Havia uma pequena caverna que servia de entrada para a sala de reuniões. A sala em si era um lugar sombrio, mal ilumado pela luz amarelada de algumas poucos velas repousando sobre candelabros. Móveis empoeirados. Teias de aranha.
Mas a entrada era muito pequena, mesmo. Tão minúscula, que um dos monges que se dirigiam à sala de reuniões ficou preso nela. Seus ombros não passavam pela passagem. Puxou, puxou, puxou tanto, que seu pescoço ia cedendo aos poucos, cobrindo o chão de sangue enquanto ia se livrando da cabeça - o obstáculo impedindo sua entrada.
Deixando a cabeça para trás, entrou na sala e sentou em uma das cadeiras com costas altas e cabeceiras bem trabalhadas.
Percebendo sua decapitação, a menina menor foi procurar um rosto para substituir aquele que seu superior tinha perdido.
Sujou o vestido rendado, o laço, as meias brancas e os sapatos de verniz dentro da caverna. Olhando ao redor, com a pouco luz proveniente da sala, viu que haviam vários rostos sobre o chão cinza-arroxeado, uns três ou quatro. A cabeça de seu mestre, entretanto, estava enterrado no teto da caverna. Jazia lá, cinzento, com os olhos fechados e a boca aberta, como todas as outras faces. A única coisa que o diferenciava dos outros era que tinha crânio e pescoço e os demais eram apenas rostos: pele morta e globos oculares sobre o solo.
Havia, também e contudo, uma boneca no meio de tudo aquilo. Pensando pelo bem de seu amo, a garotinha resolveu descascar o rosto da boneca - aquele que parecia o mais vivo dentre todos eles - para dar a ele.
Retornando à sala de reuniões, já com seu trabalho finalizado - o rosto de plástico seco e sílios postiços nas mãos, suja da cabeça aos pés - quis entregar o presente ao monge.
- Do que adianta - respondeu ele - ter um rosto se não tenho uma cabeça para sustentá-la?
25.9.07
19.9.07
Festival de Animes, Bancos e Caminhos Desconexos
Em primeiro lugar, este é o 333, em 3 anos de blog. Eu esqueci de comemorar os 3 anos daqui, o 100º, 200º ou 300º post, mas eu prometi pra mim mesma que no post 333 eu ia fazer alguma coisa. Tá aí: ficou avisado.
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Esse fim de semana eu fui num evento de anime, aqui na gloriosa Campinas. Eu nunca tinha ido em um e admito para vocês que fui com um mínimo de receio, porque um amigo meu tinha me incado o contrário, mas as amigas com que fui estavam tão empolgadas que eu não pude me conter a acompanhá-las. Na véspera (porque é de prache deixar tudo pra última hora) pedi dinheiro pros meus pais (porque também é de prache eu nunca ter meu próprio dinheiro) e minha mãe me deu o cartão dela (mal sabia ela do perigo que corria. eu normalmente gasto pouco. creio que ela contava com isso).
Então, depois da aula antes do evento, eu fui com uma das minhas amigas pegar dinheiro no caixa eletrônico do subsolo do shopping (cursinho fica no shopping). Mas justo o que eu precisava estava fora do ar ¬¬ Então decidimos que eu poderia dar uma voltinha quando chegássemos ao local do evento, já que é bem no centro da cidade e achar qualquer coisa por lá é bem fácil.
Depois de nos perdermos de nossa carona, buscarmos a irmã do motorista, chegarmos, encontrar a maior galera e deixar a maioria dessas pessoas comendo yakisoba, decidi que chegara o momento de eu ir em busca do meu banco. Convoquei uma amiga e lá fomos nós.
Paramos numa lanchonete (agradecendo para quem quisesse ouvir por não estarmos fantasiadas) e perguntamos onde teria um banco. Então um senhor tomando sua cerveja nos indicou um caminho, mas recomendava mais irmos até a rodoviária. Então rumamos à rodoviária.
E fomos, e fomos, e fomos. Debaixo do sol das 13h30, ambas trajando preto, carregando bolsas pesadas, eu de salto alto, subíamos várias ladeiras até finalmente chegar ao nosso destino (nesse momento, eu agredeci mais ainda por não ter vindo com o vestido preto longo, o qual eu planejei vestir). Então eu tirei meu dinheiro, tomamos água de um bebedouro de água quente (melhor que nada) e iniciamos a jornada de volta.
Há um quarteirão de lá, encontramos um casal que, com certeza, vinham do mesmo lugar que nós (a menina estava de peruca branca e quimono, e estava tão bem fantaisada que tive que chegar bem perto para perceber que realmente era uma garota). Então resolvemos perguntar se havia um caminho mais fácil até o evento:
- Oi! Você sabe como chega até a Nipo?
- Oh, não! - ela disse, irônica - Me reconheceram! Eu pensei que estava me camuflando tão bem...
E ela nos explicou um caminho bem mais fácil. Tão mais fácil que chegamos na metade do tempo que levamos para ir. Além disso, há umas duas quadras do evento, vimos, grande e reluzente: o meu banco. O banco mesmo, não só o caixa eletrônico.
Poderia jurar que o cara que deu a informação o fez de propósito.
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Festival de Animes, Bancos e Caminhos Desconexos
Esse fim de semana eu fui num evento de anime, aqui na gloriosa Campinas. Eu nunca tinha ido em um e admito para vocês que fui com um mínimo de receio, porque um amigo meu tinha me incado o contrário, mas as amigas com que fui estavam tão empolgadas que eu não pude me conter a acompanhá-las. Na véspera (porque é de prache deixar tudo pra última hora) pedi dinheiro pros meus pais (porque também é de prache eu nunca ter meu próprio dinheiro) e minha mãe me deu o cartão dela (mal sabia ela do perigo que corria. eu normalmente gasto pouco. creio que ela contava com isso).
Então, depois da aula antes do evento, eu fui com uma das minhas amigas pegar dinheiro no caixa eletrônico do subsolo do shopping (cursinho fica no shopping). Mas justo o que eu precisava estava fora do ar ¬¬ Então decidimos que eu poderia dar uma voltinha quando chegássemos ao local do evento, já que é bem no centro da cidade e achar qualquer coisa por lá é bem fácil.
Depois de nos perdermos de nossa carona, buscarmos a irmã do motorista, chegarmos, encontrar a maior galera e deixar a maioria dessas pessoas comendo yakisoba, decidi que chegara o momento de eu ir em busca do meu banco. Convoquei uma amiga e lá fomos nós.
Paramos numa lanchonete (agradecendo para quem quisesse ouvir por não estarmos fantasiadas) e perguntamos onde teria um banco. Então um senhor tomando sua cerveja nos indicou um caminho, mas recomendava mais irmos até a rodoviária. Então rumamos à rodoviária.
E fomos, e fomos, e fomos. Debaixo do sol das 13h30, ambas trajando preto, carregando bolsas pesadas, eu de salto alto, subíamos várias ladeiras até finalmente chegar ao nosso destino (nesse momento, eu agredeci mais ainda por não ter vindo com o vestido preto longo, o qual eu planejei vestir). Então eu tirei meu dinheiro, tomamos água de um bebedouro de água quente (melhor que nada) e iniciamos a jornada de volta.
Há um quarteirão de lá, encontramos um casal que, com certeza, vinham do mesmo lugar que nós (a menina estava de peruca branca e quimono, e estava tão bem fantaisada que tive que chegar bem perto para perceber que realmente era uma garota). Então resolvemos perguntar se havia um caminho mais fácil até o evento:
- Oi! Você sabe como chega até a Nipo?
