28.8.17

Todas as mulheres da minha família eram loucas


Eu passo os dias desviando dos moradores de rua do centro da cidade. Tem uma moeda, senhora? Por favor, senhora! Nos piores dias puxavam minhas roupas, agarravam meus braços. Não tenho, senhor, me desculpe, não tenho nada. Loucos, todos eles. Coitados, loucos.

Minha vó era louca, me diziam. Tirava as roupas no meio da rua, me diziam. Via coisas, me diziam, estava sempre do lado de lá. Você é igualzinha sua vó, me dizem sempre. As mesmas mãos, o mesmo nariz, a mesma personalidade. Agora que cortou o cabelo, nossa, idêntica. Se ela vivesse numa época mais libertária, ela seria igualzinha a você, me dizem sempre. 

Quanto tempo vai levar até eu também ficar louca?

Eu queria ser dessas pessoas cujo maior medo não é enlouquecer. Entrar em mim mesma tão profundamente que ninguém mais consegue acessar. Virar um jacaré com a barriga tão estufada de suas próprias ideias que quase chega ao ponto de explodir. Quase. Só não explode por compaixão dos funcionários do asilo que olham de longe, passam a mão na cabeça, dizem que vai ficar tudo bem, ela passa os dias dentro da própria cabeça, falando umas coisas que ninguém sabe direito.

Afinal, quais são os limites da mente?

Eu sonhei com você ontem à noite. Não era um sonho, na verdade. Era uma alucinação provocada pelo chá do xamã da floresta. Era uma bebida sagrada, me disseram. Te abre pra mundo novos, me disseram, novos entendimentos de você mesmo.

Agora eu estou convencida de que vejo o futuro.

Eu te vi claramente ontem à noite. Estávamos fodendo como se não houvesse mais nada no mundo. A voz na minha cabeça me disse que você iria me procurar. 

Estou esperando. 
Eu vejo o futuro.

O chá do xamã da floresta também me disse que eu vou enlouquecer. Isso é só o primeiro passo, a voz na minha cabeça me disse. Você vai viver em completo isolamento e ninguém vai te reconhecer, perdida na sua própria mente. 

Estou esperando. 
Eu vejo o futuro.

22.8.17

A cidade de São Paulo desaba sobre a gente

O Memorial da Resistência deve ser o pior lugar de São Paulo.

Talvez até seja do mundo inteiro. Antes mesmo de entrar no museu vemos os monstros. Eu moro no centro há três anos e nunca tinha visto ninguém fumando crack. Nem à noite, quando desço do ônibus no Anhangabaú. Devo ser mesmo tapada pra caralho. Os zumbis, enfim, continuam populando os arredores do museu, sentam nas beiradas, são a vista das janelas que insistimos em não ver.

O Memorial da Resistência deve ser o pior lugar de São Paulo.

Do lado de dentro, a memória de uma centena de presos políticos de outros tempos. Suas palavras estão inscritas nas paredes e sua energia continua pesando no ar. Tudo lá dentro é insuportável. No quarto andar, uma exposição do Mauro Restiffe retratava o cotidiano do tempo dos presos políticos. Achei uma merda todas aquelas fotos de grávidas granuladas e mal enquadradas. Fotos de outros tempos que não somam nada, não dizem nada.

O Memorial da Resistência deve ser o pior lugar de São Paulo.

Estudar artes me deu o privilégio de admitir que não gosto de coisas consagradas. Não gostou, por quê, Deborah? Porque tenho mestrado na USP, porra. O mestrado na USP na verdade só serviu mesmo pra criar essas casca grossa e reiterar toda essa presunção. Fez bem, até. Bons frutos. O Mauro Restiffe, por outro lado, deveria é sentir vergonha de ser exposto no antigo prédio do DOPS. Eu teria.

O Memorial da Resistência deve ser o pior lugar de São Paulo.

A gente tenta, tenta, tenta ressignificar as coisas e não consegue. Os fantasmas ainda estão lá. Os fantasmas, independentemente de quantos exorcismos fizermos, os fantasmas talvez fiquem para sempre. Talvez eu mesma nem goste mais de fotografia.

