7.7.11

Uma história de amor com a literatura

A pedidos, vou contar do dia que eu vi o Neil Gaiman. E já aviso que esse vai ser um post bem grande. Mas a história começa muito antes disso. Começa quando eu ainda estava no Brasil. Eu estava em casa, feliz e sorrindente, quando, lendo o blog maravilhoso do Neil Gaiman, descubro que ele ia fazer uma book tour comemorando os 10 anos de publicação de Deuses Americanos. E um dos eventos seria em Los Angeles - em um dos dias que eu estaria aqui! Tentei comprar, mas eles não aceitaram meu endereço do Brasil. Desisti de ir, o Neil sendo um autor muito popular e obviamente os ingressos acabariam antes de eu chegar em LA (uma semana antes do evento) e poder comprar com meu endereço daqui. Mas aí quando eu cheguei, vi que esse era o único lugar que ainda tinham ingressos sobrando. Comprei imediatamente.

Antes de continuar a história, quero fazer um pequeno adendo. Conheci Neil Gaiman numa época que eu estava lendo quadrinhos e fiquei sabendo que Sandman era um clássico e tinha que ler e que era a melhor história em quadrinhos do mundo. Além disso, eu gostava de Enter Sandman, do Metalica. Meu irmão acabou comprando o primeiro arco, Prelúdios e Noturnos, daquele de capa dura da Conrad, e me deu pra ler. Me apaixonei. Me identifiquei muito. Ele escrevia histórias de terror com um quê de gótico, mas muito, muito amor. Era exatamente o que eu queria escrever, o que eu sempre tentei fazer. Comprei outros Sandmans, mas não consegui completar a coleção por ser muito caro. Um dia postei uma transcrição de uma das histórias que eu mais gostava e acabei descobrindo pela internet mais amigos que gostavam. E eu também fui achando outras obras, outros livros do Neil na internet pra ler. E me apaixonei ainda mais pelas suas prosas de narrativas fantásticas, cheias de descrições delicadas, do jeito que eu sempre quis escrever. Até que um desses amigos, o Gabriel, me indicou Deuses Americanos. E eu fui atrás.

E foi o melhor livro que já li na vida. Baixei o .pdf de 700 páginas, no cursinho, e li na tela brilhante do computador em uma semana, atropelando os módulos do Anglo porque queria voltar a ler. É impressionante a história da rivalidade entre os deuses da antiquidade e os deuses do mundo moderno. E todas as religiões convivendo juntas, achando cada um o seu espacinho no coração das pessoas dos Estados Unidos. E foi tão significativo pra mim que, depois de anos achando a igreja um lugar meio sem graça, meio hipócrita, sem conseguir me identificar direito com aquelas doutrinas, aquelas pessoas, só indo porque minha mãe obrigava, eu finalmente resolvi parar de ir. Porque se eu acreditasse em só um deus, eu estaria negando todos os outros. E eles existem, na cabeça das pessoas. E se as coisas existem na cabeça das pessoas, já nos ensinou Dumbledore, é claro que são reais.

E então, 5 anos depois, estava eu em um ônibus na ensolarada Los Angeles, indo para Beverly Hills ver o homem que eu agora seguia até no twitter. O ponto em que desci era bem em frente ao teatro e eu sabia especialmente que era ali porque tinha uma fila que virava o quarteirão indo ver o Deus do Rock da Literatura. Entrei na fila esperando pra recolher meu ingresso (sim, tinha que retirar na porta) e atrás de mim estavam duas senhoras. Falei pra elas: "Parece que estamos num show de rock." E uma delas respondeu: "Sim, ele é um deus do rock. Bem, não pra gente que o conhece há 20 anos..." e então eu percebi que atrás de mim estavam amigas pessoais dele. Gente que ia tomar chá da tarde e jogar baralho com um dos meus maiores ídolos. Depois as ouvi dizendo que a Amanda Palmer (que é quem eu quero ser quando eu crescer) era uma "sweet girl". Esse é o blog de uma delas, falando sobre o evento. Tem fotos boas. Não pedi pra me levarem no backstage, nem nada, porque sou legal, não queria atrapalhar e idiota.