- Oh, não! - ela disse, irônica - Me reconheceram! Eu pensei que estava me camuflando tão bem...
E ela nos explicou um caminho bem mais fácil. Tão mais fácil que chegamos na metade do tempo que levamos para ir. Além disso, há umas duas quadras do evento, vimos, grande e reluzente: o meu banco. O banco mesmo, não só o caixa eletrônico.
Poderia jurar que o cara que deu a informação o fez de propósito.
14.9.07
11.9.07
Há 6 anos atrás aconteceu o que diziam que daqui a muitos anos dirão que foi o início da era do terror. É mesmo? Não é a mesma coisa há cinqüenta anos com a guerra fria? Há cem com a primeira guerra e o neocolonialismo? Há 500 com o colonialismo propriamente dita?
O que mudou, na verdade, foi o centro das atenções. Antes o mundo era eurocêntrico e agora firmou-se norte-americano (mais ou menos, porque alguns anos mais tardes houveram ataques na Inglaterra e na Espanha - haha, pobres americanos, se achando tão especiais pq sua torrinha foi derrubada...). Disso, todo mundo já sabia. Desde a independência, os Estados Unidos queriam ser a nova Europa. Fico imaginando se, por influência deles, 11 de setembro de 2001 vá se tornar o marco que separa a Idade Contemporânea da Idade do Terror (nome bem pretencioso, hein?, levando em consideração que se tem uma coisa que se perpetuou por toda a história, é o terror).
Na real, 11/9 não mudou nada para mim, eu nem lembrava que dia era hoje, além de ser a véspera do aniversário da minha irmã e uma terça-feira, até meu professor falar, fazendo piadinhas, claro. Sinceramente, nem sei porque "comemoramos" todo ano o 11 de setembro. Poderíamos "comemorar" também o Dia D (muito mais importante para a história), o Glope de 64 (bem mais perto de nós, brasileiros) ou a Revolução Francesa. Cá entre nós, bem mais importantes e emocionantes que uns aviões batendo numas torrinhas...
O que mudou, na verdade, foi o centro das atenções. Antes o mundo era eurocêntrico e agora firmou-se norte-americano (mais ou menos, porque alguns anos mais tardes houveram ataques na Inglaterra e na Espanha - haha, pobres americanos, se achando tão especiais pq sua torrinha foi derrubada...). Disso, todo mundo já sabia. Desde a independência, os Estados Unidos queriam ser a nova Europa. Fico imaginando se, por influência deles, 11 de setembro de 2001 vá se tornar o marco que separa a Idade Contemporânea da Idade do Terror (nome bem pretencioso, hein?, levando em consideração que se tem uma coisa que se perpetuou por toda a história, é o terror).
Na real, 11/9 não mudou nada para mim, eu nem lembrava que dia era hoje, além de ser a véspera do aniversário da minha irmã e uma terça-feira, até meu professor falar, fazendo piadinhas, claro. Sinceramente, nem sei porque "comemoramos" todo ano o 11 de setembro. Poderíamos "comemorar" também o Dia D (muito mais importante para a história), o Glope de 64 (bem mais perto de nós, brasileiros) ou a Revolução Francesa. Cá entre nós, bem mais importantes e emocionantes que uns aviões batendo numas torrinhas...
4.9.07
23.8.07
Depois de meses, consegui produzir literatura. Se é que lhe valhe a denominação.
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Passou anos com a máscara. Ela tinha um sorriso débil e olhos dorminhocos, prontos para aceitar qualquer comando - como se fosse uma máquina - e chorar quando as coisas não resultavam como havia planejado. Ficou tanto tempo atrás do disfarce que as pessoas que a conheciam antes da máscara não se lembravam mais de como era sem ela.
Certo dia, por um evento favorável em que não precisava mais usar a máscara, tentou tirá-la.
Desamarrou os fios sob os cabelos e puxou a madeira pelas bordas. Sentiu sua pele esticando como se apertassem suas bochechas. Seus lábios, pálpebras, nariz e testa ardiam com o esforço. Era inútil. Estava grudado. Pensou em usar uma faca para tirá-la à força, mas aquilo só iria machucá-la e ela não queria recomeçar com um rosto coberto por chagas.
Então fabricou uma nova máscara. Aquela que desejava ter e que pensava ser por baixo da máscara antiga. Pintou um sorriso arrogante e olhos perversos. Sabia que não iria se arrepender, então colou a máscara nova sobre a antiga.
Passou a andar com imponência. Suas vontades eram realizadas e ela era, finalmente, respeitada.
As pessoas ao redor perceberam a mudança, claro. Cochichavam entre si que preferiam a máscara antiga. Esse cochichos chegaram até ela, como sempre acontece.
A princípio, ficou furiosa e mandou torturar aquelas pessoas. Depois arrependeu-se, percebendo que aqueles que cochichavam eram os que realmente importavam.
Chorou. E as lágrimas ficaram contidas entte o rosto verdadeira e a primeira máscara. A máscara que todos preferiam. Todos menos ela.
Então esculpiu uma nova máscara, mesclando as duas anteriores e colando-a sobre elas.
Não funcionou, entretanto, porque a nova máscara não apagou a lembrança da tortura. isso fez com que ela fosse obrigada a sair da cidade.
No ambiente novo, confrontou novas situações e, para cada caso, uma nova máscara. Todas coladas uma sobre as outras.
Até que, um dia, pelo peso de todas as máscaras, tombou para frente. Seus disfarces foram se descolando até que o último - aquele do sorriso sonso e olhos dorminhocos - arrancou consigo a sua face verdadeira.
Hemorragia.
Quando perguntaram de quem era o corpo, ninguém soube responder ao certo. Cada um conhecia uma máscara.
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Passou anos com a máscara. Ela tinha um sorriso débil e olhos dorminhocos, prontos para aceitar qualquer comando - como se fosse uma máquina - e chorar quando as coisas não resultavam como havia planejado. Ficou tanto tempo atrás do disfarce que as pessoas que a conheciam antes da máscara não se lembravam mais de como era sem ela.
Certo dia, por um evento favorável em que não precisava mais usar a máscara, tentou tirá-la.
Desamarrou os fios sob os cabelos e puxou a madeira pelas bordas. Sentiu sua pele esticando como se apertassem suas bochechas. Seus lábios, pálpebras, nariz e testa ardiam com o esforço. Era inútil. Estava grudado. Pensou em usar uma faca para tirá-la à força, mas aquilo só iria machucá-la e ela não queria recomeçar com um rosto coberto por chagas.
Então fabricou uma nova máscara. Aquela que desejava ter e que pensava ser por baixo da máscara antiga. Pintou um sorriso arrogante e olhos perversos. Sabia que não iria se arrepender, então colou a máscara nova sobre a antiga.
Passou a andar com imponência. Suas vontades eram realizadas e ela era, finalmente, respeitada.
As pessoas ao redor perceberam a mudança, claro. Cochichavam entre si que preferiam a máscara antiga. Esse cochichos chegaram até ela, como sempre acontece.
A princípio, ficou furiosa e mandou torturar aquelas pessoas. Depois arrependeu-se, percebendo que aqueles que cochichavam eram os que realmente importavam.
Chorou. E as lágrimas ficaram contidas entte o rosto verdadeira e a primeira máscara. A máscara que todos preferiam. Todos menos ela.
Então esculpiu uma nova máscara, mesclando as duas anteriores e colando-a sobre elas.