1.8.17

Cinco horas da manhã

Acordei no susto com uma mosca voando pra dentro do meu ouvido. Ficou presa ali. Pus a unha pra tirar e não alcancei. A senti remexendo as perninhas dentro do meu túnel do carpo pelo resto da manhã.

Meu corpo é tão inteligente quanto o de uma ostra, será? Quanto tempo leva pra ela se transformar numa pérola de cera dourada? Quanto tempo leva pra ela botar ovos e as larvas cavocarem até meu cérebro? Vou ter alucinações? Vou me tornar iluminada? Vou trazer mensagens dos mortos até que minha mente inteira seja corroída pelas larvas de uma mosca que um dia entrou sem querer no meu ouvido?

Talvez eu esteja mesmo ficando louca. Limpando o ouvido demais. Acordando com zumbidos de insetos numa casa recém-dedetizada onde há dias não vejo sequer uma joaninha.

Ou talvez seja mesmo minha avó morta zumbindo na minha orelha às cinco horas da manhã. A vovó, meia índia, meio bruxa.

É hora de acordar, filhinha. Ela diria com as mãos cheirando a coentro e louro. Vai fazer comida pra alimentar de luz esse povo todo que morre de fome.

25.7.17

Estou sempre com fome

Queria saber se minhas amigas sentem essa fome toda que eu sinto
É uma fome que me persegue o tempo todo
Uma fome de quê?

Minhas amigas não sentem essa fome toda
É por isso que elas são magras
Que arrumam namorados
Que casam
Que engravidam
E continuam magras

Elas nunca têm fome

Talvez eu nem quisesse um namorado
Talvez eu só quisesse

Minhas amigas nunca têm fome
Elas estão sempre de dieta
Leite dá espinha
Queijo entope as veias
Chocolate faz mal pro cabelo
Elas arrumam o cabelo com mil produtos

Eu tenho preguiça de arrumar o cabelo
É por isso que corto ele bem curtinho

Elas estão sempre mudando de cor
Gastam fortunas com coisinhas para a casa
que dividem com os namorados
Cada uma enche os buracos como pode

A fome que eu sinto é por coisas
que nunca vou conseguir
comer

Mais um poema que fiz para você

Os morangos mofaram
enquanto trepávamos

Joguei fora
três litros de sopa
estragada

Comi os morangos
com mel
doces e podres

como nós dois

Preciso mesmo
de decepções
para escrever
poesia


27.6.17

The Dream Enchantress

No domingo, chegou em casa o Tarot mais bonito do mundo. É um portal para outro mundo e é meu. Comprei sem ver todas as cartas, na promoção, numa loja que não sabia se entregaria. Chegou. Perfeitinho. Nem acredito que tenho uma coisa tão bonita.

Semana passada comecei a trabalhar num lugar novo. Faço exatamente o que gosto, respeitam meu trabalho e me tratam bem. Eu nem acredito. Fico logo procurando os erros nos contratos, as pegadinhas, os mal entendidos. Até o baralho disse pra eu deixar de ser tonta e aproveitar.

Não estou gorda ou magra demais. As feridas na minha pele estão sarando. Não sinto vontade de beber sozinha, à noite. Pela primeira vez em anos, tenho dinheiro. Fico procurando defeitos nos espelhos pra ver se acordo do transe.

Deveria estar na Alemanha? Deveria estar em Nova Iorque? Deveria ainda estar tentando viver da minha arte? Decidi parar de fugir de mim mesma. Minha história vai me seguir para qualquer lugar. Prefiri fazer as pazes com as entrelinhas, viver com calma, preparar o jantar todos os dias.

Hoje teve queijo. Teve baralho novo. Teve amigos. Não teve espaço para a solidão.

Eu, que quando sou triste, sou Kafka, não sei se me reconheço agora que estou feliz.

12.5.17

Mal contato

É meu terceiro vibrador que morre.
Mal contato.
Parece simples, né? Mal contato.
É só juntar uns fios, uns cabos.
Se abrir a maquininha, tá cheio de chip.

