21.6.16

Alagado


– Da onde vem tanta água? - perguntou Jorge, pisando devagar no piso frio do banheiro alagado do limite do chuveiro até a porta.

Haviam sido dois meses felizes até então, em que o casal arrumava e organizava a casa nova. Amora nunca tinha gostado muito da casa dos pais. Era mal localizada, pegava muito pó e não tinha acesso à internet rápida. Mas, agora que os pais morreram, não fazia mais sentido continuar pagando aluguel. O encamento, no entanto, nunca tinha sido um problema.

Fecharam o registro. Puxaram a água com o rodo. Era tarde demais para procurar o vazamento.

Na manhã seguinte, quando Jorge entrou no banheiro segurando um copo de água da cozinha para escovar os dentes, molhou as meias na poça de água limpa.

Se certificou de que o registro estava fechado. Puxou a água com o rodo.

Examinou o cifão da pia. Examinou a torneira. Examinou as cubas. Tudo certo.

Examinou a borracha do box. Examinou o ralo do chuveiro. Tudo certo.

Examinou o reservatório de água da descarga. Examinou o vaso. Tudo certo. Trocou a borrachinha da descarga por precaução.

Na manhã seguinte foi a vez de Amora molhar a barra da calça moletom.

Fechou o registro. Puxou a água com o rodo.

Decidiu chamar um encanador.

– Não achei nada, senhora, mas cobro a cem reais a hora pela consultoria.

Foram quatro horas de trabalho.

Manhã seguinte, mais água.

Fecharam o registro. Puxaram a água com o rodo.

– O que é inundação nos sonhos, mesmo? O que é que sua vó falava?

Amora sabia que Jorge só queria descontrair. Era seu pior defeito.

– Acho que ela diria que é um pesadelo.

Resolveram passar o dia sem banho e escovar os dentes na pia da cozinha.

Manhã seguinte, puxaram a água com o rodo.

Amora espalhou sal grosso em volta da privada e colocou folhas de arruda na bancada da pia. Separou pingentes de ametista para ela e para o marido.

Na manhã seguinte, puxaram a água com o rodo.

O exorcista chegou de tarde. Não teve medo. Três ave-marias. Cinco pai-nossos. Água benta na água do banheiro.

Puxaram com o rodo.

O pai de santo chegou no dia seguinte. Benzeu o casal.

– De onde tá vindo a porra dessa água?

Jorge finalmente tinha perdido a paciência.

O pai de santo lhes deu boa sorte.

– Vamos ter que viver com isso, mesmo?

Amora já estava sem esperanças.

O pai de santo lhes deu boa sorte novamente. Partiu.

Puxaram a água com o rodo.

1.6.16

Eu tenho um túnel dentro de mim que está apodrecendo junto das minhas boas intenções.

Eu tenho um túnel dentro de mim que me afoga e me tortura sempre que eu quero me limpar.

Eu tenho um túnel dentro de mim que liga toda a minha podridão e a torna cada vez mais podre.

Catarro, saliva, pus.

Que príncipe gostaria de me beijar?

19.5.16

dezesseis de dezembro de dois mil e nove

Eu sei o que vocês vão falar. Não foi bem assim, é impossível ter sido. Tudo isso só aconteceu na sua cabeça. Mas aconteceu sim. E foi assim que eu lembro.

– Quero misturar nosso sangue e enfiar na terra pra que você nunca vá embora.

– Por que eu iria embora, chu?

– Talvez eu é que vá embora.

– Por que você tá falando isso?

– Talvez eu te abandone como todo mundo abandonou. Como todos esses seus amigos de merda e seus pais que preferem seus irmãos e só te amam por obrigação.

– Para, chu, é meu aniversário. Todos os meus amigos estão aqui.

– Queria que você soubesse que eu sou a pessoa que mais lhe ama no mundo. Porque eu tenho escolha. Poderia facilmente não lhe amar. E eu queria poder ter lhe falado isso só nós dois, sem que você estivesse chorando. Vou misturar nosso sangue e enfiar na terra pra que você nunca possa ir embora.