Não funcionou, entretanto, porque a nova máscara não apagou a lembrança da tortura. isso fez com que ela fosse obrigada a sair da cidade.
No ambiente novo, confrontou novas situações e, para cada caso, uma nova máscara. Todas coladas uma sobre as outras.
Até que, um dia, pelo peso de todas as máscaras, tombou para frente. Seus disfarces foram se descolando até que o último - aquele do sorriso sonso e olhos dorminhocos - arrancou consigo a sua face verdadeira.
Hemorragia.
Quando perguntaram de quem era o corpo, ninguém soube responder ao certo. Cada um conhecia uma máscara.
19.8.07
Nomes Feios
Dos nomes feios
Você não gosta do seu nome? Vou te contar algumas historinhas que vão te animar.
Há as famosas versões aportuguesadas de nomes ou expressões estrangeiras, como Letisgo ("let´s go"), Madenusa ("made in USA"), Waldisney (Walt Disney) e por aí vai.
Dessas histórias de minha-mãe-leu-errado, ouvi uma, certa vez, de um cara que se chamava Procrep. Como é costume, os pais queriam colocar o nome do santo do dia no filho. Ele tinha nascido no dia 15 de novembro. Então, olhando no calendário, viram que o "santo" do dia era Proc. Rep. Pelo menos é sonoro. Imagina se tivesse nascido em 7 de setembro e se chamasse Indepbra?
Legal mesmo é quando resolvem fazer "anagramas" com os nomes dos pais. Conheci uma pessoa que tinha por apelido Dal uma vez e eu tinha certeza de que seu nome era Dalton. Aí eu descobri que, na verdade, chamava-se Adailson. Não bastasse o nome ser feio, mas seu pai era o Adail. Então ele era o filho do Adail. Muito trsite isso...
Eu tenho um tio que se chama Anfrísio. Não é de família ter nome estranho. Todas as minhas tias e minha mãe têm nomes que vêm do latim, mas que ficaram bons. Acredito que Anfrísio não seja latim. Adivinha o que ele fez? Deu o nome do filho de Anfrísio!! Quando ele teve a segunda filha, nomeou de Aline. Mas não é só Aline. É Anfrísio LIma NEto. Sorte dela que deu em alguma coisa normal...
Mas eu tenho a grande história vencedora de TODAS. E é verdade. Juro. Eu estava lá.
Uma vez, depois que minha mãe me buscou no cursinho, fomos na loja da Claro resolver alguns problemas referentes ao celular do meu irmão e tal. Aí, antes de descer do carro, a minha mãe me disse, muito séria:
- Deborah, não ri, mas o nome da mulher... é Xana.
Assim mesmo. Com X.
Entrando na loja, não consegui me conter quando minha mãe se dirigiu à mulher do balcão dizendo:
- Você que é a Xana?
Tive que sair da loja pra não rir na cara dela. Que mãe cruel, meu Deus! Fico me perguntando se não é indígena.
São nessas horas que eu fico muito, muito feliz por me chamar Deborah. Sem acento e com H no final.
12.8.07
Já que eu estou sem criatividade, estou doente e tenho visto alguns filmes, vou comentá-los. Pq quando vc não tem o que postar, posta sobre filme, certo? (Estive fazendo isso pelas últimas 3 ou 4 semanas.)
Então, Primo Basílio é o clássico do Eça de Queirós (Queiroz?) ambientado na São Paulo da década de 50. Luisa (a sempre linda e meiguinha Débora Falabella) é casada com Jorge (Reinaldo Gianecchini). Eles vivem uma vida confortável, com duas empregadas e talz. A Luísa se diverte com novelas e as histórias de aventuras extraconjugais de sua amiga Leonore (uma atriz boa e bonita que eu lembro de ter visto antes em algum lugar). Tudo anda bem até que Jorge é chamado para trabalhar com Oscar Niemayer na construção de Brasília e surge o primo e ex-namorado de Luisa: Basílio (Fábio Assunção). Aí vocês, fãs de literatura portuguesa, já sabem o que sucedeu: sexo, drogas e rock n roll (mais ou menos).
Assim, no geral é um bom filme, com a Gloria Pirez como uma Juliana meio passiva no início, chiliques hilários da Débora Falabella quase no fim do filme e as roupas bem lindinhas dos anos 50. É legal porque, mesmo mudando o tempo e o espaço orginais, o enredo ainda convence. Um ponto baixo do filme são os efeitos de edição, que são bem ruinzinhos, parece que foram feitos por amadores no Windows Movie Maker.
Então, Primo Basílio é o clássico do Eça de Queirós (Queiroz?) ambientado na São Paulo da década de 50. Luisa (a sempre linda e meiguinha Débora Falabella) é casada com Jorge (Reinaldo Gianecchini). Eles vivem uma vida confortável, com duas empregadas e talz. A Luísa se diverte com novelas e as histórias de aventuras extraconjugais de sua amiga Leonore (uma atriz boa e bonita que eu lembro de ter visto antes em algum lugar). Tudo anda bem até que Jorge é chamado para trabalhar com Oscar Niemayer na construção de Brasília e surge o primo e ex-namorado de Luisa: Basílio (Fábio Assunção). Aí vocês, fãs de literatura portuguesa, já sabem o que sucedeu: sexo, drogas e rock n roll (mais ou menos).
Assim, no geral é um bom filme, com a Gloria Pirez como uma Juliana meio passiva no início, chiliques hilários da Débora Falabella quase no fim do filme e as roupas bem lindinhas dos anos 50. É legal porque, mesmo mudando o tempo e o espaço orginais, o enredo ainda convence. Um ponto baixo do filme são os efeitos de edição, que são bem ruinzinhos, parece que foram feitos por amadores no Windows Movie Maker.
7.8.07
O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas) escrito e produzido pelo Tim Burton em 1994, resolveu fazer sucesso de uns 2 anos pra cá. 13 anos depois. Talvez isso seja só mais um filme retrô que entrou na moda, como O Mágico de Oz e Laranja Mecânica, já que coisas retrôs estão na moda (então eu descobri - muito tristemente, porque eu seria indie não fosse meu gosto musical - que estou na moda). Talvez isso seja uma coisa boa, porque esses filmes muito bons finalmente foram descobertos por jovenzinhos sem muita coisa na cabeça. Talvez eles comecem a pensar.
O problema é que o Jack virou quase um íncone emo e eles têm TUDO dele desde camisetas até bonequinhos carésimos de coleção. Lançou até um mangá da história! Parece que o visual burtoniano do filme (um dos traços mais marcantes do diretor e, tristemente, dos emos) e os personagens simpáticos (principalmente o Jack e a Sally, que até viraram personagens do "I miss you", do Blink 182 ¬¬) fazem o maior sucesso. Isso não é um problema, na verdade, não fosse a inovação que a película trouxe para o mundo do cinema. O Estranho Mundo de Jack foi o primeiro longa-metragem feito em stop-motion (com massinha). Se não fosse tão lindo, seria até meio tosco, porque os personagens não mexem a boca na mesma velocidade com que falam. Além disso, é um filme bastante macabro para crianças. Na época que foi lançado - na verdade até hoje, acho - destaca-se entre as animações da Disney sobre contos de fadas fofinhos, onde a coisa mais assustadora era a madastra da Branca de Neve. Até Noiva Cadáver, do mesmo Burton e com personagens mortas, é mais leve que ele.