Parecem cidadezinhas
com prédios, ruas e conexões.
Aquele prédio ali é o meu. O seu é no outro lado da cidade.
Se a gente pegar um onibuzinho consegue chegar rapidinho.

Mas você não quer.
Nem meus cabos, meus fios ou meus chips querem.
É só uma questão de mal contato.
Parece tão simples, né?
Vou ter que usar meus dedos.

Mas eu queria os seus.

7.5.17

Morte na Família

Nos últimos anos duas amigas muito próximas perderam seus pais de repente. O que você fala numa hora dessas? Ele tá num lugar melhor? Longe de você e da sua família que perdeu um provedor prematuramente?

Ontem minha tia avó morreu. Tia avó. Não foi de repente. Tinha 95 anos, alzheimer e fazia meses que estava definhando no hospital. Foi um puta alívio. Só fico chateada pelo apartamento gigante a uma quadra do Leblon que eu não vou herdar. Tia avó. Mas adorava ela pra caralho. De verdade. Quando ela ainda tinha cabeça, era super engraçada. E quando não tinha, era um doce. Mas não foi câncer, não foi de repente, foi um alívio. Pobre Tante, parou de sofrer. Foi igual o Tom que decidimos sacrificar depois de 17 anos cuidando da nossa família. Um puta alívio.

Fui com meus pais pro velório. Da tia avó, não do cachorro. O Tom teve uma cremação comum com outros cães sacrificados. Não pedimos as cinzas. Não quero guardar nem as cinzas dos meus pais. Energia tem que circular. 

Fui no velório. Meu pai já tava lá. Fui com a minha mãe. A cerimônia era no último andar de um shopping center enorme, teto de vidro e tudo. Teoricamente eu sabia chegar, mas eu sempre me perco, ainda mais em lugares que não conheço. Com a minha mãe tem que usar as rampas. Nunca vi rampas tão íngremes, era como surfar no piso do prédio. "Rio de Janeiro," eu disse pra minha mãe. "Tudo é zoado aqui." E era na porra do último andar. Tinha hora pra chegar. Antes do Shabbat, me disseram, não deixa escurecer.

Último andar. E nunca chegava. Rampas e escadas rolantes e elevadores e nunca chego lá. Um andar depois do outro e sempre tem mais um. E minha mãe do lado, cabelo branco e bengala, não aguenta mais andar. Só quer poder dar tchau pra Tante. E escada rolante e rampa de montanha russa e elevador. Cadê a porra da sinagoga?

E vimos o cortejo, lá longe, lá embaixo. Sei lá de onde saiu. Acho que acabou o Shabbat, deve estar acabando. A Tante está lá, fresca como se tivesse 70 anos, sorrindo, cabelo branquinho, no caixão aberto cheio de flores brancas. Atrás dela, o rabino. Segurando o caixão, meu pai. Nunca o vi tão frágil, cabelos brancos e cara de triste. Como é que deixaram um senhor desses carregar esse caixote?Nunca tinha percebido o quanto eles frágeis, meus pais. O quanto estavam velhos, o quanto mais eles envelheceriam todos os dias. Quanto tempo resta até ter mais uma morte na família? Quem vai carregar o caixão do meu pai?

E eu, que só tinha por obrigação achar o caminho, nem sei onde é que estou.

14.4.17

O Labirinto

Correu pelo labirinto. Dez, vinte, infinitas vezes. Cantos intermináveis. Parecia que corria e nunca conseguia sair. Sua respiração era curta e fragmentada. Os pensamentos corriam tão rápido quanto seus pés. É por aqui, dizia a cabeça. Não, por aqui. Depois da angústia e da desesperança, vinham as náuseas.

Sentou no chão. Frio e sozinho, começou a chorar, como qualquer garoto faria.

– Ei - veio uma voz de dentro de sua cabeça.

O garoto olhou o canto musguento da parede. Em cima das plantinhas, estava uma salamandra de fogo, quase fora de lugar.

– Ei - disse a voz de novo.

O garoto piscou. A salamandra mostrou a língua feita de labaredas.

– Tá perdido, cara?

