- Ei moça. Mooooça.
Abri os olhos um pouquinho. Não sabia bem onde estava. Tudo ao meu redor era escuro e úmido. A única luz vinha de um buraco lá em cima, bem longe. Ainda dava pra ver o céu branco de poluição e neblina.
- Tá tudo bem, moça?
Me virei, lentamente, me dando conta de toda a dor que estava sentindo. Meu pescoço, atrás da cabeça, minhas pernas. Engoli um pouco de sangue.
A voz que falava comigo era suave, vinha de algum lugar à minha esquerda. Não consegui distinguir nada além disso. Coloquei a mão na cabeça e senti que estava grudento. Não sabia se era água suja ou sangue ou qualquer outra coisa. Preferia não ter que descobrir.
- Você caiu lá de cima, moça. Foi um tombo e tanto. Pensei que tinha morrido.
- Eu não morri? - me forcei a dizer - O que é esse lugar?
- É o submundo.
- Pensei que tivesse dito que eu não estava morta.
- Não, não o inferno - ouvi a voz suprimir um riso - O submundo. O mundo tá lá em cima, ó. A gente tá aqui embaixo.
De repente, me lembrei de tudo. Levantei-me para sentar, sentindo todos os músculos e nervos do cox e das pernas gritarem.
- É mesmo! Eu caí! Eu sabia que nunca deveria andar em cima dos bueiros gigantes por um motivo!
- A gente sempre tem motivo pra tudo.
- Ai não! E justo hoje que eu tinha que ir no banco pagar o cartão atrasado e eu tava na rua só por cinco minutinhos que depois eu tinha que voltar pra casa e terminar meus freelas e minha dissertação e ligar pra minha mãe e ainda nem sei o que fazer para o jantar-
- Bom, aqui embaixo tem uma hortinha. Tô ficando muito bom em culinária vegana crudívera. Menos quando aparece um rato, aí eu sou onívero crudívero.
Houve um momento de silêncio. Imaginei a textura do rabo do rato passando pela língua como um espaguete grosso e peludo.
- A gente tem que sobreviver, né? É muito bom quando cai pipoca também.
- Eu preciso muito sair daqui.
- Ou você pode esquecer seus problemas e ficar aqui embaixo.
- Não. A gente tem que resolver nossos problemas, senão eles resolvem a gente. É o que minha mãe sempre diz.
- Você faz tudo que sua mãe quer?
Achei meu celular na bolsa. A luz me cegou por alguns instantes. Ouvi meu companheiro de buraco gitar também.
- Sem sinal. Merda de Tim.
- Aqui embaixo nenhuma operadora pega. Nem 3G, nem nada. Foi a primeira coisa que joguei fora quando caí aqui.
Finalmente direcionei a luz para meu interlocutor. Parecia um mago, mendigo ou um hippie louco. Talvez fosse os três. Estava sujo, barba e cabelo compridos e despenteados, um terno velho surrado. Parecia perfeitamente feliz.
- Faz tempo que você tá aqui embaixo?
- Eu cheguei a contar 96 dias. Para todo dia que eu tava aqui, fazia um risquinho no chão. Depois, perdi a conta. Foi quando comecei minha hortinha e a me dedicar à meditação.
- Três meses? Faz mais de três meses? Ninguém veio te procurar? Sua família, seus amigos, os bombeiros? Ninguém?
- A polícia vem às vezes. Ainda bem que eu não tenho um colchão, senão tirariam de mim. Eles vêm, fingem que não me vêem e vão embora. No começo achei que fossem me ajudar, depois tive medo, hoje só fico feliz que me deixam em paz.
- Você não sente falta do mundo lá fora?
- Não muito. Eu vivia pros outros, sabe? Trabalhando pros outros, gastando dinheiro pros outros, deixando os outros felizes. Esquecia de mim. Não sei porque corria tanto, me esforçava tanto. Eu não precisava de nada daquilo. Agora sei que só preciso estar aqui, com minha hortinha.
- Sempre quis uma horta. Não cabe no meu apartamento e eu nem tenho tempo pra cuidar.
- Se quisesse mesmo, você criava tempo.
- E nem adianta. O apê não é meu. Nem sei onde vou estar morando ano que vem.
- Aí é só escolher um lugar que cabe sua horta. O que mais você queria fazer que não dá tempo?
- Queria viajar o mundo. Fazer um mochilão pela América Latina antes de mudar definitivamente para a Europa.
- É, viajando não dá pra carregar a horta. Tem que escolher um dos dois.