4.5.16

Se eu te disesse que minha mãe amaldiçoa tudo que não gosta em mim, você acreditaria?

Vovó era meia-índia, no sentido de que minha bisavó era índia, e tinha uns poderes de prever o futuro e interpretar os sonhos. Intuição feminina que vem da terra, sabe? Minha mãe, não. Minha mãe amaldiçoa.

Primeiro foi o cabelo que sempre quis pintar e ela não deixava. Pintei um dia e no seguinte não tinha mais nada. Caíram os fios um por um no travesseiro, deixando um explêndido ninho de passarinho roxo-blueberry.

Depois foram os lençois que eu comprei. Brancos. Minha mãe avisou para não comprar branco. Branco mancha. Na primeira lavagem, meu lençol saiu tão empesteado de toda a sujeira, cabelo velho e restos de insetos mortos acumulados na máquina que tive que jogar fora.

Me apaixonei pelo meu primeiro vaso de minirosas vermelhas. Minha mãe falou que não a deixasse na janela durante as tempestades. Fui teimosa. Ela aguenta. Eu aguento. Na manhã seguinte encontrei a terra espalhada na calçada, em volta de um vaso quebrado e flores que se esforçavam em sobreviver à queda do décimo-sexto andar.

Comida apodrece.

Pratos que escolhi sozinha quebram um a um.

Nunca consigo me divertir sem ficar de ressaca.

Na primeira transa sem camisinha com um homem que minha mãe certamente não aprovaria, tive que abortar.

Não consigo tomar uma decisão contrária às suas vontades sem encontrar alguma sorte de aborrecimento. Tenho certeza que são maldições.

Mas deixa eu te contar outro segredo, amigo. Venha cá, que esse eu tenho que falar baixinho. Se eu te dissesse que também amaldiçôo tudo que não gosto nos outros, você acreditaria?

23.4.16

Caravaggio


Houve rebuliço nos jornais. Caravaggio encontrado em sótão em Toulouse, sul da França.

Estudiosos em história da arte discutiram no mundo inteiro se pode mesmo ser original. Afinal, é conhecido que Caravaggio morreu na Toscana, não no sul da França.

As semelhanças observadas, no entanto, eram incríveis. Para um cadáver de trezentos anos, o corpo estava bastante conservado. A pele repuxada sobre os músculos carcomidos do tórax revelavam bem as cicatrizes características de décadas de brigas de bar. As mãos ainda guardam resquícios de pigmento preto encrostados na pele, resultado de anos de má higiene.

Apesar das impressionantes conformidades físicas, especialistas ainda precisavam fazer testes com os materiais para averiguar sua autenticidade, como raio-X e carbono-14. O governo já havia anunciado que Caravaggio permanceria em solo francês para facilitar o andamento dos exames, que eram realizadas no Louvre. 

Durante a fase de pesquisas e certificação, hipóteses já haviam sido levantadas quanto ao valor inestimável do artefato. O governo italiano já reclamava o corpo para si, alegando que o pintor deveria descansar em Roma, onde passou a maior parte da carreira. Os últimos sobreviventes da família Caravaggio recentemente entraram na disputa.

Resta saber quão dispostos estão os colecionadores particulares.

14.4.16

A ausência se tornou tão plena às quatro horas da manhã que era impossível ignorar. Às cinco, já sabíamos seu destino. Dor e sofrimento tomavam conta da casa. Menos de mim, é claro, incapaz de sentir qualquer coisa. Talvez nunca tenha sentido nada na vida. Talvez nunca sequer tenha amado. A empatia parou quando preferiu guardar o próprio dinheiro suado dos pais para comprar doces franceses e água engarrafada em vez de dá-los a mendigos visivelmente mortos de fome. Primeiro os mendigos, depois os artistas de rua, depois aqueles representantes irritantes da Unicef – você gosta de crianças? Detesto crianças. Evidentemente também detesto cachorros e gatos e cactos e qualquer ser vivo que requeira um mínimo de cuidado. Não sei o que é culpa. Sinto apenas a imensa paz e a gratidão sublime que se torna amor renovado pela chefe da matilha que cumpriu a trajédia, tornando o retorno a este lugar muito mais agradável.