– Preciso sair daqui - respondeu, em um único sopro.

– Primeiro você tem que relaxar.

Bruno revirou os olhos. Como conseguiria relaxar preso aqui?

– Calma, cara - disse a salamandra. - Desculpa. Ninguém consegue se acalmar quando pedimos calma, né? O segredo é respirar. Inspira uma vez. Duas, três. Agora solta tudo. Isso.

O menino respirou aos poucos, levantando as mãos. Os batimentos cardíacos começaram a desaceleraram e os pensamentos ficavam mais claros.

Em sua mente, as paredes foram se desfazendo. Tijolo sobre tijolo ruiam ao chão. O céu azul, pouco visível acima de si, tomou conta de todo o seu entorno.

Ele abriu os olhos. Sentiu um comichão nas costas. Sorriu para a salamandra.

Abriu as asas que esqueceu que tinha e voou para fora do labirinto.

18.1.17

Devoradora de Mundos

Devo ser algum tipo de assassina serial de homens, que escolhe os fracos, suga toda a sua energia vital e os deixa morrer, lentamente, enquanto eu triunfo. Deve ter alguma coisa a ver com minha vênus em escorpião e minha lua em áries que devora tudo e quer tudo junto, agora. Deve ter. Não aguento esperar, amar aos pouquinhos, odeio dividir. Os homens que me adoravam, passavam semanas comigo, nossa, você é tão especial, é perfeita, mas amor? Amor é outra coisa. Melhor esperar pro amor de verdade vir. E o amor de verdade não está aqui. Com certeza tem a ver com meus pais que também nunca se amaram. E eu, aprendendo com quem sempre me deu o melhor exemplo, continuo incapaz de receber amor, vivendo de migalhas, aceitando o que sobra pelo caminho. Fingindo que o amor é outra coisa, que não faz diferença. Eu sei lá o que é amor. Melhor ler Bauman e parar de chorar sozinha no banheiro. Melhor continuar devorando os homens. Um por um e suas energias vitais. Algum dia serei a grande besta das galáxias, reinando suprema e me alimentando de todas as vidas que engoli.

22.12.16

2016 na verdade foi maravilhoso

Acho que faz mais de 10 anos que eu escrevo posts sobre o fim do ano, fazendo um grande apanhado de tudo que aconteceu. Esse ano vira com mercúrio retrógrado, então é ainda mais propício para a reflexão. Todo mundo está dizendo que 2016 foi uma merda, mas para mim, sinceramente, foi o melhor ano da minha vida. Ano passado meu arcano foi o Heremita invertido. Eu sairia da minha toca. E saí mesmo. Vamos ver o que o ano que vem vai trazer.

Eu comecei saindo de um emprego que eu odiava para ir para outro em que eu ganharia melhor. Acabou que o emprego novo era bem ruim também, mas conheci pessoas incríveis, aprendi meus limites e consegui juntar algum dinheiro. Terminei meu mestrado enquanto trabalhava no segundo emprego que sugava minha alma, publiquei minha dissertação que tem capa e tudo como um primeiro livro. Chorei igual uma idiota na gráfica.

Defendi meu mestrado e descobri que deveria ter seguido com minhas ideias originais. Peguei meu diploma semana passada. Entrei para um curso de escrita criativa que era uma coisa que eu sempre quis fazer. Aprendi a seguir minha intuição e a confiar mais em mim mesma. Aprendi a ter coragem de finalmente me assumir como artista em vez de só dizer que às vezes eu escrevo umas coisas e faço uns filmes de vez em quando. Conheci pessoas incríveis que vou levar pra vida inteira. Finalmente encontrei minha turma.

Depois de decepções desde 2014, lancei minha primeira websérie com amigos incrivelmente talentosos. Nunca tive tanto orgulho de uma direção de arte que eu mesma fiz. O Dilemas de Gente Branca ficou melhor do que imaginava que ficaria e isso nunca acontece. Sobrevivemos por 6 meses e ainda temos episódios arquivados. 26 fucking episódios. Vinte e seis. É uma temporada inteira de Friends.

