concreto.

– Ela visualiza, – respondeu Gabriela, que checava as mensagens do celular com os cotovelos apoiados nas coxas – mas nunca responde.

Taís parou a balança com os pés. As duas garotas ficaram em silêncio por um momento. Ouvia-se apenas a música metálica do vento batendo nas correntes das balanças quebradas. O outro barulho, menos sonoro, vinha das notificações constantes do celular de Gabriela.

Gabriela quebrou o silêncio digital:

– É engraçado que ela atualiza tudo.

– Será que ela está brava com a gente? – Taís começou a cutucar a pele em volta das unhas com os dentes.

– Sei lá. Ela ficou bem puta quando a gente falou mal do namorado dela. – disse Gabriela, que não tirava os olhos do celular – Qual era o nome dele mesmo?

– Antonio, acho, mas ela não chamava ele disso. Chamava pelo sobrenome. Nunca vou lembrar.

– Ela deve é estar muito apaixonada. Só tira foto com ele. Nunca pensei que a Ana fosse dessas meninas que começa a namorar e esquece as amigas.

– Se ela não quer falar comigo, eu é que não vou falar ela.

Pela primeira vez durante a tarde quente, Gabriela guardou o telefone. Abraçou as pernas, o olhar estava longe, nos prédios além do parquinho, onde Taís, Gabriela e Ana moravam quando eram crianças. Ana tinha se mudado com os pais há alguns anos para uma casa maior e mais afastada, quando ganhou um irmão e um cachorro. Gabriela sempre quis um cachorro.

Naquela ocasião, Ana tinha levado as duas meninas para brincarem com Thor. O pastor alemão era grandão e carente, roçava na perna de quem estivesse por perto pedindo carinho. Mas nunca trazia de volta as bolinhas que as meninas jogavam. Ana adorava o cachorro.

Gabriela se levantou. Estava tarde, precisava voltar para casa.

– Espero que ela esteja feliz.

Esse é o segundo capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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26.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 1


O silêncio pesava no ambiente depois de tanto barulho. O cheiro de ferro, muito vivo, inundava a sala. Seu corpo, ainda quente, estava estirado no chão. A cabeça estava de encontro com a perna da mesa, de onde escorria a nascente de sangue quente, que aumentava aos pouquinhos a poça vermelha ao pé da mesa.

– Ainda bem que ela bateu a parte de trás da cabeça – ele disse, andando pela sala, enquanto desviava do líquido vermelho que esfriava. – Seu rosto é tão bonito.

Ela sabia, é claro. No fundo, bem no fundo, ela sempre soube. Os medos, as palpitações, a ansiedade. Tudo aquilo que se confundia com amor. Nunca deveria ter exigido tanto do namorado, era só o jeito dele. Deveria era ter escrito sua carta de suicídio.

Olhando bem, nem parecia estar morta. Bastava dar uma lavadinha, encher o buraco da cabeça na frente e atrás de algodão e pintar para dar uma corzinha. Igual os agentes funerários fazem. Ficaria perfeito. Nunca desconfiariam.

Esse é o primiro capítulo de um livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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30.8.16

Boa noite, eu disse à porta. Dei dois beijinhos. Não queria que tivesse acabado tão rápido.

Boa noite, ele disse, meio sem jeito. Ria de nervoso, claramente apaixonado. Voltaria, eu sabia que voltaria. Tinha sido ótimo pra mim, tinha sido ótimo pra ele.

Voltando pra cama, abracei o travesseiro que ele tinha usado. Sorvi seu perfume de homem. Adoro dormir envolta dos aromas pesados de amor recente.

***

Ele disse que você é louca, a Aninha me contou.

Ele disse que você tentou roubar os pêlos das costas dele, a Juliana me disse.

Ele disse que viu cabeças de paus decepados na sua geladeira quando foi pegar água, disse o Evandrinho.

Ele contou todos os meus segredos. Filho da puta.

15.8.16

Ladrão de Bicicletas

O ladrão de bicicletas levou meu relógio, meu passa-tempo, meu app de meditação, meu controle hormonal, meu controle de gastos, meu calendário, minha vida social, minha caixinha de memórias, meu rádio, meus milequinhentos reais.

Deixou o ódio, o vazio e o tédio.
E todas as possibilidades que o tédio traz.

21.6.16

Alagado


– Da onde vem tanta água? - perguntou Jorge, pisando devagar no piso frio do banheiro alagado do limite do chuveiro até a porta.

Haviam sido dois meses felizes até então, em que o casal arrumava e organizava a casa nova. Amora nunca tinha gostado muito da casa dos pais. Era mal localizada, pegava muito pó e não tinha acesso à internet rápida. Mas, agora que os pais morreram, não fazia mais sentido continuar pagando aluguel. O encamento, no entanto, nunca tinha sido um problema.

Fecharam o registro. Puxaram a água com o rodo. Era tarde demais para procurar o vazamento.

Na manhã seguinte, quando Jorge entrou no banheiro segurando um copo de água da cozinha para escovar os dentes, molhou as meias na poça de água limpa.

Se certificou de que o registro estava fechado. Puxou a água com o rodo.

Examinou o cifão da pia. Examinou a torneira. Examinou as cubas. Tudo certo.

Examinou a borracha do box. Examinou o ralo do chuveiro. Tudo certo.

Examinou o reservatório de água da descarga. Examinou o vaso. Tudo certo. Trocou a borrachinha da descarga por precaução.

Na manhã seguinte foi a vez de Amora molhar a barra da calça moletom.

Fechou o registro. Puxou a água com o rodo.

Decidiu chamar um encanador.

– Não achei nada, senhora, mas cobro a cem reais a hora pela consultoria.

Foram quatro horas de trabalho.

Manhã seguinte, mais água.

Fecharam o registro. Puxaram a água com o rodo.

– O que é inundação nos sonhos, mesmo? O que é que sua vó falava?

Amora sabia que Jorge só queria descontrair. Era seu pior defeito.

– Acho que ela diria que é um pesadelo.

Resolveram passar o dia sem banho e escovar os dentes na pia da cozinha.

Manhã seguinte, puxaram a água com o rodo.

Amora espalhou sal grosso em volta da privada e colocou folhas de arruda na bancada da pia. Separou pingentes de ametista para ela e para o marido.

Na manhã seguinte, puxaram a água com o rodo.

O exorcista chegou de tarde. Não teve medo. Três ave-marias. Cinco pai-nossos. Água benta na água do banheiro.

Puxaram com o rodo.

O pai de santo chegou no dia seguinte. Benzeu o casal.

– De onde tá vindo a porra dessa água?

Jorge finalmente tinha perdido a paciência.

O pai de santo lhes deu boa sorte.

– Vamos ter que viver com isso, mesmo?

Amora já estava sem esperanças.

O pai de santo lhes deu boa sorte novamente. Partiu.

Puxaram a água com o rodo.

1.6.16

Eu tenho um túnel dentro de mim que está apodrecendo junto das minhas boas intenções.

Eu tenho um túnel dentro de mim que me afoga e me tortura sempre que eu quero me limpar.

Eu tenho um túnel dentro de mim que liga toda a minha podridão e a torna cada vez mais podre.

Catarro, saliva, pus.

Que príncipe gostaria de me beijar?