27.4.10

classe média

aprendi com meu pai que lugar de bandido é na cadeia.
aprendi com minha mãe que se tratarmos empregados bem demais eles montam em cima da gente.
aprendi com meu tio que a corrupção do governo é uma vergonha e que sonegar imposto de renda é só um meio para impedir que outras pessoas roubem nosso dinheiro.
aprendi com minha tia que uma massagem linfática e um jeito no cabelo - preferencialmente com descoloração - são a solução para quase todos os problemas. o álcool, combinado com alimentos ricos em fibras e pobres em calorias, solucionam todo o resto.
aprendi com os professores do colégio particular com a maior mensalidade da região que o comunismo é a única saída para o mundo.
já meu tio diz que é a pena de morte.
meu primo mais velho, por outro lado, acredita que é a portabilidade e as tecnologias wi-fi.
minha tia mais velha prega que o ofício não é uma fonte de prazer e que é preciso trabalhar muito e ser muito bem remunerado.
uma amiga minha dos tempos de colégio adorava carros tunados e achava um absurdo quem ia buscar o filho na escola com a BMW da empresa.
meu tio acha que a eleição do PT foi a melhor coisa que já aconteceu com o Brasil. e ele só viaja para trazer souvenirs.

e eu parei de ler jornal para não ter mais alguém me dizendo o que pensar.

3.4.10

expressionismo alemão

vestidos de preto, eram três. entraram devagar pela porta, tomando cuidado para não fazer barulho. debruçaram-se sobre a cama, observando o homem enorme e gordo roncando. fazia as paredes tremer, o lustre sacudir e toda a casa vibrar. entreolharam-se. com dor no coração, sabiam o que deveria ser feito. ergueram a rede e jogaram-na sobre o homem.

imediatamente ele acordou, gritando, gerando sobressaltos nos três. a mulher ao seu lado despertou igualmente e, furiosa, indagou:

- kinder! was machts du?!

abaixaram a cabeça. os três. já eram grandinhos. deveriam ter se acostumado com isso.

- mutter... - começou um deles.

- é que não conseguimos dormir... - disse o outro.

- papai ronca demais... - completou o terceiro.

- e queremos expulsá-lo de casa. - terminou aquele que falara primeiro.

16.3.10

o inferno tinha ar condicionado. disso ele já sabia, desde sempre. daquele ar excessivamente gelado e úmido em salas fechadas de dias frios e úmidos, que conserva as gotículas de chuva e - pior - suor depois de ter andado para chegar até lá. além disso, o terno era exatamente da expessura certa para sentir um pouco de frio. daquele que sobe pela coluna, pelos pêlos dos braços, congela os pés.

sentado de terno, sentindo o frio o espetar como agulhas, ocupava-se de seu serviço eterno: catalogar. carros e pessoas e livros e filmes e eletrodomésticos e material escolar e alimentos e roupas e calçados e acessórios esportivos e ônibus e todas as coisas do mundo.

dia após dia, catalogava, sentindo um frio fraco e incômodo, sentado na mesma posição, para todo o sempre. era triste perceber que a vida após a morte era exatamente como a morte em vida.

e morrer de nada adiantaria.

5.3.10

verbetes

Dentista: s. m. Lugar onde todos os pesadelos se tornam reais.

24.2.10

aristocrata. grã-fina. daquelas tão finas e demodês que usam estolas de pele com cabeças de animaizinhos mortos penduradas em seus ombros e penachos nas cabeças. gorda de ostentação. viveu todos os seus dias de seus sessenta e poucos anos parasitando a fortuna conquistada ainda pelo avô. pouco ligava para o politicamente correto, afinal, o dinheiro comprava todas as suas facilidades e não era questionada por ninguém.

em seu enorme palácio cercado de empregados, havia um cômodo dedicado unicamente para seu pequeno schnauzer cinzento que a acompanhava desde a terceira viuvês. chamava seu nome com sua voz de soprano lírico dramático adquirida nas aulas de canto da adolescência:

- trotskiiii!!

e o cachorro vinha feliz, saltitante e com a língua para fora, pronto para receber biscoitos de sabores artificiais, banhos de perfumes franceses ou simplesmente afagos infinitos.

não conhecia a origem do nome do cachorro. achava que era um tipo de biscoito delicioso que experimentou certa vez no maravilhosamente lindo museu de tesouro do czar em são petesburgo. e gostou da forma como o nome soava.