Bom, eu só vi a obra inteira uma vez, no cinema, aos 7, 8 anos, com meus irmãos e meu pai. Foi realmente muito diferente de todos os outros filmes que eu tinha visto (eu só assistia a desenhos animados), sobre princesas e coisas alegres. Marcou muito. O que foi mais impactante pra mim é que a animação era meio dark e eu adorei. Senti como se eu estivesse quebrando as regras, de algum jeito.
Na época, eu estudava numa escola evangélica fundamentalista. Tinha aula de religião e talz. Na primeira série, quando lançou Poccahontas (é assim que escreve?), a professora (uma senhora solteirona, que praticamente fundou o colégio) passou uma fita do filme (Na época tinham umas fitas vermelhas que vinham junto com os livros dos filmes da disney. chamavam read-along, eu tenho até hoje o da Pequena Sereia.) e ia parando a história nas cenas dos ritos indígenas, dizendo que aquilo era coisa do demônio. Lavagem cerebral total. E a Disney me fez o favor de lançar Nightmare no mesmo ano :] Ah! Como eu era rebelde!!
Lembro de ter comentado com uma amiga minha (uma das únicas amigas de infância com quem ainda mantenho contato), filha de pastor, sobre Nightmare e ela reagiu da maneira que eu esperava: coisa do demônio. Deixei quieto, não comentei mais. A partir daí eu comecei a assistir os desenhos do Beetlejuice e da Família Addams, que seguiam mais ou menos a mesma linha.
Na verdade eu deveria agradecer à essa onda do Jack, porque eu não lembrava o nome do filme ¬¬
O problema é que o Jack virou quase um íncone emo e eles têm TUDO dele desde camisetas até bonequinhos carésimos de coleção. Lançou até um mangá da história! Parece que o visual burtoniano do filme (um dos traços mais marcantes do diretor e, tristemente, dos emos) e os personagens simpáticos (principalmente o Jack e a Sally, que até viraram personagens do "I miss you", do Blink 182 ¬¬) fazem o maior sucesso. Isso não é um problema, na verdade, não fosse a inovação que a película trouxe para o mundo do cinema. O Estranho Mundo de Jack foi o primeiro longa-metragem feito em stop-motion (com massinha). Se não fosse tão lindo, seria até meio tosco, porque os personagens não mexem a boca na mesma velocidade com que falam. Além disso, é um filme bastante macabro para crianças. Na época que foi lançado - na verdade até hoje, acho - destaca-se entre as animações da Disney sobre contos de fadas fofinhos, onde a coisa mais assustadora era a madastra da Branca de Neve. Até Noiva Cadáver, do mesmo Burton e com personagens mortas, é mais leve que ele.
Bom, eu só vi a obra inteira uma vez, no cinema, aos 7, 8 anos, com meus irmãos e meu pai. Foi realmente muito diferente de todos os outros filmes que eu tinha visto (eu só assistia a desenhos animados), sobre princesas e coisas alegres. Marcou muito. O que foi mais impactante pra mim é que a animação era meio dark e eu adorei. Senti como se eu estivesse quebrando as regras, de algum jeito.
Na época, eu estudava numa escola evangélica fundamentalista. Tinha aula de religião e talz. Na primeira série, quando lançou Poccahontas (é assim que escreve?), a professora (uma senhora solteirona, que praticamente fundou o colégio) passou uma fita do filme (Na época tinham umas fitas vermelhas que vinham junto com os livros dos filmes da disney. chamavam read-along, eu tenho até hoje o da Pequena Sereia.) e ia parando a história nas cenas dos ritos indígenas, dizendo que aquilo era coisa do demônio. Lavagem cerebral total. E a Disney me fez o favor de lançar Nightmare no mesmo ano :] Ah! Como eu era rebelde!!
Lembro de ter comentado com uma amiga minha (uma das únicas amigas de infância com quem ainda mantenho contato), filha de pastor, sobre Nightmare e ela reagiu da maneira que eu esperava: coisa do demônio. Deixei quieto, não comentei mais. A partir daí eu comecei a assistir os desenhos do Beetlejuice e da Família Addams, que seguiam mais ou menos a mesma linha.
Na verdade eu deveria agradecer à essa onda do Jack, porque eu não lembrava o nome do filme ¬¬
31.7.07
26.7.07
Semana Harry Potter - parte 2 (juro que acaba aqui)
O filme novo do Harry Potter é essencialmente ruim. A história é mal-contada e toda picotadinha. Acredito que quem não leu o livro não deve ter entendido a história ou pelo menos não entendeu a essência. Sem contar que eles mudaram muuuuita coisa e eu que sou fã chata e fico pensando coisas como não foi assim no livro!!. Eu sei que fica difícil adaptar um livro tão grande quando a Ordem da Fênix, mas, poxa!, eles tinham muuuita grana pra gastar! Não podiam colocar mais uma meia-horinha pra contar melhor a história?? Pra mim esse não foi um filme por si só, é como um complemento do livro. Um guia para os leitores verem: olha, o que vc está lendo era pra ser assm. Parece que o filme inteiro são cenas escolhidas de uma obra bem maior.
Ah, além disso tem o Dan Radcliffe que é sempre detestável. Mal ator, não consegue trazer nenhuma das emoções do Harry pra tela. O Harry nos livros é engraçado, corajoso, tem dúvidas. O dos filmes só tem dúvidas. É impressionante como TODOS os outros atores dão de 10 a 0 nele. Mais impressionante ainda é como a crítica adoooora ele...
Mas o filme também tem coisas boas. É uma obra bem feita, estética, bons efeitos especiais, iluminação boa, trilha sonora excelente. Os atores novos também são muito bons. A Helena Boham Carter (Bellatrix Lestrange) dispensa comentários, como sempre. É engraçado pensar que ela foi a segunda opção da produção... A atriz que fez a Luna Lovegood é perfeita: linda, voz distraída, ótima atriz. Igualzinho ao que eu imaginei, até melhor :] A Dolores Umbridge está perfeita também. Mais perfeita só se tivessem conseguido uma atriz que realmente tivesse cara de sapo. E a Tonks é legal também, bem linda. Bom, ela não aparece muito, então não dá pra comentar muito a respeito dela.
O Ralf Fienze (Voldemort) destrói todo mundo, como sempre. A produção tem que parar de trazer atores tão bons pra fazer os personagens malvados, assim eu vou acabar torcendo por eles. Outra coisa que eu gostei é que o Rony está bem mais parecido com o personagem literário, bem menos boboca e medroso que nos outros filmes. A Hermione também está mais fiel, não sendo a Xena, Princesa Guerreira que sempre tem as idéias na história. E o Gary Oldman (Sirius Black) está muito sexy, hehe.
Resumidamente, a película tem cenas boas e produção boa, mas faltou um pouco da parte do roteirista. Tomara que no Enigma do Príncipe (livro 6) tragam de volta o roteirista dos outros filmes.
Harry Potter e a Ordem da Fênix
O filme novo do Harry Potter é essencialmente ruim. A história é mal-contada e toda picotadinha. Acredito que quem não leu o livro não deve ter entendido a história ou pelo menos não entendeu a essência. Sem contar que eles mudaram muuuuita coisa e eu que sou fã chata e fico pensando coisas como não foi assim no livro!!. Eu sei que fica difícil adaptar um livro tão grande quando a Ordem da Fênix, mas, poxa!, eles tinham muuuita grana pra gastar! Não podiam colocar mais uma meia-horinha pra contar melhor a história?? Pra mim esse não foi um filme por si só, é como um complemento do livro. Um guia para os leitores verem: olha, o que vc está lendo era pra ser assm. Parece que o filme inteiro são cenas escolhidas de uma obra bem maior.