Comecei a escrever uma newsletter das coisas que eu fiz e das coisas que encontrei por aí. Escrevi muitas matérias sobre mulheres incríveis no Minas Nerds. Fiz dois zines. Um meio bosta com um conto antigo, outro dobradinho e mais lindinho de poesias. Fiz dois lambes com poemas meus. Vendi minhas coisas em feiras de publicações independentes. Quis abraçar todo mundo que comprou minhas coisas. Colaborei com muita gente talentosa. Tive coragem de mandar minhas histórias para revistas e concursos e editoras.

Viajei para Nova Iorque com minha irmã. Fez muito calor, fomos nos museus dos meus sonhos, vimos um musical na Broadway, comi um montão de bagels, fomos no maior museu de miniaturas de trem do mundo, passamos Shabbat em uma sinagoga, assistimos uma luta de UFC em um sportsbar kosher no Brooklyn, vimos uma cantora lírica cantando no Central Park, fugimos de um bêbado no metrô, nos perdemos muito porque eu não sei ler mapas, agradeci aos céus porque minha irmã sabe ler mapas, conheci o bebê mais lindo do mundo, fiquei com vontade de ter uma sobrinha e andamos até ficarmos exaustas.

Me apaixonei, tive meu coração partido. Chorei por quase dois meses. Tive o melhor relacionamento da minha vida, o mais honesto, o mais carinhoso, o mais livre, o mais estimulante.

Tirei os sisos, tirei os pólipos de dentro do nariz, não tive que fazer a terceira cirurgia por um milagre da natureza. Minha cabeça parou de doer, consigo abrir bastante a boca agora, consigo respirar melhor, minha voz está mais bonita. Parece que deixei tudo que me segurava para trás.

Escrevi um livro. Escrevi um fucking livro de 95 páginas. Um livro de 95 páginas que fez as pessoas chorarem e terem pesadelos e me adicionarem no Facebook sem saber quem eu sou. Finalmente acredito que sou, sim, boa o suficiente.

Comprei um sem número de roseiras. Algumas caíram da janela, outras morreram. A última, da cor certa, do tamanho certo, finalmente pegou. Só falta voltar a dar flores.

Comprei uma caralhada de livros novos. Peguei outros emprestados. Li vários autores novo. Alguns entraram na lista de preferidos.

Vi meu primo casar depois de 12 anos, vi minha irmã experimentar seu vestido de noiva, vi meu irmão se tornar médico.

Aprendi a pedir e a aceitar ajuda. Sempre que eu precisei de dinheiro, o dinheiro veio.

Voltei a gostar de fotografia.

Ontem fiz o meu primeiro esfoliante caseiro.

Foi um ano do caralho.

19.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 47

Gabriela achava irônico quando o dia estava tão bonito em ocasiões tão tristes. Queria que estivesse frio, nublado e chuvoso, para combinar com seus trajes pretos e sua desolação.

Taís tinha um buraco na boca do estômago do tamanho de Ana. Não sabia bem o que fazer com aquilo, mesmo depois de meses sentindo tantas coisas diferentes.

Paulina chorava alto do outro lado do caixão. Segurava um lenço de papel e soluçava como se não admitisse que mais ninguém sentisse sua tristeza.

A família teve o bom senso de enterrar Ana em um caixão fechado. O funcionário da funerária tinha dito para a família que nada que ele fizesse conseguiria disfarçar o estado avançado de putrefação em que o corpo de Ana tinha sido encontrado. Isso sem contar as marcas de mutilação e abuso.

O coveiro jogou a primeira pá de terra fresca sobre o caixão.

– Minha filha! Minha pobre filha!

Paulina gritava. Com as mãos em seus ombros, seu marido olhava o caixão atônito, como um homem morto, incapaz de proteger sua família.

Gabriela esticou a mão para segurar a mão de Taís. Taís a puxou para um abraço. Pela primeira vez em meses, ela finalmente começou a chorar.

– É tudo culpa nossa, Gabi.

Taís soluçava e seu corpo inteiro tremia.

– Se a gente não tivesse panguado e enrolado tanto tempo, a Ana nunca estaria nesse estado.