- Tem tanta coisa pra ver no mundo e a gente aqui, nesse buraco.
- Fale por você, esse buraco é meu mundo inteiro.
- Você nunca tentou sair daqui?
- Pra quê?
- Pra... Sei lá, criar uma horta maior, abrir um food truck orgânico.
- Viu? As pessoas lá de cima só pensam em dinheiro e em trabalho. Pra que quero fazer parte disso? È muito melhor ficar aqui meditando, sem ninguém me cobrando o dia inteiro.
- Preciso muito sair daqui.
- À vontade.
Ouvi-o se mexer ao meu lado e começar a meditar.
Tinha que haver um jeito de sair daqui. Tem que ter.
7.6.15
27.4.15
Coisas que aprendi morando sozinha
Eu nunca tinha morado sozinha. Nunca fiz intercâmbio, fiz faculdade na cidade dos meus pais e, quando vim pra São Paulo fazer a pós, mudei para a casa da minha tia. Aí em novembro achei uma kitnet legal e vim morar sozinha. Nesses cinco meses aprendi muita coisa, principalmente que uma casa dá muito trabalho.
A melhor coisa de morar sozinho não é poder decorar do seu jeito, poder fazer o que você quiser, do jeito que você quer. É ter a convicção de que você tem capacidade de fazer tudo isso.
- Banheiros não são auto-limpantes e eu solto muito mais cabelo do que jamais imaginei.
- Passar pano no chão realmente faz diferença.
- Fazer comida duas vezes por dia cansa. Lavar panela todo dia é um saco.
- Investir em um bom jogo de panelas de teflon é muito importante. Eu não tenho um bom jogo de panelas de teflon.
- Tábuas de corte de madeira mofam.
- Ainda tem pó e mosquito no 16º andar. Ainda mais quando você no centro.
- Sujeira de fogão é coisa do diabo. A pessoa que inventou de embrulhar o fogão em papel alúmino pela primeira vez foi um gênio.
- Apesar de tudo isso, eu consigo dar conta de limpar tudo.
- Eu até consigo montar meus próprios móveis!
- Eu cozinho melhor que minha mãe. Desculpa, mãe.
A melhor coisa de morar sozinho não é poder decorar do seu jeito, poder fazer o que você quiser, do jeito que você quer. É ter a convicção de que você tem capacidade de fazer tudo isso.
17.4.15
Os 5 estágios pós-namoro
Terminar namoros é sempre bom. Claro que na hora parece terrível, mas, com o tempo, melhora. Depois que você termina, vem todos aqueles sentimentos de liberdade. Poder conhecer pessoas novas e poder dedicar muito mais tempo para você e as coisas que você gostava de fazer antes de conhecer seu ex, que achava todos os seus hobbies idiotas. Mas, principalmente, você quer recuperar o tempo perdido. Apresento aqui os 5 estágios decorrentes do fim de um namoro.
1. Você quer pegar todo mundo
Não importa se você namorou 5 anos ou 2 meses, a impressão que dá é que durante o tempo que você ficava com uma pessoa só, você poderia ter ficado com milhões de pessoas. E então você começa a diversificar suas escolhas, ficando com pessoas que na verdade você nem sente tanta atração assim, só pra dar uma variada e experimentar de tudo. E como é maravilhoso perceber que mais gente se sente atraído por você além daquele seu ex confortável que nem te elogiava mais.
2. Você odeia pessoas do sexo oposto
Enquanto você passava o rodo na balada, você descobre que, um mês depois de vocês terminarem, seu ex está namorando aquela menina que você morria de ciúmes e a levando para o restaurante que você adorava, mas que ele sempre reclamava que era muito caro. Passa tempo o suficiente para você perceber todas as mancadas que seu ex deu quando vocês namoravam. Você também fica chateada que ninguém com quem você fica sai mais de duas vezes com você. Você reclama com as amigas solteiras que estão na mesma situação. Você chega à conclusão de que nenhum homem presta. Você começa a pesquisar preços de vibradores, mas nunca decide qual comprar, o que te deixa ainda mais amargurada.
3. Todo mundo que você quer pegar é da sexualidade oposta da sua
Nessa de achar as pessoas que você poderia pegar são todos uns babacas, você começa a fazer amizades com pessoas que não ficariam com você. Eu acho que isso não acontece no mundo gay, mas se você for hétero, com certeza você vai começar a se apaixonar por pessoas gays. Elas são do sexo oposto e gostam das mesmas coisas que você, são sempre mais charmosas e falam com você com muita despretensão. Justamente por coisas inalcançáveis serem sempre as melhores, você nunca vai se apaixonar pelo bissexual ou pelx gay que às vezes fica com meninxs, é sempre pela bichona ou pela caminhoneira.
