4.5.16

Se eu te disesse que minha mãe amaldiçoa tudo que não gosta em mim, você acreditaria?

Vovó era meia-índia, no sentido de que minha bisavó era índia, e tinha uns poderes de prever o futuro e interpretar os sonhos. Intuição feminina que vem da terra, sabe? Minha mãe, não. Minha mãe amaldiçoa.

Primeiro foi o cabelo que sempre quis pintar e ela não deixava. Pintei um dia e no seguinte não tinha mais nada. Caíram os fios um por um no travesseiro, deixando um explêndido ninho de passarinho roxo-blueberry.

Depois foram os lençois que eu comprei. Brancos. Minha mãe avisou para não comprar branco. Branco mancha. Na primeira lavagem, meu lençol saiu tão empesteado de toda a sujeira, cabelo velho e restos de insetos mortos acumulados na máquina que tive que jogar fora.

Me apaixonei pelo meu primeiro vaso de minirosas vermelhas. Minha mãe falou que não a deixasse na janela durante as tempestades. Fui teimosa. Ela aguenta. Eu aguento. Na manhã seguinte encontrei a terra espalhada na calçada, em volta de um vaso quebrado e flores que se esforçavam em sobreviver à queda do décimo-sexto andar.

Comida apodrece.

Pratos que escolhi sozinha quebram um a um.

Nunca consigo me divertir sem ficar de ressaca.

Na primeira transa sem camisinha com um homem que minha mãe certamente não aprovaria, tive que abortar.

Não consigo tomar uma decisão contrária às suas vontades sem encontrar alguma sorte de aborrecimento. Tenho certeza que são maldições.

Mas deixa eu te contar outro segredo, amigo. Venha cá, que esse eu tenho que falar baixinho. Se eu te dissesse que também amaldiçôo tudo que não gosto nos outros, você acreditaria?

Um comentário:

Gabriela Couth disse...

Hahahah que conto maravilhoso!