15.2.10

era perfeito. simpático, inteligente, o primeiro da turma e podia conversar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa. bem informado, bem educado. lindíssimo. tocava violão e guitarra numa banda de free jazz. tinha muitos amigos, alguns muito bons e outros muito especiais. boa relação com os pais. adorava animais e crianças. gostava de cinema e lia bons livros. tinha uma namorada bonita e simpática. era um amigo presente, um filho carinhoso e um namorado solícito. tinha todas as qualidades do mundo. e quando chegava em casa sozinho se masturbava olhando fotos de sapatos de bico fino.

10.2.10

saudável. esse era seu lema. preservar-se para a velhice. folhas verdes, frutas, chá antioxidante. açúcar? nunca. aspartame? jamais. vivia do amargo. não ingerie chocolate de qualquer espécie desde os 12 anos. dois litros de água por dia. álcool apenas em produtos de limpeza. mantinha-se longe do cigarro ou de fumaça de qualquer tipo. tinha que manter a pele. filtro solar fator 15 todos os dias no rosto, nos braços e no colo, dependendo do que ia mostrar. desta maneira mantinha-sebronzeada e protegida dos raios ultra-violtera simultaneamente. um creme anti-rugas ao acordar e outro antes de dormir, a partir dos 15 anos. creme hidrantante no corpo todo, todos os dias. drenagem linfática uma vez por mês. limpeza de pele caseira com mel e açúcar uma vez por semana. academia três vezes por semana. Não cruzava as pernas para não causar varizes. só tomava banho em água fria. mesmo no inverno. dormia cedo e acordava cedo - sempre - para impedir olheiras. shampoo, condicionador e creme nos cabelos todos os dias. passava longe da tintura. sob hipótese alguma dormia maquiada. não usava salto alto ou bolsa pendurada em apenas um ombro para manter a postura. evitava trabalhos manuais que ressecassem as mãos. ou aqueles que dão calos. chorava ao perceber uma nova cicatriz.

se cuida tanto para quê?, perguntavam. para a velhice, respondia, orgulhosa.

parecia uma boneca. daquelas de porcelana. que ficam sempre na prateleira, penduradas na parede.

21.1.10

do caprincho.

levou dois dias esquematizando o convite ideal. fez frente e verso combinando, lindos, uma obra de arte grafica. pin-ups, combinação de texturas vitorianas e tipografia escolhida a dedo. comprou um bloco inteiro de papel texturizado para fazer quantas impressões fossem precisas até que ficasse perfeito. foi à gráfica próxima de casa. detestou o primeiro resultado. foi procurar outro estabelecimento mais distante. a primeiro cópia ficou perfeita. da segunda em diante, a tinta falhava cada vez mais. depois de horas brigando com a impressora, até que saísse qualquer coisa melhor que aceitável, descobriu que seu querido cartão magnético não seria aceito na loja. teve que rodar a cidade atrás de um banco. encontrou, pagou, foi embora. comprou lindos envelopes cor de vinho, quase da mesma cor do fundo do convite. um tom sobre tom. envelopes pequenos, delicados. adquiriu adesivinhos redondinhos, prateados, combinando com a caneta prateada para escrever endereços. treinou a caligafria antes de anotar os nomes das convidadas. tomou muito cuidado para não ceder à fraqueza habitual do tremor das mãos. percebeu que o adesivo lindo era pequena demais para assegurar que o envelope ficasse fechado por todo o seu trajeto. decidiu fazer bom uso da goma colante disponpivel nas agências dos correios.

à primeira pincelada, percebeu como aquilo havia sido uma péssima idéia. litros de cola escorriam dos lugares delimitados, enrrugando a superfície do envelope, colando um envelope ao outro, tirando toda a beleza de tudo que havia sido trabalhado com tanta calma até então. não tinha envelopes o suficiente para trocá-los. teve medo de os envelopes agora estarem grudados aos convites. realmente não queria que os convites fossem estragados.

com dor no coração, humilhada pela simples existência da goma, entregou à funcionária dos correios os convites de pin-ups e texturas vitorianas, envoltos de lindos envelopes cor de vinho, lacrados com delicados adesivos prateados, que combinavam com a caligrafia caprichada em tinta prateada. tudo isso embrutecido pela goma colante em excesso.

20.1.10

Haiti

O país sempre esteve em maus lençóis. Precisam de um desastre natural pras pessoas verem isso e colaborarem. Coitados dos países em guerra civil na África. Ninguém dá dinheiro pra eles.

31.12.09

Avatar

Prefiro o filme do Final Fantasy. Revolucionário digitalmente, sem pretensão nenhuma a não ser traduzir um videogame e sem o incômodo do óculos 3D que não fez a menor diferença.

22.12.09

É até poético uma menina que sempre foi escolhida pelos seios escolher os namorados pelo pênis.