4. Todo mundo que você quer pegar namora
Pessoas que namoram sério, apaixonados, que nunca traem, mas que também têm tempo para os amigos e não são grudentos demais são sempre mais atraentes. É o relacionamento que você sonhava para você: uma parceria, um time. E, enquanto você ainda odeia pessoas do sexo oposto, aquele amigo parece que achou a única pessoa que valia a pena, diferente de todos os outros. Ela te trata como você realmente queria ser tratado: como uma amiga.
5. Você relaxa e começa a conhecer um monte de gente legal
Você para de correr atrás, para de sair pra balada todo fim de semana, para de pedir pros seus amigos te apresentarem amigos, sai do tinder. Você volta a se ocupar do seu trabalho, dos seus projetos pessoais, faz vários amigos solteiros super legais e cheios de planos como você, gasta seu dinheiro com viagens e cursos, volta a sair mais com sua família. Você finalmente compra aquele vibrador que tinha pesquisado preço no item 2. Faz sua vida ser exclusivamente sobre você e sobre as pessoas que você gosta de verdade. E, nessas, começa a conhecer um mundo inteiro de gente incrível. E nem precisa ser necessariamente para namorar.
1. Você quer pegar todo mundo
Não importa se você namorou 5 anos ou 2 meses, a impressão que dá é que durante o tempo que você ficava com uma pessoa só, você poderia ter ficado com milhões de pessoas. E então você começa a diversificar suas escolhas, ficando com pessoas que na verdade você nem sente tanta atração assim, só pra dar uma variada e experimentar de tudo. E como é maravilhoso perceber que mais gente se sente atraído por você além daquele seu ex confortável que nem te elogiava mais.
2. Você odeia pessoas do sexo oposto
Enquanto você passava o rodo na balada, você descobre que, um mês depois de vocês terminarem, seu ex está namorando aquela menina que você morria de ciúmes e a levando para o restaurante que você adorava, mas que ele sempre reclamava que era muito caro. Passa tempo o suficiente para você perceber todas as mancadas que seu ex deu quando vocês namoravam. Você também fica chateada que ninguém com quem você fica sai mais de duas vezes com você. Você reclama com as amigas solteiras que estão na mesma situação. Você chega à conclusão de que nenhum homem presta. Você começa a pesquisar preços de vibradores, mas nunca decide qual comprar, o que te deixa ainda mais amargurada.
3. Todo mundo que você quer pegar é da sexualidade oposta da sua
Nessa de achar as pessoas que você poderia pegar são todos uns babacas, você começa a fazer amizades com pessoas que não ficariam com você. Eu acho que isso não acontece no mundo gay, mas se você for hétero, com certeza você vai começar a se apaixonar por pessoas gays. Elas são do sexo oposto e gostam das mesmas coisas que você, são sempre mais charmosas e falam com você com muita despretensão. Justamente por coisas inalcançáveis serem sempre as melhores, você nunca vai se apaixonar pelo bissexual ou pelx gay que às vezes fica com meninxs, é sempre pela bichona ou pela caminhoneira.
4. Todo mundo que você quer pegar namora
Pessoas que namoram sério, apaixonados, que nunca traem, mas que também têm tempo para os amigos e não são grudentos demais são sempre mais atraentes. É o relacionamento que você sonhava para você: uma parceria, um time. E, enquanto você ainda odeia pessoas do sexo oposto, aquele amigo parece que achou a única pessoa que valia a pena, diferente de todos os outros. Ela te trata como você realmente queria ser tratado: como uma amiga.
5. Você relaxa e começa a conhecer um monte de gente legal
Você para de correr atrás, para de sair pra balada todo fim de semana, para de pedir pros seus amigos te apresentarem amigos, sai do tinder. Você volta a se ocupar do seu trabalho, dos seus projetos pessoais, faz vários amigos solteiros super legais e cheios de planos como você, gasta seu dinheiro com viagens e cursos, volta a sair mais com sua família. Você finalmente compra aquele vibrador que tinha pesquisado preço no item 2. Faz sua vida ser exclusivamente sobre você e sobre as pessoas que você gosta de verdade. E, nessas, começa a conhecer um mundo inteiro de gente incrível. E nem precisa ser necessariamente para namorar.