1.4.16

Agora toda vez que faço movimentos bruscos, minha espuma cai um pouquinho e me sinto cada vez mais vazio. Não bastasse minha pelúcia que está imunda desde o dia que cheguei aqui. Aquele menino…

Primeiro foram meus botõezinhos, um em cima do outro, costurados à mão na minha barriguinha, arrancados brutalmente por uma pinça roubada da gaveta do banheiro da Mãe. Depois fui sujeito às mais abjetas formas de experimentação. Fui usado como bola, atirado por cima de muros, até fui amarrado ao rabo de Cachorro e arrastado por todo o quintal. Coisas a que um urso da minha estirpe jamais deveria ser submetido.

Minha última tortura, a retirada dos meus braços, foi especialmente cruel. Depois de um dia inteiro deixado na chuva, fui novamente submetido à maldade do Cachorro. Dotado de um sadismo ímpar, decidiu comer meus bracinhos e usá-lo para me jogar para lá e para cá. Fiquei todo furado, com espuma que formavam dedos. Estava começando a me acostumar com minha nova forma desfigurada, quando Ele decidiu que gostaria de me mutilar mais uma vez.

– É muito grave, enfermeira! – ouvi-o dizer, enquanto me cegava com uma lanterna – Teremos que amputá-lo!

Um monstro! Já ouço seus passos se aproximando para me torturar novamente. Me jogo nas profundezas mais escuras debaixo da cama para que Ele não possa me encontrar. Ouço-o circundando minha fortaleza aos poucos. Sua respiração está cada vez mais próxima. Ouço-o chamar meu nome. Fique calmo, coração!, ele vai te ouvir!

Vejo seus pés e chinelos através da cortina do lençol. Ele para. Sabe onde estou. Vejo joelhos e mãos. Na mão direita vejo o terrível objeto do terror brilhante à luz das lâmpadas incandescentes do quarto. O objeto que assola meus pesadelos, que congela minhas entranhas, que me provoca taquicardia. A terrível tesoura sem ponta. A mesma responsável pela minha bruta amputação!

Então eu entendo, sem que ele precise dizer ou fazer qualquer outra ação, exatamente a espécie de horror que pretende dessa vez. Meus pés congelam, sinto náuseas.

Meu Deus, meus olhinhos! Não meus olhinhos!

Ele sabe onde estou. Ele está chegando. Está chegando! Talvez se eu fechar os olhos na vã esperança de protegê-los. Se ao menos eu tivesse pálpebras que prolongassem minha agonia!

29.3.16

Páscoa

Você já tá vendo doutorado? Não é pressão, mas a gente tem que perguntar de novo, né? A gente se preocupa com você. Como você vai se manter? Como artista? Você está desempregada por causa do seu próprio posicionamento político. Não acredito que pintou o cabelo. A cor não pegou porque não era pra pegar. Tá estragando a melhor coisa que eu te dei. Pára de raspar desse jeito, acho feio. Queria tanto uma filha doutora. Meu sonho, mais uma geração de Doutor Happ. Você é nossa última esperança. Deixa eu ler as coisas que você escreve, morro de curiosidade. Não entendi isso, não faz sentido. Não seja tão agressiva, seus parentes não iam gostar. Como vai sua relação com Deus? Mas, Deborah, você tem dinheiro guardado? Não está passando fome? Mas está linda magrinha assim, tá ótima, tem que manter. Só não mexe no seu cabelo, porque do seu jeito acho feio. Por que você não estuda fora? Pega uma bolsa. Profª Drª Happ. Tão chique. Meu sonho.