Ah, além disso tem o Dan Radcliffe que é sempre detestável. Mal ator, não consegue trazer nenhuma das emoções do Harry pra tela. O Harry nos livros é engraçado, corajoso, tem dúvidas. O dos filmes só tem dúvidas. É impressionante como TODOS os outros atores dão de 10 a 0 nele. Mais impressionante ainda é como a crítica adoooora ele...
Mas o filme também tem coisas boas. É uma obra bem feita, estética, bons efeitos especiais, iluminação boa, trilha sonora excelente. Os atores novos também são muito bons. A Helena Boham Carter (Bellatrix Lestrange) dispensa comentários, como sempre. É engraçado pensar que ela foi a segunda opção da produção... A atriz que fez a Luna Lovegood é perfeita: linda, voz distraída, ótima atriz. Igualzinho ao que eu imaginei, até melhor :] A Dolores Umbridge está perfeita também. Mais perfeita só se tivessem conseguido uma atriz que realmente tivesse cara de sapo. E a Tonks é legal também, bem linda. Bom, ela não aparece muito, então não dá pra comentar muito a respeito dela.
O Ralf Fienze (Voldemort) destrói todo mundo, como sempre. A produção tem que parar de trazer atores tão bons pra fazer os personagens malvados, assim eu vou acabar torcendo por eles. Outra coisa que eu gostei é que o Rony está bem mais parecido com o personagem literário, bem menos boboca e medroso que nos outros filmes. A Hermione também está mais fiel, não sendo a Xena, Princesa Guerreira que sempre tem as idéias na história. E o Gary Oldman (Sirius Black) está muito sexy, hehe.
Resumidamente, a película tem cenas boas e produção boa, mas faltou um pouco da parte do roteirista. Tomara que no Enigma do Príncipe (livro 6) tragam de volta o roteirista dos outros filmes.
24.7.07
Eu não gosto de best-sellers. Não li nada do Dan Brown e provavelmente não vou fazê-lo (inicialmente pq é um best-seller, mas agora pq ele simplesmente não me interessa) nem nada que costuma aparecer naquela listinha dos dez livros mais vendidos na Veja ou qualquer outra revista. Coisa de pseudo-cult-gosto-do-que-ninguém-gosta? Sim. E pq acredito que literatura é uma das coisas que as massas simplesmente não entendem, mas isso é assunto para outro post.
Mas Harry Potter é outra história. É estranho pensar que eu realmente cresci com o Harry. Li o primeiro livro com 12 anos e o 7º com 18 (e se eu estudasse em Hogwarts essas seriam as idades com as quais em começaria e me formaria lá, já que sou do segundo semestre) e ele fez MUITA diferença na minha vida. Eu não gostava de ler antes dele e, depois de lido, tudo começou a se relacionar com ele - piadas e cenas do livros me recorriam constantemente. Os personagens são como amigos pra mim e eu ainda sei o que alguns feitiços significam e outras informações inúteis acerca dos livros de cor.
O estranho mesmo de tudo isso é que sempre que eu acabava um livro, eu sentia um vazio imenso dentro de mim que ficava por dias (sensação que, até hoje, só um outro livro conseguiu causar). Era como me despedir de um amigo que morava muito longe, ficava por poucos dias de imensa alegria e diversão e fosse embora, me deixando para trás, sozinha no escuro. Dessa vez, ao fim do último livro definitivo (que acabei de ler há poucas horas - fantástico e muito, muito revelador), essa sensação está demorando para vir. É como se eu estivesse me conformando aos poucos de que um ente querido tivesse morrido e não quisesse acreditar que ele realmente nunca mais fosse voltar. É estranho não terminar e querer respostas e esperar ansiosa pelo outro lançamento...
Uma das coisas que me deixa meio irritada, no entanto, é que a maioria das pessoas associa Harry Potter a adolescentes idiotas que só lêem best-sellers. Talvez a maioria do público seja, cativado pelas cenas de ação e piadinhas dos livros e até escolhendo seu casal preferido, mas é tão mais do que isso...
Harry Potter não é uma história para crianças sobre um bruxo órfão que tem que vencer o mal. Harry Potter é uma história para crianças e adultos sobre tolerância, principalmente. Como a própria Rowling disse, o fato do Harry ser um bruxo é meio pano de fundo para o enredo e não é tão importante assim. Durante toda a saga, é mostrada a importância do bom relacionamente entre os bruxos e trouxas e entre os bruxos e outros seres fantásticos. Isso é muito frisado no discurso pró-sangue-puro dos Comensais da Morte, o que me pareceu muito com o regime nazista (principalmente nos 6º e 7º livros). No 7º livro, Voldemort consegue tomar poder e seu regime é totalitário, com controle da imprensa e das escolas, patrulhas armadas nas ruas, prisão e tortura daqueles que se opõem a ele. Tem muita política em Harry Potter. Isso foi dito na Folha e no Estadão acerca do 5º filme. Imagino o que dirão a respeito do 7º filme... Em defesa, desde o livro 5, Harry junta-se com os amigos e forma um grupo de resistência dentro da escola, ao mesmo tempo em que os adultos formam um do lado de fora. Esses grupos se parecem muito com grupos de resistência de guerrilha. Tenho certeza de que os métodos de atuação dos dois grupos não foram tirados da imaginação da autora.
Além disso, os personagens do livro são extremamente complexos, como pessoas reais, com várias facetas. É difícil prever as ações de um personagem, a não ser que ele seja muito caricato, ou em situações muito comuns. Isso também mostra claramente que não há maniqueísmo na história. Os lados da batalha não são separados por bruxos totalmente bons e totalmente ruins. Ambos, apesar dos poderes mágicos, são humanos afinal. Até Dumbledore, o símbolo máximo do bem supremo tem seus defeitos e seus escorregões. Bom, o Voldemort realmente é completamente mal, mas ele foi muito bem trabalhado para ser assim, como alguns líderes políticos que possamos imaginar.
Há também, claro, as referências óbvias às verdadeiras virtudades como compaixão, amor, misericórdia, perdão e altruísmo. É como a Bíblia para ateus. Eu acho que mais líderes mundiais deveriam ler Harry Potter. Talvez mais pessoas deveriam ler, ao menos os trechinhos de lição de moral.
É por causa dessas lições de moral e essas referências políticas que eu acho que Harry Potter é bem melhor que Senhor dos Anéis. E é de longe bem mais divertido e agradável de ler.
Mas Harry Potter é outra história. É estranho pensar que eu realmente cresci com o Harry. Li o primeiro livro com 12 anos e o 7º com 18 (e se eu estudasse em Hogwarts essas seriam as idades com as quais em começaria e me formaria lá, já que sou do segundo semestre) e ele fez MUITA diferença na minha vida. Eu não gostava de ler antes dele e, depois de lido, tudo começou a se relacionar com ele - piadas e cenas do livros me recorriam constantemente. Os personagens são como amigos pra mim e eu ainda sei o que alguns feitiços significam e outras informações inúteis acerca dos livros de cor.
O estranho mesmo de tudo isso é que sempre que eu acabava um livro, eu sentia um vazio imenso dentro de mim que ficava por dias (sensação que, até hoje, só um outro livro conseguiu causar). Era como me despedir de um amigo que morava muito longe, ficava por poucos dias de imensa alegria e diversão e fosse embora, me deixando para trás, sozinha no escuro. Dessa vez, ao fim do último livro definitivo (que acabei de ler há poucas horas - fantástico e muito, muito revelador), essa sensação está demorando para vir. É como se eu estivesse me conformando aos poucos de que um ente querido tivesse morrido e não quisesse acreditar que ele realmente nunca mais fosse voltar. É estranho não terminar e querer respostas e esperar ansiosa pelo outro lançamento...