1.4.15
Do tempo que eu achava que Skrillex era uma mulher
Eu não sei distinguir gêneros muito bem. Talvez eu seja uma pessoa muito iluminada livre desse tipo de preconceito. Ou talvez eu só seja muito desligada mesmo. Na verdade as pessoas dizem que sou muito desligada com alguma frequência. A última vez foi semana passada quando eu não percebi que uns pivetes estavam para assaltar eu e minha amiga enquanto bebíamos na praça. Olha só como sou livre de preconceitos de novo. Sou mesmo um poço de iluminação.
De qualquer jeito, quando o dubstep apareceu, eu tinha certeza absoluta de que Skrillex era uma menina. Uma menina muito cool com sidecut, roupas de menino e um nome artístico legal e agressivo. Tinha uma vibe meio Joan Jet. E eu achava ótimo que uma mulher tinha inventado um gênero novo de música eletrônica tão revolucionário e barulhento que todo mundo odiava. Eu até ficava brava com as pessoas quando elas criticavam dubstep porque eu achava que elas só não gostavam porque foi uma mulher que inventou. Naquela época eu tinha acabado de sair de um relacionamento problemático, descoberto o feminismo e estava numa fase bastante misândrica. Mas eu não lembro de realmente ter brigado com alguém porque essa também era a fase que eu guardava todas as minhas frustrações. Mas, né?, precisamos apoiar a arte das minas.
Aí aconteceu de eu descobrir que a Skrillex namorava outra menina e tive que a reação que eu sempre tenho quando descubro que uma artista que eu gosto é gay: fico contente pela diversidade, mas traída porque é uma pessoa a menos pra me fazer sentir menos bosta por ser héteto. Parece que todas as meninas legais do mundo são lésbicas ou bissexuais, é tipo uma condição para ser legal. Queria mais minas legais héteros misândricas que se abstêm de fazerem sexo, como eu.
E então, depois de muito tempo, li uma notícia sobre Skrillex que usava o artigo masculino. Artigos. Palavrinhas tão pequenas que abrem o chão sob nossos pés e fazem nossas vidas perderem completamente o sentido. Nada pior que descobrir que sua ídola na verdade é um homem. Cis. Hétero. Que pesadelo.
Voltei a achar a Shirley Manson o suprassumo do cool e adotei o meu próprio sidecut. Ainda gosto de dubstep, mas agora podem dizer o que quiserem do Skrillex que não é mais problema meu.
De qualquer jeito, quando o dubstep apareceu, eu tinha certeza absoluta de que Skrillex era uma menina. Uma menina muito cool com sidecut, roupas de menino e um nome artístico legal e agressivo. Tinha uma vibe meio Joan Jet. E eu achava ótimo que uma mulher tinha inventado um gênero novo de música eletrônica tão revolucionário e barulhento que todo mundo odiava. Eu até ficava brava com as pessoas quando elas criticavam dubstep porque eu achava que elas só não gostavam porque foi uma mulher que inventou. Naquela época eu tinha acabado de sair de um relacionamento problemático, descoberto o feminismo e estava numa fase bastante misândrica. Mas eu não lembro de realmente ter brigado com alguém porque essa também era a fase que eu guardava todas as minhas frustrações. Mas, né?, precisamos apoiar a arte das minas.
Aí aconteceu de eu descobrir que a Skrillex namorava outra menina e tive que a reação que eu sempre tenho quando descubro que uma artista que eu gosto é gay: fico contente pela diversidade, mas traída porque é uma pessoa a menos pra me fazer sentir menos bosta por ser héteto. Parece que todas as meninas legais do mundo são lésbicas ou bissexuais, é tipo uma condição para ser legal. Queria mais minas legais héteros misândricas que se abstêm de fazerem sexo, como eu.
E então, depois de muito tempo, li uma notícia sobre Skrillex que usava o artigo masculino. Artigos. Palavrinhas tão pequenas que abrem o chão sob nossos pés e fazem nossas vidas perderem completamente o sentido. Nada pior que descobrir que sua ídola na verdade é um homem. Cis. Hétero. Que pesadelo.
Voltei a achar a Shirley Manson o suprassumo do cool e adotei o meu próprio sidecut. Ainda gosto de dubstep, mas agora podem dizer o que quiserem do Skrillex que não é mais problema meu.
31.10.14
10.9.14
#StoptheBeautyMadness
Eu não uso maquiagem todo dia. Uso porque gosto, porque sem lápis sinto que meus olhos parecem menores e parece que estou sempre com sono. Mas uso pouco, em geral. Só passo base e corretivo quando estou com algumas espinhas, e mesmo assim é raro. Novo levo um arsenal quando vou viajar, geralmente minha necessaire é só de lápis de olho, rímel, uma sombra neutra, no máximo dois batons e um corretivo para emergências.