28.3.16

Adeus

Pensei que Deus estivesse morto. Criou o universo e morreu. Se cansou de tudo isso. Viu os oceanos, as plantas e os animais. Viu os homens. Viu que era bom. Decidiu que não precisava ver mais nada. Decidiu sumir. Será que Deus volta para o Paraíso quando morre? Será que se transforma em poeira estrelar e comece, finalmente, a fazer parte de sua criação? Ou talvez ele volte a ser nada, como o resto de nós que o inventamos.

22.3.16

A pior história de terror que já escrevi

Todos os homens por quem me apaixonei eram arianos.

18.3.16

Áries

O silêncio pesava no ambiente depois de tanto barulho. O cheiro de ferro, muito vivo, inundava a sala. Seu corpo, ainda quente, estava estirado no chão. A cabeça estava de encontro com a perna da mesa, de onde escorria a nascente de sangue quente, que aumentava aos pouquinhos a poça vermelha ao pé da mesa.

– Ainda bem que ela bateu a parte de trás da cabeça – ele disse, andando pela sala, enquanto desviava do líquido vermelho que esfriava. – Seu rosto é tão bonito.

Ela sabia, é claro. No fundo, bem no fundo, ela sempre soube. Os medos, as palpitações, a ansiedade. Tudo aquilo que se confundia com amor. Nunca deveria ter exigido tanto do namorado, era só o jeitão dele. Deveria era ter escrito sua carta de suicídio.

Olhando bem, nem parecia estar morta. Bastava dar uma lavadinha, encher o buraco da cabeça na frente e atrás de algodão e pintar para dar uma corzinha. Igual os agentes funerários fazem. Ficaria perfeito. Nunca desconfiariam.

17.3.16

Reciclagem

Um dia a unidade doméstica quebrou. As unidades domésticas que quebravam eram levadas para reciclagem e substituídas por unidades mais novas, mais baratas e mais eficientes, suas peças serviriam para consertar outras unidades quebradas.

Quando a unidade de Julieta e Arthur quebrou, eles fizeram as contas de quanto custaria um novo e concluíram que, mesmo com o melhor custobenefício, seria caro demais. Além do valor da unidade nova, ainda teriam que custear a locomoção da unidade antiga até a reciclagem. Depois Julieta fez a cotação de quanto custaria comprar peças recicladas e percebeu que também estava muito além do orçamento do casal.

Arthur sugeriu que talvez não precisassem tanto de uma unidade doméstica assim. Julieta insistiu. Sabia que o antigo serviço da unidade sobraria para ela. Decidiram, então que chamariam um mecânico de unidades para consertá-la.

Durante todo o tempo que o casal discutia, a unidade esperava pacientemente pelo seu destino, como um velho na cama de hospital que ouve através do sono enquanto  sua família elocubra sobre o melhor fim para o seu corpo. Seria consertada, seria ótimo. Logo poderia reassumir seu posto e seu trabalho, que já estava acumulando.

Na semana seguinte,  começaram a usar a unidade como suporte de chapéus. Depois, como mesa para as correspondências. A unidade chegou a ver Julieta com uma vassoura na mão, sem saber muito como manuseá-la. Depois de um mês, o mês que a unidade mais registrou Arthur e Julieta gritarem e gesticularem um com outro, a unidade foi transportada para dentro de um armário embaixo da escada, junto dos patins velhos e da louça que Julieta ganhara da tia e que detestava. 

Sozinha e no escuro, a unidade se perguntou:

– O homem do conserto não vem?

23.12.15

Tem um senhor que vejo com frequência tomando chimarrão e gritando baixaria pra quem quiser que passe - ou mesmo para ninguém. Ele fica sentado na Praça Roosevelt de frente para a Rua da Consolação. Às vezes está na rampinha na frente da Igreja. Hoje de manhã estava sem camisa, em um dos banquinhos, gritando sobre o Papai Noel. Outro dia gritava que todo mundo caga. É sempre muito poético. Desconfio que seja um ator de um dos teatros de rua em volta da praça, mas não posso ter certeza.