18.12.09

O Blu-ray com 3D chega em 2010.

Já leram Admirável Mundo Novo, onde tem um sensor de sentidos e é possível sentir o beijo do casal da tela de cinema? Pois é. Tenho medo do futuro.

Update: E parece quemais pessoas gostaram da idéia.

12.12.09

superficial

- desculpe.

- mas por quê?

- não me leve a mal. eu te amo. de verdade.

- mas...?

- mas é que eu odeio... odeio... ah! como odeio!

(pausa dramática)

- ... todos os seus amigos.

7.12.09

fragmentos.


- por que você fala tão pouco?
- eu falo pouco?
- sim. você quase não fala.
- é porque as outras pessoas falam demais.
- é?
- é.

(longo silêncio)

- elas falam tanto que não param pra ouvir as outras. e eu não gosto de falar para o nada. gosto que as pessoas me escutem. que prestem atenção. além disso, eu sempre lutei ao máximo pra não me tornar uma daquelas pessoas que falam demais e, em geral, só falam bobagem. eu gosto de dizer só o que eu acho válido. no tempo certo. sem muitas firulas.
- mas a vida é feita de trivialidades também. a gente pode conversar sobre qualquer coisa.
- qualquer coisa não merece necessariamente ser dito.
- isso é tão parnasiano.

5.11.09

tudo que eu achei do twitter

eu achava o twitter idiota do lado de fora. então eu resolvi entrar, porque achei algumas premissas interessantes. e achei meio... meio... sufocante.

se vc fica 3 horas sem entrar na rede, já precisa voltar a telinha umas 3 vezes para conseguir ler tudo - isso porque pessoalmente só sigo umas 80 pessoas, imagine quem segue umas 500, daquelas que postam o dia inteiro. e as pessoas que mais postam no twitter são, de maneira geral, as que menos têm o que falar. é quase televisão. hoje é dia de maria passou em 5 episódios às 11h da noite. mas faustão passa há 30 anos, durante umas 9 horas todos os domingos.

eu entrei no twitter pra valer pra acompanhar posts de sites grandes, como o smashing magazine e o zupi, sites de design que eu, geralmente, não dou conta de ler inteiros. achei que facilitaria minha vida. pelo contrário, os links interessantes se perdiam no meio de links menos importantes e posts estranhos - inclusive do twitter da minha cidade. resolvi seguir a bbc brasil, também, pra me manter mais informada. mas, igualmente, os cabeçalhos das notícias vêm cortadas. eu teria que abrir link por link pra conseguir ler o subtítulo! isso se o título em si não for grande demais. prefiro ler o G1 ou a página inicial do uol, consigo informações mais completas, em bem menos tempo.

uma vez eu li a introdução de um livro sobre televisão muito interessante. entre outras coisas, ele argumentava que as pessoas não assistem programas, elas assistem TV. que toda a programação da TV era um grande fluxo. os programas, os anúncios, as vinhetas, tudo era informação jogada para o espectador, de forma que nada fosse realmente importante por si só. tudo só é uma grande massa de coisas. o twitter é mais ou menos assim. absorve-se uma informação e já pula-se para outro, completamente diferente - e não muito mais relevante. quase televisão, nas raríssimas ocasiões onde eu tento assistir TV e meu irmão fica zapeando os canais.

eu devo ser meio antiqüada. gosto de parar para ler as coisas que julgo importante, sem ter que me preocupar de que ainda tenho 300 links pra ler (por isso jamais assinei um feed também nunca aprendi como funciona, mas isso é segredo).

mas não me levem a mal. eu gosto de ler o que todo mundo está fazendo. tem gente que diz isso de uma maneira espetacularmente divertida. eu só não gosto de dizer o que EU estou fazendo o tempo todo e, em geral, guardo links apenas para mim mesma, porque sou egoísta.

por ora, twitter serve como palco. e eu sou só platéia, com medo de me envolver demais.

2.11.09

eu já tinha feito um twitter antes. abri, olhei pra todas as pessoas e todas as coisas que eu poderia seguir e fiquei com taaaanta preguiça de continuar. mas, por ora, acabei me rendendo. vamos ver até quando vai. de qualquer jeito, me sigam.

28.10.09

- quantas mais histórias de amor haverão de inventar?

- quanto mais tempo há no mundo?

15.10.09

antropologia

toda vez que eu vejo filmes antropológicos de índios, eu fico me perguntando se caso eu não usasse sutiã, meus seios seriam caídos daquele jeito.

12.10.09

é só em são paulo que feiras de artesanato têm coisas industrializadas. adoro.

1.10.09

quer dizer então que você ainda lembra de mim? ótimo.