Eu acho essa campanha muito legal para mostrar que a gente não precisa estar perfeita sempre, que nossa vida não é um mural do pinterest, que todo mundo tem olheira, que mulheres lindas continuam se sentindo feias por causa dos padrões de beleza impossíveis que enfrentamos, que nem a Gisele parece a Gisele quando acorda.
Mas a Gisele continua convencionalmente bonita quando acorda. Sabem porque eu não uso corretivo? Porque eu não tenho olheiras, não tenho marcas de espinha, cicatrizes, manchas, não preciso esconder pêlos nascendo no rosto. Porque eu também sou convencionalmente bonita sem maquiagem. Eu não acho empoderador ver fotos de mulheres bonitas sem maquiagem. Elas continuam bonitas.
Na minha vida, sempre me senti muito mais pressionada a não usar maquiagem e conservar minha "beleza natural", regado a muito protetor solar, hidratante e comida de boa qualidade. Eu comecei a me maquiar todos os dias com uns 12, 13 anos e ouvia muitas críticas na escola. Que ridículo ir pra aula de lápis e batom vermelho. Na faculdade, se fosse de rímel, me sentia uma drag queen, no curso de humanas onde teoricamente as liberdades individuais são mais respeitadas. Namorei por três anos um babaca que dizia - sem nenhum eufemismo - que me achava feia de maquiagem. Então eu fiquei três anos sem usar nada.
Mas eu gosto e sempre gostei. Acho que as pessoas devem usar o que quiserem, como quiserem. Cada um sabe das suas inseguranças e, se passar três camadas de corretivo ajudar a melhorar sua auto-estima, por que não?
E eu vou continuar usando meu delineador grunge - para não dizer mal passado - e meus batons escuros durante o dia porque eu não quero parecer natural.
Eu acho essa campanha muito legal para mostrar que a gente não precisa estar perfeita sempre, que nossa vida não é um mural do pinterest, que todo mundo tem olheira, que mulheres lindas continuam se sentindo feias por causa dos padrões de beleza impossíveis que enfrentamos, que nem a Gisele parece a Gisele quando acorda.
Mas a Gisele continua convencionalmente bonita quando acorda. Sabem porque eu não uso corretivo? Porque eu não tenho olheiras, não tenho marcas de espinha, cicatrizes, manchas, não preciso esconder pêlos nascendo no rosto. Porque eu também sou convencionalmente bonita sem maquiagem. Eu não acho empoderador ver fotos de mulheres bonitas sem maquiagem. Elas continuam bonitas.
Na minha vida, sempre me senti muito mais pressionada a não usar maquiagem e conservar minha "beleza natural", regado a muito protetor solar, hidratante e comida de boa qualidade. Eu comecei a me maquiar todos os dias com uns 12, 13 anos e ouvia muitas críticas na escola. Que ridículo ir pra aula de lápis e batom vermelho. Na faculdade, se fosse de rímel, me sentia uma drag queen, no curso de humanas onde teoricamente as liberdades individuais são mais respeitadas. Namorei por três anos um babaca que dizia - sem nenhum eufemismo - que me achava feia de maquiagem. Então eu fiquei três anos sem usar nada.
Mas eu gosto e sempre gostei. Acho que as pessoas devem usar o que quiserem, como quiserem. Cada um sabe das suas inseguranças e, se passar três camadas de corretivo ajudar a melhorar sua auto-estima, por que não?
E eu vou continuar usando meu delineador grunge - para não dizer mal passado - e meus batons escuros durante o dia porque eu não quero parecer natural.
20.8.14
Literatura de mulherzinha
Eu conto histórias desde criança. Lembro com muita clareza que desenhava umas sereias tortas presas a máquinas de choque que estraíam a verdade delas. Sempre assisti desenho animado demais. Meus legos e meus playmobils e minhas barbies tinham as melhores histórias. Escalavam montanhas e descobriam outros mundos, fazendo coisas incríveis. Enchi um caderno de 500 páginas com uma aspirante a Britney Spears, era bem ruim, mas fui eu que fiz. Depois veio o Harry Potter e o Senhor dos Anéis e comecei a escrever fantasia. Meus protagonistas de aventura, desde criança, quase sempre eram meninos, assim como nas histórias que eu lia, que eu via na TV e nos filmes. Mulher é meio chato, né?, melhor escrever sobre menino, que não tem essas frescuras de ficar apaixonado e quebrar a unha no meio do caminho.