Gabriela não conseguiu responder. Acariciou as costas da amiga e molhou seu cabelo com as próprias lágrimas.

O som molhado de terra macia caindo sobre madeira se perpetuou pelo cemitério plano. A cada batida, a certeza de que a amiga jamais retornaria se tornava mais palpável.

Depois de estações inteiras, Taís levantou a cabeça do ombro da amiga e secou os olhos com as mãos.

Do outro lado do gramado e atrás das poucas pessoas que sobraram ao redor do caixão estava Antonio.

Parecia deslocado, segurando um bouquet de damas da noite na mão esquerda e compulsivamente fumando um cigarro com a direita.

– Não acredito que ele tá aqui.

Taís soltou Gabriela. Gabriela enxugou os olhos e se virou devagar. Como ele tinha coragem?

As botas de Taís pisavam pesadas sobre a grama verde.

– Como você ousa?

Antonio olhou para o chão.

– Eu a amava muito – disse, baixinho.

Taís sorriu com um lado só da boca. Gabriela veio andando atrás dela com os punhos fechados.

– Você é a pior pessoa do mundo, Antonio. – disse Taís – Você conta uma mentira como se fosse uma verdade.

Taís tomou a mão de Gabriela e a levou para fora do cemitério. Os últimos convidados do enterro retiravam-se devagar. O coveiro apertou a terra sobre o caixão.

Antonio permaneceu sozinho no cemitério com seu cigarro, suas damas da noite e Ana, trancada em uma caixa de madeira a sete palmos do solo, onde Antonio não conseguiria mais tocar nela.

Fazia um lindo dia de sol.



Esse é o capítulo final de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar.
Adoraria saber sua opinião, então deixe um comentário me dizendo o que achou, divida com quem você acha que vai gostar e me cobre se eu parar de postar.

Obrigada!

Capítulo 1Capítulo 2Capítulo 3Capítulo 4Capítulo 5Capítulo 6Capítulo 7Capítulo 8Capítulo 9Capítulo 10 • Capítulo 11 • Capítulo 12 • Capítulo 13 • Capítulo 14 • Capítulo 15 • Capítulo 16 • Capítulo 17 • Capítulo 18 • Capítulo 19 • Capítulo 20 • Capítulo 21 • Capítulo 22 • Capítulo 23 • Capítulo 24 • Capítulo 25Capítulo 26 • Capítulo 27 • Capítulo 28 • Capítulo 29 • Capítulo 30 • Capítulo 31 • Capítulo 32 • Capítulo 33 • Capítulo 34 • Capítulo 35 • Capítulo 36Capítulo 37 • Capítulo 38 • Capítulo 39 • Capítulo 40 • Capítulo 41 • Capítulo 42 • Capítulo 43 • Capítulo 44 • Capítulo 45 • Capítulo 46

15.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 46

Taís sabia que seu maior arrependimento da vida viria de abrir a porta, entre a cama e a escrivaninha.

Taís segurou a mão de Gabriela e abriu a porta.

Taís e Gabriela levaram meses para conseguir voltar a dormir. Todas as noites depois daquela, elas alternavam entre quem acordava suando frio e sem fôlego. A imagem ficou gravada a lâmina de barbear no fundo de seus olhos. Era diferente dos filmes que as meninas assistiam escondidas de madrugada. Diferente dos livros de zumbi. Diferente de todos os jogos.

Antonio atravessava Ana como uma estaca. A puxava para perto de si ritimamente em um ritual fúnebre. Taís sentiu seu próprio corpo ser violado. Gabriela gritou para manter seu estômago no lugar, que insistia em escapar pelo esôfago. Só então Antonio parou o que estava fazendo. Não amoleceu.

De trás da porta, Paulina empurrou as meninas abrindo caminho para a banheira. Dona Bete vinha logo atrás dela, agarrada às beiradas da sua blusa vermelha, arranhando seus braços.

Paulina empurrou Antonio para longe do cadáver da filha. Levantou seus restos da banheira. Ajoelhou-se no chão com o corpo putrefato. Não parava de gritar.