A linha tênue entre a marginalidade social e a performance.

15.12.15

Sabe onde mais dói fazer tatuagem?

Dói em cima do osso do externo, entre os seios quando te dizem que você nunca mais vai conseguir trabalhar.

Dói nos pulsos e nas veias que pulsam quando te dizem que você era tão bonita antes.

Dói atrás da nuca que atravessa até o fundo da garganta quando dizem que você choca e espanta os clientes.

Dói na planta do pé que sobe até o joelho e te desestabiliza quando insinuam que sua pele se extende até o universo e isso tudo é responsabilidade sua.

É só um desenho na minha pele. 
É só pele. 
É só minha pele.

É só minha pele.

31.10.15

Preto

Estava um dia quente. Muito quente. Mais que o normal. Sentei embaixo de uma árvore e tentei descansar um pouco. Acho que consegui dormir um pouco, não sei quanto tempo passou. Quando acordei, com um baque alto de alguma coisa caindo no chão, o mundo era um lugar completamente diferente.

Me assustei, fui olhar o que tinha caído. Era uma cobra. Só poderia ser uma cobra. Longa, musculosa, preta. Tinha cinco membros esguios em uma das pontas. Como era possível? 

Devia ser um sonho, mas tinha certeza que estava acordado. Talvez fosse uma alucinação por causa do calor. Resolvi aceitar o que era lógico. O braço decepado à minha frente devia ser de algum escravo castigado. Estranhei que não sangrava.

Mal tive tempo de me recompor da minha conclusão óbvia quando outro braço caiu do céu. Tão preto e tão forte quanto o primeiro. Também não havia traços de sangue. Em seguida caiu uma perna. Depois outra perna. Identifiquei a árvore de onde os membros caíam. Era justamente aquela onde eu descansava. Naquele momento, comecei a ficar preocupado. Caiu um tronco, forte e preto.

Por último caiu uma cabeça. A terrível cabeça.

As partes do corpo começaram a se unir lentamente. Pernas e braços que eram serpentes infernais indo de encontro ao torso. Arrastavam-se lentamente. Quando chegaram perto, encaixavam-se como se fossem pedaços de um autômato do submundo. Rodavam até atingir a posição correta. Inteiramente montado, levantou-se para sentar. Os braços se esticaram, recolheram a cabeça do chão. Ergueram-na com delicadeza e colocaram-na no lugar. Esticou por um instante.

Os olhos se voltaram para mim, aqueles terríveis olhos de fogo.

Juntei toda a coragem que ainda me restava e perguntei quem era ele.

Ele sorriu, dentes muito brancos no rosto escuro:

– Eu sou o diaaaa–

Não o esperei terminar de falar. Levantei o mais rápido que eu pude e me apressei para a casa do seu bisavô. Por muito tempo ainda ouvi sua risada demoníaca atrás de mim.

– Que racista, vô! – ele falou, estupefato, voltando a assistir TV do sofá da sala dos avós.

– Pois foi assim que aconteceu.

28.10.15

Senta e faz o que te mandarem. Ninguém te perguntou o que você quer. Não tem porque não quis, porque nunca foi atrás. Não dá opinião no que não entende. Não inventa, mas também não fica parada. Tem que ser pró-ativa. Tem trabalho pra caralho pra fazer. E você fica aí, enfiando as ideias e a água que insiste em sair do olho nesse caderninho. Procura outras saídas pra tentar ser feliz e só se fode. Carrega essa culpa toda por quê? Tem tudo que podia querer. Aceita e engole. Está até mais magra. Todo mundo elogia. Não está conseguindo comer por quê? Cada um sugere uma saída diferente. E você? Quer o quê? Fica quietinha, faz seu trabalho. Foca nas prioridades. E produz, produz, produz pros outros. Faz o que o que mercado quer. O que você tem a dizer? Você não tem nada a dizer. Vive vazia, vazia, vazia. Vive procurando alguma coisa pra ocupar o lugar.