Na época eu tinha a Rowling, a Mary Shelly e a Louise May Alcott. Eram poucas, mas estavam lá. Eram bem menos que a torre de escritores masculinos que recomendavam na escola e em todos os lugares. Leio bem poucas autoras femininas, provavelmente por causa de preconceitos instituídos há muito tempo, de que mulher só escreve "coisa de mulherzinha" e eu, obviamente, não era uma mulherzinha.
Parei de escrever na faculdade. Por medo das pessoas lerem o que eu lia, por me sentir incrivelmente inadequada porque ainda escrevia terror e fantasia no meio dos hipster e de histórias tão mais importantes e porque alguém me disse que eu deveria tentar mudar, parar de escrever fantasia, essas coisas de criança. E eu não conseguia. Porque eu não gostava de escrever outras coisas, porque estava entrando em depressão, mas também porque não tinha lá muitas referências. A Rowling, por mais incrível que seja, não pode lutar contra todas as batalhas e todos os dementadores sozinha.
Eu lembro de ter prometido para mim mesma que não escreveria no blog sobre coisas de menina para não espantar meus poucos leitores meninos, mas eu não sei, na verdade, o que são "coisas de menina". Talvez fosse cosméticos, cabelo e acessórios ou talvez fosse... relacionamentos? É isso mesmo, né? Relacionamento é "coisa de menina". Eu prometi para mim uma vez que nunca escreveria sobre meus poucos relacionamentos fracassados para não ficar parecendo a Tati Bernardi. Mas é engraçado que quando o Chico Buarque ou mesmo o Xico Sá (*cospe no chão*) falam sobre isso, é lindo e poético, mas quando uma mulher fala, bom, é só coisa de mulherzinha histérica que não tem mais com o que se preocupar, passando de um namorado para outro, amando a todos com a mesma intensidade desenfreada. Eu nunca quis ser dessas mulheres. Eu queria ser um homem, que não ama ninguém, apenas a ele mesmo e que tem todas as licenças poéticas do mundo para escrever sobre sentimentos como se fosse um outsider, como o Tim Burton.
Mas, bem, eu sou uma mulher e escrevo porque preciso. E achei recentemente esse tumblr incrível que mostra que eu - e todas as outras meninas que querem escrever - não estamos sozinhas e que ainda há esperança pra gente. E que vamos conquistar o que é nosso e que não precisamos imitar os meninos para fazer isso.
Recentemente voltei a ler um monte de blogs de meninas que acho geniais e estou tentando acompanhar mais mulheres que fazem coisas legais, mas é bem mais difícil, por algum motivo - ou porque demanda mais tempo - encontrar mulheres escritoras. Se tiverem indicações de coisas bem legais, estou aceitando :)
Na época eu tinha a Rowling, a Mary Shelly e a Louise May Alcott. Eram poucas, mas estavam lá. Eram bem menos que a torre de escritores masculinos que recomendavam na escola e em todos os lugares. Leio bem poucas autoras femininas, provavelmente por causa de preconceitos instituídos há muito tempo, de que mulher só escreve "coisa de mulherzinha" e eu, obviamente, não era uma mulherzinha.
Parei de escrever na faculdade. Por medo das pessoas lerem o que eu lia, por me sentir incrivelmente inadequada porque ainda escrevia terror e fantasia no meio dos hipster e de histórias tão mais importantes e porque alguém me disse que eu deveria tentar mudar, parar de escrever fantasia, essas coisas de criança. E eu não conseguia. Porque eu não gostava de escrever outras coisas, porque estava entrando em depressão, mas também porque não tinha lá muitas referências. A Rowling, por mais incrível que seja, não pode lutar contra todas as batalhas e todos os dementadores sozinha.
Eu lembro de ter prometido para mim mesma que não escreveria no blog sobre coisas de menina para não espantar meus poucos leitores meninos, mas eu não sei, na verdade, o que são "coisas de menina". Talvez fosse cosméticos, cabelo e acessórios ou talvez fosse... relacionamentos? É isso mesmo, né? Relacionamento é "coisa de menina". Eu prometi para mim uma vez que nunca escreveria sobre meus poucos relacionamentos fracassados para não ficar parecendo a Tati Bernardi. Mas é engraçado que quando o Chico Buarque ou mesmo o Xico Sá (*cospe no chão*) falam sobre isso, é lindo e poético, mas quando uma mulher fala, bom, é só coisa de mulherzinha histérica que não tem mais com o que se preocupar, passando de um namorado para outro, amando a todos com a mesma intensidade desenfreada. Eu nunca quis ser dessas mulheres. Eu queria ser um homem, que não ama ninguém, apenas a ele mesmo e que tem todas as licenças poéticas do mundo para escrever sobre sentimentos como se fosse um outsider, como o Tim Burton.