Uma das coisas que me deixa meio irritada, no entanto, é que a maioria das pessoas associa Harry Potter a adolescentes idiotas que só lêem best-sellers. Talvez a maioria do público seja, cativado pelas cenas de ação e piadinhas dos livros e até escolhendo seu casal preferido, mas é tão mais do que isso...
Harry Potter não é uma história para crianças sobre um bruxo órfão que tem que vencer o mal. Harry Potter é uma história para crianças e adultos sobre tolerância, principalmente. Como a própria Rowling disse, o fato do Harry ser um bruxo é meio pano de fundo para o enredo e não é tão importante assim. Durante toda a saga, é mostrada a importância do bom relacionamente entre os bruxos e trouxas e entre os bruxos e outros seres fantásticos. Isso é muito frisado no discurso pró-sangue-puro dos Comensais da Morte, o que me pareceu muito com o regime nazista (principalmente nos 6º e 7º livros). No 7º livro, Voldemort consegue tomar poder e seu regime é totalitário, com controle da imprensa e das escolas, patrulhas armadas nas ruas, prisão e tortura daqueles que se opõem a ele. Tem muita política em Harry Potter. Isso foi dito na Folha e no Estadão acerca do 5º filme. Imagino o que dirão a respeito do 7º filme... Em defesa, desde o livro 5, Harry junta-se com os amigos e forma um grupo de resistência dentro da escola, ao mesmo tempo em que os adultos formam um do lado de fora. Esses grupos se parecem muito com grupos de resistência de guerrilha. Tenho certeza de que os métodos de atuação dos dois grupos não foram tirados da imaginação da autora.
Além disso, os personagens do livro são extremamente complexos, como pessoas reais, com várias facetas. É difícil prever as ações de um personagem, a não ser que ele seja muito caricato, ou em situações muito comuns. Isso também mostra claramente que não há maniqueísmo na história. Os lados da batalha não são separados por bruxos totalmente bons e totalmente ruins. Ambos, apesar dos poderes mágicos, são humanos afinal. Até Dumbledore, o símbolo máximo do bem supremo tem seus defeitos e seus escorregões. Bom, o Voldemort realmente é completamente mal, mas ele foi muito bem trabalhado para ser assim, como alguns líderes políticos que possamos imaginar.
Há também, claro, as referências óbvias às verdadeiras virtudades como compaixão, amor, misericórdia, perdão e altruísmo. É como a Bíblia para ateus. Eu acho que mais líderes mundiais deveriam ler Harry Potter. Talvez mais pessoas deveriam ler, ao menos os trechinhos de lição de moral.
É por causa dessas lições de moral e essas referências políticas que eu acho que Harry Potter é bem melhor que Senhor dos Anéis. E é de longe bem mais divertido e agradável de ler.
13.7.07
Ah... Eu nunca postei vídeos do youtube aqui. Sinto a necessidade de fazer isso, porque isso é tão engraçado (e pq não quero contar minha epopéia no Animundi pra vocês. Digo apenas que fiz uns minifilmes bonitinhos e que eu perdi o meu chaveiro de Jack no caminho ardiloso para casa (mas Nightmare Before Christmas está na moda agora, então vai ser fácil arrumar outro).
Isso aí. Este foi uma das melhores curtas que eu vi no festival (que rola até domingo, pra quem quiser ver) e também o único que eu achei no youtube... Enjoy!
Isso aí. Este foi uma das melhores curtas que eu vi no festival (que rola até domingo, pra quem quiser ver) e também o único que eu achei no youtube... Enjoy!
9.7.07
3.7.07
Não faço amigos fácil. Isso tem melhorado de uns tempos pra cá. Tenho mais amigos virtuais que reais (isso deve ser uma constante entre blogueiros, visto que quase nignuém que eu realmente conheço comenta ou sequer lê isso aqui). Só faço amigos se eles me forem apresentados.
Também não cultivo muito bem minhas amizades. Só tenho uma amiga de infância, com quem eu mal converso, e duas da escola. O orkut serve para me lembrar de todo mundo que eu conheci e com quem eu não converso mais. Devem haver umas 15 pessoas, dos meus 200 contatos com quem troco scraps regularmente. No MSN então a situação é ainda mais crítica. Não sei o que me impede de deletar todos essas pessoas de vez da minha vida (ou do meu desktop, que parece ser na prática a mesma coisa).
Tem gente que perdi que faz falta. Lembro dos bons momentos e fico pensando em porque eles - ou mesmo eu mesma - mudaram tanto.
Mas a maioria não faz a mínima diferença.
Isso chega a ser triste. Mas só chega.
Também não cultivo muito bem minhas amizades. Só tenho uma amiga de infância, com quem eu mal converso, e duas da escola. O orkut serve para me lembrar de todo mundo que eu conheci e com quem eu não converso mais. Devem haver umas 15 pessoas, dos meus 200 contatos com quem troco scraps regularmente. No MSN então a situação é ainda mais crítica. Não sei o que me impede de deletar todos essas pessoas de vez da minha vida (ou do meu desktop, que parece ser na prática a mesma coisa).
Tem gente que perdi que faz falta. Lembro dos bons momentos e fico pensando em porque eles - ou mesmo eu mesma - mudaram tanto.
Mas a maioria não faz a mínima diferença.
Isso chega a ser triste. Mas só chega.
27.6.07
Passei seis meses sem fazer absolutamente nada (salvo por um cineminha aqui e acolá, um churrasco e uma mísera festa no início do ano). Agora que finalmente apareceu um churrasco de despedida de uma amigo meu, surgiu uma pizzada de uma amiga minha no mesmo dia e um casamento no Rio de uma prima distante. E tudo isso na véspera de um simulado. E depois do simulado ainda tem outro churrasco.
Impressionante como TUDO sempre acontece ao mesmo tempo.
Impressionante como TUDO sempre acontece ao mesmo tempo.
24.6.07
Eu sou meio suspeita pra falar de filmes fantasiosos, mas O Labirinto do Fauno é realmente espetacular. A fotografia é ótima, pra começar. Os efeitos especiais também (se bem que hoje, depois de Narnia ou Star Wars mesmo, onde seres em animação gráfica nunca destoam do resto do cenário, é inútil falar de animação). O fauno, as fadas e outros seres fantásticos são incrivelmente bem feitos e belos. O cenário místico é fabuloso, o real idem.

O enredo se passa em 1944, durante a ditaduta do General Franco, na Espanha. A história trata de Ofélia, uma menina de 13 anos (com cara e corpo de 11, diga-se de passagem), apaixonada por contos de fadas, que vai viver com sua mãe na casa de campo do General Vidal (Darth Vader), um militar franquista inescrupuloso e muito cruel. Apesar de tudo isso, o general é segundo marido da mãe da protagonista e pai de seu irmãozinho, que está prestes a nascer.
Certo noite, Ofélia é levada por uma fada para um labirinto nas redondezas da casa de campo de seu padrasto, onde encontra um fauno que lhe revela que ela é uma princesa esperada por todos do reino subterrâneo, onde não existe dor ou enfermidades ou morte. Mas, para provar que ela é digna de sua magestade, é preciso que ela realize três tarefas antes da lua cheia (dali a pouco tempo).