– Minha filhaaaaa! Minha pobre filhaaaa!!

Dona Bete empurrou o filho para o quarto, o obrigou a fechar as calças. As meninas se afastaram de Paulina, dando-lhe espaço. Gabriela tremia como um galho seco em meio à tempestade. Taís segurou a mão de Gabriela. Se posicionou em frente à porta para velar o luto de Paulina.

Não amoleceu.


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14.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 45

Dona Bete desceu as escadas de dois em dois degraus. Precisava proteger o filho. Precisava. Atrás dela, Paulina descia as escadas escuras com dificuldade, apoiando-se no corrimão. Ameaçava Dona Bete com todo o seu dinheiro e seus advogados. Dona Bete também tinha advogados. Todos da sua família eram advogados. O único defeito do filho era não ter sido advogado.

Dona Bete colocou a mão na maçaneta. Paulina forçou seu braço e abriu a porta com força, deixando uma marca profunda no braço de Dona Bete.

– Esse quarta tá um nojo. - disse Paulina - Até parece que seu filho não tem mãe.

– E cadê a mãe que nunca veio buscar a filha que divide o nojo do quarto?

Paulina nunca tinha batido em ninguém além dos próprios filhos.


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13.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 44

Gabriela e Taís desceram as escadas para o porão. A cada degrau, o cheiro ficava mais forte. Cheiro de suor e porra, de lençóis que nunca são trocados, louça suja de dias sem voltar à cozinha. Era o cheiro do armário do meio-irmão de Gabriela, o cheiro que ele ficava quando voltava do futebol. O cheiro que mais tarde ela reconheceria quando recebesse homens em casa.

Taís puxou a porta para dentro tentando não fazer barulho. Ouvia-se baixinho um rock alternativo triste que as meninas sabiam que Ana nunca gostou.

O quarto era pequeno. Uma cama bagunçada, roupas jogadas pelo chão e uma toalha molhada em cima dos lençois sujos. Um armário abarrotado e uma escrivaninha cheia de papéis, pratos sujos, uma TV e alguns livros jogados. Não passavam de vinte livros. Dostoievskis e Schopenhauers sem ler, Machados e João Ubaldos marcados a caneta. Um Mein Kampf disfarçado entre os papéis.

Colado na parede, as meninas reconheceram o traço de Ana. Era um desenho do casal datado do início do relacionamento. Dava para reconhecê-los pelas roupas. Mesmo no desenho, Ana estava triste. Era o único resquício dela pelo quarto.


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9.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 43

Dona Bete sabia o que tinha que fazer agora. Tinha que tirar aquele monte de mulher histérica da sua casa, de cima do seu pimpolho. Não sabiam que era falta de educação vir entrando assim, dentro da casa de alguém, dando ordens?

Dona Bete viu as meninas descendo as escadas. Ela sabia bem para nunca descer até o porão do filho. Antonio detestava sem incomodado. Umas intrometidas, isso depois de revirarem sua casa inteira. Se elas sumissem, tinha certeza de que suas mães só perceberiam depois de muitos meses. Igual essa velha louca que não parava de gritar. Se é que tinham mães.

Dona Bete sabia, é claro, que Ana estava lá. É claro que sabia. Estava lá há meses. Só não sabia em que estado. Nunca mais subia para comer, não saía mais de casa, Antonio nem levava comida para ela. Tinha até um pouco de medo do que as meninas descobririam.

Mas a sua parte ela fazia. Cuidava do filho. E essa era sua missão na terra: cuidar da sua prole. Proteger seu menino tão sensível de todos os males do mundo. Até de si mesmo.


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8.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 42


– Onde está minha filha, sua bruxa? - disse Paulina, que nunca conseguia manter a voz calma.

– Quem é sua filha? - dona Bete respondeu. - Pensei que a menina que estivesse aqui nem tivesse mãe.

– Eu sei que minha filha está aqui.

– Ela está aqui há meses. Como é que você só se interessou em vir agora? 

Taís puxou Gabriela pelo braço. Enquanto as adultas trocavam insultos, elas precisavam encontrar Ana.