Mas, bem, eu sou uma mulher e escrevo porque preciso. E achei recentemente esse tumblr incrível que mostra que eu - e todas as outras meninas que querem escrever - não estamos sozinhas e que ainda há esperança pra gente. E que vamos conquistar o que é nosso e que não precisamos imitar os meninos para fazer isso.
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Recentemente voltei a ler um monte de blogs de meninas que acho geniais e estou tentando acompanhar mais mulheres que fazem coisas legais, mas é bem mais difícil, por algum motivo - ou porque demanda mais tempo - encontrar mulheres escritoras. Se tiverem indicações de coisas bem legais, estou aceitando :)
17.8.14
Colo
Cachorro é foda. Tropecei no Tom todos os dias da nossa vida enquanto moramos juntos e ele continuava dormindo ao lado da minha cadeira, sempre pertinho de mim enquanto eu trabalhava. O Tom sempre soube quais eram as boas companhias, só aceita essas. É mal-educado com as pessoas que não valem a pena. Pequeno, até chega a morder. Arrogante, não mostra carisma para quem não merece. E sempre foi assim. Desde filhotinho, quando era incrivelmente fofo e peludinho, mesmo nunca tendo gostado de colo ou de carinho demais. Quando fui morar em outra cidade, foi dele que mais senti falta. E ele, dizem, sentiu muito a minha, também.
Mas agora o Tom está ficando velho. Velho e manhoso. Faz 14 anos em outubro. Não consegue mais subir no sofá sem ajuda e quer sempre estar encostadinho na gente. Cismou de dormir na cama com os donos, até quer subir no colo enquanto estamos almoçando. Passou o dia longe de mim, andando pela casa, fazendo companhia para meu pai. Agora que estamos sozinhos, veio pedir carinho. Colocou as patas dianteiras na minha cadeira, pedindo colo.
Mas eu sei que ele sabe que quem está precisando de colo sou eu.
Mas agora o Tom está ficando velho. Velho e manhoso. Faz 14 anos em outubro. Não consegue mais subir no sofá sem ajuda e quer sempre estar encostadinho na gente. Cismou de dormir na cama com os donos, até quer subir no colo enquanto estamos almoçando. Passou o dia longe de mim, andando pela casa, fazendo companhia para meu pai. Agora que estamos sozinhos, veio pedir carinho. Colocou as patas dianteiras na minha cadeira, pedindo colo.
Mas eu sei que ele sabe que quem está precisando de colo sou eu.
3.8.14
As colagens de Frederico Hurtado
Eu não sei o que é sobre colagem que me atrai tanto. É lindo e bizarro ao mesmo tempo, como todas as melhores coisas do mundo. Frederico Hurtado é um arquiteto argentino, de Buenos Aires, que faz as colagens mais lindas. As imagens resultantes parecem sonhos, ainda mais aquelas feitas em contracapas de livros antigos, fazendo tudo parece ainda mais onírico e esquecido.
Fonte: Frederico 2011
Fonte: Frederico 2011
28.7.14
Inspired: o que significa ser tatuado hoje
Eu gosto de vídeos curtos e objetivos. Um, dois minutinhos são tempo o suficiente para expressar o mundo. E, geralmente, nada fica sobrando. Em Inspired Tattoo Portraits, vemos tatuagens, seus donos e seus arredores. É um minutinho para ver detalhes que contam histórias, que dizem mais que horas de conversa poderiam dizer, sem ficar repetitivo e cansativo. Costumam reclamar da rapidez do mundo contemporâneo, mas às vezes é melhor assim: sutil e delicado.
21.7.14
Casarão
Sempre gostei muito do casarão em ruínas na Paulista. Eu não sei o nome certo dele, deve ser Casarão. Ouvi dizer recenemente que ele seria reformado para ser um museu. Fiquei feliz porque seria mais um centro cultural, mas fiquei triste porque eu gosto dele assim: arrasado. Então fui lá e fotografei, antes que ele fique convencionalmente bonito de novo.