Enquanto isso, no lustre do castelo, a empregada do general e amiga de Ofélia e o médico de sua mãe, tramam contra o general, ajudando rebeldes refugiados (Aliança Rebelde) na floresta. Além disso, a mãe de Ofélia fica muito doente por conta da gravidez. O mundo real é marcado por crueldade extrema e muita dor.
Um dos pontos altos é como a película consegue balançar cenas muito cruéis com as fantasiosas, fazendo com que nada se torne forte demais, ao mesmo tempo que nada perca o sentido. Ainda fica no ar, ao final do filme, se o fauno e todo o reino mágico de Ofélia realmente existiu e foi impossível de ser visto por adultos sem inocência ou se foi tudo somente um delírio. Acho que este foi um dos melhores dramas polítocs que já assisti.

O enredo se passa em 1944, durante a ditaduta do General Franco, na Espanha. A história trata de Ofélia, uma menina de 13 anos (com cara e corpo de 11, diga-se de passagem), apaixonada por contos de fadas, que vai viver com sua mãe na casa de campo do General Vidal (Darth Vader), um militar franquista inescrupuloso e muito cruel. Apesar de tudo isso, o general é segundo marido da mãe da protagonista e pai de seu irmãozinho, que está prestes a nascer.
Certo noite, Ofélia é levada por uma fada para um labirinto nas redondezas da casa de campo de seu padrasto, onde encontra um fauno que lhe revela que ela é uma princesa esperada por todos do reino subterrâneo, onde não existe dor ou enfermidades ou morte. Mas, para provar que ela é digna de sua magestade, é preciso que ela realize três tarefas antes da lua cheia (dali a pouco tempo).
Enquanto isso, no lustre do castelo, a empregada do general e amiga de Ofélia e o médico de sua mãe, tramam contra o general, ajudando rebeldes refugiados (Aliança Rebelde) na floresta. Além disso, a mãe de Ofélia fica muito doente por conta da gravidez. O mundo real é marcado por crueldade extrema e muita dor.
Um dos pontos altos é como a película consegue balançar cenas muito cruéis com as fantasiosas, fazendo com que nada se torne forte demais, ao mesmo tempo que nada perca o sentido. Ainda fica no ar, ao final do filme, se o fauno e todo o reino mágico de Ofélia realmente existiu e foi impossível de ser visto por adultos sem inocência ou se foi tudo somente um delírio. Acho que este foi um dos melhores dramas polítocs que já assisti.
20.6.07
Tem várias coisas que eu odeio. Principalmente tipos de pessoas.
Antes eu odiava os emos, mas agora eles estão diminuindo, então eles não me encomodam mais. Hoje me divirto mais rindo deles. Passei então a odiar pseudo-intelectuais, que são simplesmente detestáveis por tudo o que são e respresentam, com suas roupas retrôs, seus livros do Jorge Saramago, seus filmes do Walter Salles e outros diretores alternativos ganhadores de Oscars e suas bandas alternativas de gravadoras milhonárias.
Também odeio vegetarianos que tentam converncer todo mundo a parar de comer carne com suas fotos de açogues no orkut, dizendo que "se vc estudasse fisiologia humana vc saberia que não deveríamos comer carne assim" (na verdade se vc estudasse fisiologia, vc saberia que não deveríamos comer tanto assim). Esses vegans nunca pensam que, se fôssemos herbívoros, o cérebro humano nunca teria se desenvolvido tanto. Aposto que esses chatos me responderiam, por orkut, que tecnologia não é importante.
Há os comunistas também. Odeio comunista. Deveríamos fazer uma fogueira com todos eles e celebrar o imperialismo, capitalismo e consumismo norte-americano yanke. Eu entendo que o socialismo utópico, o científico e o anarquismo são idéias bonitas e tal e seria realmente bom se fosse possível. Mas não é. Por isso aquele livro do Thomas Morus se chama A Utopia. Eu aceito comunistas pré-guerra fria, mas continuar acreditando nesses ideais depois do fracasso da URSS, de Cuba, da China, da Coréia do Norte, etc, etc, etc... (Favor não colocar a culpa disso na corrida armamentista e espacial da União Soviética e dos EUA. Se a URSS fosse realmente tão boa, nem teria entrado na briga e realmente ficaria investindo para melhorar a edução, a saúde e blá, blá, blá...)
Odeio anti-americanos que deixam de comprar McDonald´s, mas comem no Burger King. Isso serve para os comunistas também, que na maioria das vezes deixam de usar Nike para usar All Star e carregam seus IPods por todos os lados. Detestáveis...
Odeio feminista também. Mas isso eu odeio simplesmente pelo gosto de odiar, porque feministas são muito chatas. Até parece que conseguimos matar baratas, trocar pneus sem nos importarmos em nos sujarmos e abrir latas de picles sozinhas... E eu nunca vi uma feminista reclamar de não ter que servir o exército ou de desconto para mulheres na balada.
E eu odeio pessoas que são pseudo-intelectuais, vegetarianos chatos, comunistas, antiamericanos (que costumam ser a mesma coisa) e feminista tudo ao mesmo tempo. E ainda por cima politicamente correto. Odeio pessoas politicamente corretas, ecológicas, que não comem gordura trans... O mundo seria tão mais divertido se fôssemos todos impoliticamente corretos...
Antes eu odiava os emos, mas agora eles estão diminuindo, então eles não me encomodam mais. Hoje me divirto mais rindo deles. Passei então a odiar pseudo-intelectuais, que são simplesmente detestáveis por tudo o que são e respresentam, com suas roupas retrôs, seus livros do Jorge Saramago, seus filmes do Walter Salles e outros diretores alternativos ganhadores de Oscars e suas bandas alternativas de gravadoras milhonárias.
Também odeio vegetarianos que tentam converncer todo mundo a parar de comer carne com suas fotos de açogues no orkut, dizendo que "se vc estudasse fisiologia humana vc saberia que não deveríamos comer carne assim" (na verdade se vc estudasse fisiologia, vc saberia que não deveríamos comer tanto assim). Esses vegans nunca pensam que, se fôssemos herbívoros, o cérebro humano nunca teria se desenvolvido tanto. Aposto que esses chatos me responderiam, por orkut, que tecnologia não é importante.
Há os comunistas também. Odeio comunista. Deveríamos fazer uma fogueira com todos eles e celebrar o imperialismo, capitalismo e consumismo norte-americano yanke. Eu entendo que o socialismo utópico, o científico e o anarquismo são idéias bonitas e tal e seria realmente bom se fosse possível. Mas não é. Por isso aquele livro do Thomas Morus se chama A Utopia. Eu aceito comunistas pré-guerra fria, mas continuar acreditando nesses ideais depois do fracasso da URSS, de Cuba, da China, da Coréia do Norte, etc, etc, etc... (Favor não colocar a culpa disso na corrida armamentista e espacial da União Soviética e dos EUA. Se a URSS fosse realmente tão boa, nem teria entrado na briga e realmente ficaria investindo para melhorar a edução, a saúde e blá, blá, blá...)
Odeio anti-americanos que deixam de comprar McDonald´s, mas comem no Burger King. Isso serve para os comunistas também, que na maioria das vezes deixam de usar Nike para usar All Star e carregam seus IPods por todos os lados. Detestáveis...
Odeio feminista também. Mas isso eu odeio simplesmente pelo gosto de odiar, porque feministas são muito chatas. Até parece que conseguimos matar baratas, trocar pneus sem nos importarmos em nos sujarmos e abrir latas de picles sozinhas... E eu nunca vi uma feminista reclamar de não ter que servir o exército ou de desconto para mulheres na balada.
