5.8.15

Não sou daqui. Não sou de lugar nenhum.

“De onde você é?”

Ai meu deus, vou ter que contar a história toda. Meu deus, a preguiça, meu deus, os comentários e as mesmas piadinhas de sempre.

“É de São Paulo mesmo?”

Não… Sou… Do interior. Isso, sou de Campinas.

“Nasceu na Maternidade? Todo mundo de Campinas nasce lá, os mais novos nascem no CAISM.”

Não, eu…

Eu nasci nos Estados Unidos, meus pais são brasileiros e foram estudar lá. Moraram quase 10 anos. Eu vim para o Brasil com dois. Não, não lembro nada. E eu não sinto lá muito ligação com os Estados Unidos de qualquer jeito.  Aí mudamos pra Campinas, para a casa onde moramos hoje, e eu morei lá até uns 3 anos. Aí fomos para São Paulo de novo e eu fui criada como americana, me matricularam numa escola americana no ensino infantil. Aí com uns 11 anos nos mudamos para Campinas de novo, mas eu nunca me acostumei, sabe? Sempre quis voltar pra cá. Aí arrumei um jeito de voltar.

E na escola americana, eu era brasileira. E em todos os outros lugares, eu era americana. E em Campinas, eu era de São Paulo; e em São Paulo, eu sou de Campinas. E estou morando aqui há 3 anos e já acho que é tempo demais. Tô pensando em me mudar. Para longe, bem longe, procurar minha casa, minhas raízes.

Eu sou judia. Meu pai é judeu, meus avós fugiram da guerra. Minha mãe é cristã, mineira, bem brasileira. Minha vó tinha cara de índia. Nenhuma das minhas tias ou meus primos - e muito menos eu - têm cara de índio. Só uma prima. Dizem que ela puxou o pai dela, que tinha cara de índio. Eu sou super alemã.

Na família da minha mãe, nós somos os sobrinhos judeus. Minha mãe age como ídiche mame mesmo sendo cristã. Acho que ídiche mame deve ser o absoluto de todas as mães. Curiosamente - ou obviamente - o único lugar onde me senti pertencente foi em Israel. Todo mundo parecia um pouco comigo. Judeu é tudo igual.

Minha família do Rio, tradicionalmente judaica, diz que nós não somos judeus, porque não nascemos de ventre judaico. Por favor, não tirem o meu único resquício de identidade.

Minha mãe diz que o lugar onde ela passou mais tempo na vida foi Campinas, já está lá há 15 anos. Ela tem mais de 60. Meu pai diz que acha que é hora de se mudar quando começa a reconhecer gente demais na rua. Estou em São Paulo há 3 anos e já mudei de bairro 3 vezes. 

Minha mãe nunca enterrou meu cordão umbilical. Às vezes acho que nunca vou encontrar minha casa. Vou ficar pra sempre buscando e buscando e buscando e morando no mundo inteiro. 

Não sei o que são raízes.

Um comentário:

Gabriela Couth disse...

Deborah, apesar de ter sido um soco no estômago, eu amei muito o seu texto (como sempre). Essa parte "E na escola americana, eu era brasileira. E em todos os outros lugares, eu era americana. E em Campinas, eu era de São Paulo; e em São Paulo, eu sou de Campinas. ", meu deus do céu, que coisa maravilhosa.

Eu, ao contrário de você, nasci e cresci no mesmo quarto, até os 24 anos, que foi quando eu resolvi sair de casa e vir para o Rio. Eu tenho raízes profundas num quarto só, tanto que hoje não me sinto em casa, e tudo que eu queria era ter um lugar para poder me plantar de novo. O mais engraçado disso tudo é que somos, mesmo, como nossos pais. O meu, carioca, passou a juventude no Rio e foi se estabelecer em Fortaleza, para eu então resolver tentar a vida no Rio. E não posso deixar de imaginar que um dia talvez você quem sabe se case com um cara de outro lugar, e vocês quem sabe tenham um filho em um outro país, e ele um dia também reflita sobre o cordão umbilical dele que nunca foi enterrado. Ou então, quem sabe, você passe o resto da sua vida viajando, e sendo muito feliz assim, obrigada - afinal, as nossas escolhas estão aí pra gente, certo?

Só sei que quero uma casa, sim, algumas raízes também, e quando tiver, você sempre será bem vinda.

Um beijo!