18.6.14
Tim Burton's Hansel and Gretel
Em 1982, quando Tim Burton ainda era animador, ele fez uma versão de João e Maria para a Disney Channel, que foi ao ar em 1983, em um especial de Dia das Bruxas. As críticas da época disseram que era mal-feito e sem ritmo, que os 40 minutos poderiam facilmente terem sido resumidos em 20. A Disney achou sombrio demais (como achou todos os filmes iniciais de Burton, inclusive a versão live-action de Frankenweenie, de 1984) e o filme nunca mais foi exibido - em lugar nenhum, nem mesmo na internet.
É meio tosco, sim. Dá pra ver claramente o papel colado na parede e onde a maquiagem da bruxa termina. Mas os outros recursos, principalmente o desenho animado misturado com live-action, são de uma simplicidade tocante. Dá para ver todos os temas explorados por Tim em outros filmes: as mesmas listras, os mesmos brinquedos-monstros, as mesmas colinas tortuosas. Está tudo aí, com orçamento baixíssimo. Um pré-Beetlejuice, quase. É tão singelo que eu não sei como conseguiram mantê-lo escondido por tanto tempo, sem que nem mesmo o diretor quisesse que viesse a público.
Obrigada, Tim, novamente, por sempre me fazer chorar.
Na verdade foi exibido na exposição do Tim Burton, criado pelo MoMA, que está rodando o mundo. Eu vi um pedacinho do filme quando fui na exposição do LACMA, em 2011, mas não gosto muito de ver vídeo em exposição. Tinha certeza que encontraria depois online. Ano passado descobri que esse era o filme mais procurado no MakingOff e que ele realmente não existia em lugar nenhum. Mas parece que alguém achou um VHS antigo e fez o favor de digitalizá-lo.
12.6.14
Corpo, horror, beleza.
Como todos os nossos corpos, talvez. Kate Lacour traduz corpos em diagramas anatômicos distorcidos que poderiam ser assustadores se não fossem tão poéticos. Sentados em posição de lótus, corpos com genitais e cobras e monstros em lugares de outros membros parecem até naturais, direto de um livro didático antigo. Não me canso de olhá-los e toda vez me fazem sorrir.
Para ver mais: Sharkbrains
Para ver mais: Sharkbrains
30.5.14
29.5.14
Malabares
Toda segunda um parquinho na Vila Madalena abre para ensaios de malabares. Como eu não sei fazer malabarismo nem com uma bolinha, resolvi tirar umas fotos de quem sabe.
8.5.14
Escrever é sexy
Nos anos 20 e 30. O que me lembra que eu preciso voltar a escrever.
Fonte: Retronaut, meu site favorito
Fonte: Retronaut, meu site favorito
3.5.14
Potes de Tatuagens
Pele encrustrada com borracha derretida, carvão e mais sei lá o que em prisioneiros poloneses, entalhados com pedaços de vidro, clips de papel e lâminas de barbear. Extraídos de seus corpos depois de mortos e colocados em vidros de formal numa universidade e fotografados por uma artista. É impossível ficar melhor que isso. Acho que se nada disso apodreceu e virou um câncer, nunca mais preciso me preocupar com os meus dois rabisquinhos esterilizados numa clínica.
Fontes: aqui+ aqui
O projeto Special Characteristics (Características Especiais) foi apresentado pela primeira vez na Paris Photo em 2010. A série apresenta tatuagens recolhidas pelo Departamento de Medicina Forense da Jagiellonian University, em Kraków, desde 1872. A coleção de fotografias também foi chamada de Criminal Code (Código Criminal) por revelar os tipos de códigos e o senso de humor dos criminosos, mas isso parece um pouco superficial considerando o conteúdo bem pouco nebuloso dessas tatuagens, compostas basicamente de pornografia (exceto pela Marca Negra aí no meio, alguém precisa pesquisar sobre isso).
É legal também que a fotógrafa é uma mulher. Acho tão inspirador achar outras mulheres que lidam com o mórbido e o bizarro. Katarzyna Mirczak nasceu na Polônia em 1980, estudou arqueologia, se especializou no Egito e no Oriente Médio, mas depois acabou se dedicando à fotografia. Todos os seus projetos têm uma carguinha mórbida, desde este mesmo projeto das tatuagens, até diversos ensaios envolvendo vítimas de homicídios. Em uma entrevista para a Tygodnik Powszechny, na edição de 18 de novembro, ela afirma que "fotografia nunca é objetiva. É feita por um par de olhos, atrás desse par de olhos está um cérebro, depois os sentimentos de alguém e experiências".
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