Não tem nada a dizer.

Vive procurando sarna pra se coçar. Seus problemas não existem. Olha quanta gente tem problema de verdade. Você nem consegue lembrar dos seus próprios problemas. Não consegue se organizar. Não consegue lembrar nada. Não consegue organizar esse monte de ideia que mora na sua cabeça. Pensa tanto e não chega a lugar nenhum. É um grande nada. Não consegue. Não consegue. Não consegue.

Você não tem nada a dizer. É um grande vazio, vazio, vazio.

7.9.15

Fome

Quando eu ia almoçar na época do meu primeiro estágio, aos 16 anos, percebi que eu gastava uns 25 reais no quilo. Minha chefe, que era bem magrinha e reclamava que não parava de emagrecer, gastava 7. Me perguntava diariamente se ela não estava com fome e - pior - se eu é que não deveria comer daquele jeito e ver se não emagrecia logo.

Li uma teoria feminista uma vez de que a necessidade da magreza feminina não é apenas estética, mas política, já que mulheres sempre preocupadas com o peso são mais facilmente controladas. Começa com a necessidade de diminuir o açúcar, depois com não poder mandar mensagem pro crush para não demonstrar fraqueza, não andar sozinha à noite para não ser estuprada, até nunca poder pedir um aumento para não incomodar ninguém.

Não lido muito bem com restrições. Quero do meu jeito, o máximo possível, extravagante, intenso. Principalmente - mas não somente - com minha comida. Passei tempo demais achando que menina boa abaixa a cabeça, fica quieta, se anula na presença dos outros. Come pouquinho, é discreta, espera que venham até ela. Tem que esconder as formas do corpo para não parecer a puta da TV, substitui a manteiga por margarina, nunca fala dos sentimentos para não incomodar e não se humilhar.

Vou colocar a quantidade de azeite que eu quiser. Meu brownie leva uma lata inteira de manteiga. Vou mandar mensagem até que eu perca o interesse. Se eu estiver triste ou cansada, quero que todo mundo saiba.

Não vou me anular por causa da porra das suas regras.

5.8.15

Não sou daqui. Não sou de lugar nenhum.

“De onde você é?”

Ai meu deus, vou ter que contar a história toda. Meu deus, a preguiça, meu deus, os comentários e as mesmas piadinhas de sempre.

“É de São Paulo mesmo?”

Não… Sou… Do interior. Isso, sou de Campinas.

“Nasceu na Maternidade? Todo mundo de Campinas nasce lá, os mais novos nascem no CAISM.”

Não, eu…

Eu nasci nos Estados Unidos, meus pais são brasileiros e foram estudar lá. Moraram quase 10 anos. Eu vim para o Brasil com dois. Não, não lembro nada. E eu não sinto lá muito ligação com os Estados Unidos de qualquer jeito.  Aí mudamos pra Campinas, para a casa onde moramos hoje, e eu morei lá até uns 3 anos. Aí fomos para São Paulo de novo e eu fui criada como americana, me matricularam numa escola americana no ensino infantil. Aí com uns 11 anos nos mudamos para Campinas de novo, mas eu nunca me acostumei, sabe? Sempre quis voltar pra cá. Aí arrumei um jeito de voltar.

E na escola americana, eu era brasileira. E em todos os outros lugares, eu era americana. E em Campinas, eu era de São Paulo; e em São Paulo, eu sou de Campinas. E estou morando aqui há 3 anos e já acho que é tempo demais. Tô pensando em me mudar. Para longe, bem longe, procurar minha casa, minhas raízes.

Eu sou judia. Meu pai é judeu, meus avós fugiram da guerra. Minha mãe é cristã, mineira, bem brasileira. Minha vó tinha cara de índia. Nenhuma das minhas tias ou meus primos - e muito menos eu - têm cara de índio. Só uma prima. Dizem que ela puxou o pai dela, que tinha cara de índio. Eu sou super alemã.