A casa era maior do lado de dentro do que parecia do lado de fora. Gabriela evitava pensar em como poderiam encontrar a amiga. Enfiada em qualquer armário, embaixo de alguma cama, em pedaços dentro de uma cômoda aleatória.

Abriram cada porta de cada móvel dentro de cada quarto. Os berros de Dona Bete e tia Paulina ressoavam da entrada da casa enquanto defendiam suas crias. Como qualquer outra mãe, Taís sabia, estavam apenas defendendo seu próprio orgulho.

Ana tinha que estar na casa. Tinha que estar.

– Será que ele se livrou dela? - disse Gabriela, exausta de tanto procurar fantasmas.

Taís indicou a escada para o sótão.
Esse capítulo faz parte de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar.
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7.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 41

Gozar entre seus seios sempre foi um prazer especial. Abrir caminhos, preencher buracos. O sexo depois da briga tinha que ser ainda mais especial. Antonio se empurrou sobre o esterno de Ana. Forçou-se na carne frágil, entre as costelas. Queria entrar nela, como nunca tinha entrado. Abrir a pele, meter entre as fibras da carne.

– Eu te amo, Ana.

Puxou seu corpo endurecido para frente e para trás sobre seu próprio corpo, as pernas ainda mergulhadas no formol. A cabeça pendia para trás, a boca aberta, seus olhos ocos encarando o teto do banheiro.

Esfregou o pau no seu coração murcho, deslocou seus pulmões e seu fígado. Despedaçou seus órgãos internos podres com a intensidade de seu desejo.

– Nunca vou te abandonar, Ana. Nunca.

 
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6.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 40

– O Google disse que é essa casa aqui, tia. - disse Gabriela.

As horas e horas que Gabriela passava no celular finalmente tinham valido a pena. Cruzando os dados de todos os traços virtuais de Ana, tinha conseguido mapear o que ela acreditava ser a casa de Antonio.

Ela e Taís estavam nervosas. Paulina estava lívida. Como sempre, as mulheres estavam munidas apenas da própria coragem.

Bateram na porta.

Silêncio.

Tocaram a campainha.

A grama ao redor da casa secou enquanto esperavam do lado de fora.

Paulina tocou a campainha insistentemente.

A porta se abriu.

Gabriela desejou muito que a senhora que tinha acabado de abrir a porta limpasse a maquiagem azul borrada abaixo dos olhos.

– B-boa tarde? - disse a senhora.

– É aqui que mora o Antonio? - perguntou Paulina, como uma general do exército sem paciência depois de ver mil de seus homens morrerem em batalha.

– O que vocês querem com meu filho? - respondeu Dona Bete.


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5.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 39

Os dias foram passando até que Antonio não conseguiu mais ignorar a presença pungente de Ana na sua banheira de formal. A culpa por tê-la abandonado pesava como uma estátua fúnebre sobre seus pulmões. Ele se ajoelhou ao lado da banheira e desenhou círculos na superfície do formol. A carcaça de Ana boiava tranquilamente, suas mãos a centímetros dos dedos de Antonio.

Antonio respirou profundamente, dono de todo o tempo do mundo.

– Desculpa ter te abandonado, Ana - ele disse, devagar, segurando a mão morta da garota - Foi o que eu precisava fazer.

Antonio nunca tinha se sentido tão sozinho na presença de Ana. Era como se ela nem estivesse lá.

– Me desculpe - ele insistiu - Por favor.

Antonio virou o corpo dentro da banheira. Ele removeu delicadamente os fiapos escassos de cabelo que envolviam seu rosto. Olhou profundamente nos buracos onde estiveram seus olhos.

– Estou com saudades, Ana.

A pele de Ana estava toda cinza e enrugada, repuxada sobre a carne que quase não existia mais.

Antonio a puxou para fora da banheira e a envolveu em seus braços. Sentiu a memória do cheiro de sol em seus cabelos, a memória de sua pele quente e o toque dos seus seios que um dia foram tão macios.

Antonio tirou sua blusa devagar.

– Como eu pude te abandonar, Ana?

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