Esperei uma hora na fila até pegar meu ingresso e entrar no teatro. Era um dos teatros mais chiques que eu lembro de ter estado. Com bar servindo coquetéis, a água mais cara da minha vida, decoração kitsch nas paredes, cortinas roxas de veludo enormes no palco e 1800 cadeiras vermelhas também de veludo. Estava na fila P, mas pelo menos era no corredor, então não tinha nenhuma cabeça na minha frente. O evento demorou pra começar porque ainda tinham pessoas comprando ingressos na porta, mas não foi necessário que ninguém sentasse no chão. Enquanto isso eu lia meu Deuses Americanos (finalmente em papel!) na edição de aniversário de 10 anos, autografada, que comprei junto com o convite.

E então começou. E foi maravilhoso. Eu já tinha visto entrevistas no youtube do neil e até já tinha ouvido um podcast com entrevista sua, mas vê-lo ao vivo foi... Ele é tão inteligente e engraçado e culto e tem a voz mais sexy, com aquele sotaque britânico e arrastando as palavras no final das frases. Ele é exatamente o que escreve: parece gótico, mas é de uma delicadeza e um amor incrível. Até quando ele reclama de alguma coisa, faz isso com uma graça... E ele tem mãos bonitas. Ele falou do livro e da série da HBO e de apadtações e de Dr Who e da sua adolescência e de religião e da Wikipédia e da vida. E fizeram uma leitura em voz alta de uma das minha partes preferidas do livro, que se passa aqui em Los Angeles. E foi maravilhoso e engraçado e eu sou uma pessoa muito feliz que se repete de embriaguez e satisfação.

E na volta pra casa me perdi numa cidade grande e nova, à meia-noite, sem celular, nem número nenhum pra ligar. E com fome desde que o evento começou. Mas eventualmente consegui um Subway 24 horas e consegui voltar pra casa. Pelo menos eu tinha um livro muito grande pra bater em alguém que eventualmente quisesse me incomodar. Mas tirando isso, foi ótimo.

E vou postar alguma fotos pra compensar o texto gigantesco.





5 comentários:

Gabriela Couth disse...

AI QUE LINDOOOOO!!!!!!!!!

Também gosto muito do Neil Gaiman, mas ainda estou no começo da "caminhada". Comecei a ler Sandman, também amei, e também comecei a ler um livro dele numa livraria. Não somente o jeito que ele escreve, mas principalmente a capacidade de escrever sobre tantas coisas fantásticas...

Eu acho que eu também não teria coragem de pedir pra ir ao backstage, mas pelo menos o autógrafo e vê-lo ao vivo deve ter sido suficiente! Que sonho!

Agora fiquei morta de vontade de ler Deuses Americanos, e vou cantar o meu namorado (que é bem pior do que eu) para ver se ele compra esses dias! Senão, compro eu :))

Beijo! Amei o relato!
;**

sobrefatalismos disse...

Olha, eu vou parar de te visitar, viu? Cê tá muito "podre de rica", eu to morrendo de inveja, aff!

Kaazinha Yamauchi disse...

nossa que bom que tudo deu certo viu! sei como é querer conhecer alguém que você admira e gosta, ah você gosta de harry potter hasuashas citar dumbledore sahasuashas,muito nostálgico o fim, adorei o blog. Beijo
káh :)

Kamilla Barcelos disse...

Que luxo, menina. Ainda nunca li nenhum livro dele. Mas morro de vontade pq só já ouvi elogios.

Lilly Queers disse...

Ai Debs!!! que bom que está feliz, sinto seu inebrio daqui e aproveito a brisa, como quando uma pessoa fuma e passa a fumaça pra boca da outra. Como vc merece ser feliz! você sente as coisas de verdade, e isso é delicioso.

( Quanto pagou na água?)