Na família da minha mãe, nós somos os sobrinhos judeus. Minha mãe age como ídiche mame mesmo sendo cristã. Acho que ídiche mame deve ser o absoluto de todas as mães. Curiosamente - ou obviamente - o único lugar onde me senti pertencente foi em Israel. Todo mundo parecia um pouco comigo. Judeu é tudo igual.

Minha família do Rio, tradicionalmente judaica, diz que nós não somos judeus, porque não nascemos de ventre judaico. Por favor, não tirem o meu único resquício de identidade.

Minha mãe diz que o lugar onde ela passou mais tempo na vida foi Campinas, já está lá há 15 anos. Ela tem mais de 60. Meu pai diz que acha que é hora de se mudar quando começa a reconhecer gente demais na rua. Estou em São Paulo há 3 anos e já mudei de bairro 3 vezes. 

Minha mãe nunca enterrou meu cordão umbilical. Às vezes acho que nunca vou encontrar minha casa. Vou ficar pra sempre buscando e buscando e buscando e morando no mundo inteiro. 

Não sei o que são raízes.

30.7.15

Remédios

Esqueci meus remédios por alguns dias. Fui para a casa dos meus pais - para o interior de mim - por alguns dias. Esqueci meus remédios. No primeiro dia tentei me manter calma, me convenci de que não estava dependente deles, que poderia seguir normalmente. 

No meu quarto antigo, nada me pertence. Sobraram apenas as lembranças de mim que não quero mais lembrar. Um lugar que não me pertence mais. Meu quarto antigo se tornou um depósito cor de rosa de personalidades de que não sinto falta e de memórias distorcidas. Confrontei meus pais sobre uma das memórias que mais me machucava. Por que eles me tiraram da escola que mais gostei na vida para me colocarem na escola onde até os professores caçoavam de mim? Mas não, isso nunca aconteceu. Eu é que estava lembrando ao contrário. O que mais eu estou lembrando ao contrário? Será que minhas memórias e minhas preocupações existem de verdade? Estou me tornando a caricatura do que sempre achei que achassem de mim? Alguém mais se importa?

No quarto dia eu sangrei. Não estava preparada para isso. Isso explica as dúvidas, as lágrimas fora de hora e a enxaqueca dos dias anteriores.

Estou sempre exagerando as coisas. Leio os sinais do corpo como símbolos do meu fracasso. 

Mas a falência do corpo não é o fracasso de quem somos? Não é isso que somos? Ciborgues movidos a compostos químicos que tomamos para nos mantermos equilibrados?

7.6.15

Buraco

- Ei moça. Mooooça.

Abri os olhos um pouquinho. Não sabia bem onde estava. Tudo ao meu redor era escuro e úmido. A única luz vinha de um buraco lá em cima, bem longe. Ainda dava pra ver o céu branco de poluição e neblina.

- Tá tudo bem, moça?

Me virei, lentamente, me dando conta de toda a dor que estava sentindo. Meu pescoço, atrás da cabeça, minhas pernas. Engoli um pouco de sangue.

A voz que falava comigo era suave, vinha de algum lugar à minha esquerda. Não consegui distinguir nada além disso. Coloquei a mão na cabeça e senti que estava grudento. Não sabia se era água suja ou sangue ou qualquer outra coisa. Preferia não ter que descobrir.

- Você caiu lá de cima, moça. Foi um tombo e tanto. Pensei que tinha morrido.

- Eu não morri? - me forcei a dizer - O que é esse lugar?

- É o submundo.

- Pensei que tivesse dito que eu não estava morta.

- Não, não o inferno - ouvi a voz suprimir um riso - O submundo. O mundo tá lá em cima, ó. A gente tá aqui embaixo.

De repente, me lembrei de tudo. Levantei-me para sentar, sentindo todos os músculos e nervos do cox e das pernas gritarem.

- É mesmo! Eu caí! Eu sabia que nunca deveria andar em cima dos bueiros gigantes por um motivo!

- A gente sempre tem motivo pra tudo.

- Ai não! E justo hoje que eu tinha que ir no banco pagar o cartão atrasado e eu tava na rua só por cinco minutinhos que depois eu tinha que voltar pra casa e terminar meus freelas e minha dissertação e ligar pra minha mãe e ainda nem sei o que fazer para o jantar-

- Bom, aqui embaixo tem uma hortinha. Tô ficando muito bom em culinária vegana crudívera. Menos quando aparece um rato, aí eu sou onívero crudívero.

Houve um momento de silêncio. Imaginei a textura do rabo do rato passando pela língua como um espaguete grosso e peludo.

- A gente tem que sobreviver, né? É muito bom quando cai pipoca também.

- Eu preciso muito sair daqui.

- Ou você pode esquecer seus problemas e ficar aqui embaixo.

- Não. A gente tem que resolver nossos problemas, senão eles resolvem a gente. É o que minha mãe sempre diz.

- Você faz tudo que sua mãe quer?

Achei meu celular na bolsa. A luz me cegou por alguns instantes. Ouvi meu companheiro de buraco gitar também.

- Sem sinal. Merda de Tim.

- Aqui embaixo nenhuma operadora pega. Nem 3G, nem nada. Foi a primeira coisa que joguei fora quando caí aqui.

Finalmente direcionei a luz para meu interlocutor. Parecia um mago, mendigo ou um hippie louco. Talvez fosse os três. Estava sujo, barba e cabelo compridos e despenteados, um terno velho surrado. Parecia perfeitamente feliz.

- Faz tempo que você tá aqui embaixo?

- Eu cheguei a contar 96 dias. Para todo dia que eu tava aqui, fazia um risquinho no chão. Depois, perdi a conta. Foi quando comecei minha hortinha e a me dedicar à meditação.

- Três meses? Faz mais de três meses? Ninguém veio te procurar? Sua família, seus amigos, os bombeiros? Ninguém?

- A polícia vem às vezes. Ainda bem que eu não tenho um colchão, senão tirariam de mim. Eles vêm, fingem que não me vêem e vão embora. No começo achei que fossem me ajudar, depois tive medo, hoje só fico feliz que me deixam em paz.

- Você não sente falta do mundo lá fora?

- Não muito. Eu vivia pros outros, sabe? Trabalhando pros outros, gastando dinheiro pros outros, deixando os outros felizes. Esquecia de mim. Não sei porque corria tanto, me esforçava tanto. Eu não precisava de nada daquilo. Agora sei que só preciso estar aqui, com minha hortinha.

- Sempre quis uma horta. Não cabe no meu apartamento e eu nem tenho tempo pra cuidar.

- Se quisesse mesmo, você criava tempo.

- E nem adianta. O apê não é meu. Nem sei onde vou estar morando ano que vem.

- Aí é só escolher um lugar que cabe sua horta. O que mais você queria fazer que não dá tempo?

- Queria viajar o mundo. Fazer um mochilão pela América Latina antes de mudar definitivamente para a Europa.

- É, viajando não dá pra carregar a horta. Tem que escolher um dos dois.

- Tem tanta coisa pra ver no mundo e a gente aqui, nesse buraco.

- Fale por você, esse buraco é meu mundo inteiro.

- Você nunca tentou sair daqui?

- Pra quê?

- Pra... Sei lá, criar uma horta maior, abrir um food truck orgânico.

- Viu? As pessoas lá de cima só pensam em dinheiro e em trabalho. Pra que quero fazer parte disso? È muito melhor ficar aqui meditando, sem ninguém me cobrando o dia inteiro.

- Preciso muito sair daqui.

- À vontade.

Ouvi-o se mexer ao meu lado e começar a meditar.

Tinha que haver um jeito de sair daqui. Tem que ter.