E eu odeio pessoas que são pseudo-intelectuais, vegetarianos chatos, comunistas, antiamericanos (que costumam ser a mesma coisa) e feminista tudo ao mesmo tempo. E ainda por cima politicamente correto. Odeio pessoas politicamente corretas, ecológicas, que não comem gordura trans... O mundo seria tão mais divertido se fôssemos todos impoliticamente corretos...
15.6.07
9.6.07
Tá certo. Admito que é grande. Mas é agradável. Juro!
Bom, esse é o capítulo final da minha epopéia. (viu, Leo, vc vai poder imprimi-lo agora. Quero saber o que achou depois.) Depois disso voltaremos aos posts pequenos.
Aliás, eu sei que tem umas incoerências externas absurdas, mas quando eu escrevi isso eu tinha só 14 anos e se eu corrigir agora, vai perder toda a graça.
Rosas de Prata
CAPÍTULO 4
Rosas de Prata
Darwin sorriu, completamente realizado, seu ego mais inflado que nunca. Sabia que Nacademus, lá longe no Reino das Fadas (seu futuro reino), assistia orgulhoso pela sua bola de cristal. Olhou para a espada e para a armadura coberta de sangue e riu. Pensar que tinha realmente escapado da boca do Dragão...
Estava lá, à porta do quarto que obviamente continha a princesa. Tirou o elmo e os cabelos dos olhos. Respirou fundo, pôs a mão sobre a maçaneta, virou-a e abriu a porta.
Estranhamente, o quarto era incrivelmente limpo, todo arrumadinho e muito bonito. O quarto inteiro era de marfim: as paredes, o piso, o teto... E este cômodo possuía até uma janela. Uma janela média, de onde dava para enxergar o sol, ainda alto no céu.
Aquela claridade toda fez bem a Darwin, que estivera cerca de três horas no escuro. Seus olhos haviam ardido no vermelho e laranja do fogo, suas narinas e garganta queimaram com a fuligem. Mas aquela claridade, aquele branco, o sol no céu, aquela paz... Darwin andou em direção à janela. Olhou para fora e viu a Floresta de Iridis lá longe. Tão bonita, tudo tão verde visto daqui de cima... Mais perto, estava Black. O cavalo negro pastava tranqüilamente, exatamente como seu cavaleiro havia o deixado, algumas horas atrás. Logo, logo, porém, estaria cavalgando de volta para casa, para o Reino das Fadas, para ser coroado e... E...
Havia esquecido daquele tão simples detalhe, o motivo pelo qual estava lá, pelo qual este quarto estava tão decorado. Olhou para a parede que ainda não tinha observado e viu uma espécie de velório altamente sofisticado. Três degraus cresciam do solo e, no alto, jazia uma cama. Era mais uma cápsula de vidro, mas o importante é que lá estava a princesa. Ao todo seu redor haviam deslumbrantes rosas prateadas. Aquelas rosas não morriam, pareciam florescer ainda mais a cada dia que passava. Perdiam as pétalas, mas novas nasciam em seus lugares. Eram flores enigmáticas, certamente mágicas.
—Bonito, disse Darwin, aproximando-se da princesa.
Talvez o beijo não seria tão ruim. Havia lido em alguns livros de Nacademus que o beijo era “como uma rápida passagem pelo paraíso”, não só um ato de amor. Bom, Darwin abriu um sorriso maroto, se fosse assim, como os outros haviam descrito, não seria nada mal.
Chegou ainda mais perto, o coração batendo com ansiedade. Seria o último obstáculo até o trono, até a coroa, até o poder...
Esticou a mão, a fim de retirar o vidro cobrindo a princesa. Ela era realmente linda. Os cachos pretos emoldurando sua bela face, branca como a lua, os olhos fechados com longos cílios, sob sobrancelhas finas e bem feitas. O nariz arrebitado bem no centro do rosto, uma boca pequena, o lábio inferior mais carnudo que o superior, de um rosa pálido. Tinha um pescoço fino, o vestido do mesmo prateado das rosas era solto e deixava seus ombros à mostra. Todo o seu corpo a partir da cintura estava coberto por pétalas caídas. Mesmo com tamanha beleza, a princesa parecia distante, congelada de um modo muito bizarro, parecia morbidamente morta: um fantasma colorido.
Darwin recuou, puxando a mão, deslizando-a bruscamente sobre o vidro. Quando sua mão esquerda tocou uma das rosas laterais, sentiu uma imensa dor na palma. Fora tudo muito rápido, mas Darwin ainda sentia a perfuração do espinho rasgando sua pele, atravessando sua carne e abrindo sua armadura como se rasga uma folha de papel alumínio.
Ainda com a mão sobre a cápsula de vidro, o cavaleiro, gritando de dor, puxou o braço para trás, arrancando a rosa de seu buquê. Em seu lugar, nasceram outras três flores. Enfurecido, Darwin arrancou a planta amaldiçoada, sem cor e sem cheiro, de seu punho, separando-a, violentamente, do espinho grosso. Jogou a flor desgraçada no chão e ficou algum tempo olhando-a caída, o sangue borbulhando em desgosto.
Quando retornou sua atenção à mão ferida, viu que ela sangrava um pouco. Um rastro vermelho e fino de sangue novo ia do espinho até a ponta do dedo indicador, donde escorriam pequenas gotas que caíam ao chão manchando aquele mármore puro com uma pequena poça vermelha. O espinho cinza azulado como a manhã antes do sol, fincado bem no centro da palma recoberta de ferro, saindo por ambos os lados. Com a mão desocupada, tratou de retirar o “invasor” cuidadosamente, mergulhado em profunda comiseração.
Resolveu tirar a armadura das mãos para ver o estrago que o espinho fizera. Puxou a mesma da mão machucada como se fosse uma luva. Sim, presumiu Darwin com os lábios tremendo de ódio contra a flor maldita, o estrago havia sido grande. A palma estava completamente furada como se tivesse levado um tiro. O buraco tinha um diâmetro de mais ou menos um centímetro e o círculo que a formava parecia ter sido queimada ao seu lugar. Não sangrava muito. Até agora.
De repente, Darwin tornou-se uma nascente de um verdadeiro rio de sangue. Horror e fúria prevaleceram e o garoto correu até a porta, onde havia deixado sua espada, pegou-a com as duas mãos, foi em direção das flores e—
—AHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!
Com a garganta solta, livre, o humor pior que nunca, a mão sangrando muito tingindo a armadura, a espada, o chão... Cortava frenética e furiosamente contra as rosas: pétalas e espinhos voavam pelo cômodo, como penas numa guerra de travesseiros. Essa batalha continuou por vários minutos, até que todas as flores foram despedaçadas e jaziam caídas no solo parecendo uma estátua de pedra estatelada. Satisfeito, mas não se sentindo ainda vingado, jogou a espada ao chão com a mão boa, agora coberta pelo sangue que continuava saindo da outra. Ergueu a mesma, macabramente regando as rosas cortadas e mortas.
—Vinguei-me de vocês, flora infernal! São idênticas à princesa que guardam: bonitas por fora, mas detestáveis e pontudas por dentro! Tal qual a princesa que matou meu pai! – falou Darwin num tom alto e claro, ganhava coragem, orgulho, à medida que
falava.
Era ele quem mandava, aquele que tinha o poder no quarto. Aquelas rosas eram vegetais de pedra, a princesa estava tão morta quanto o dragão a muitos andares abaixo deles. Darwin dominava neste momento. Sua ferida já não doía mais, mas o sangue persistia em jorrar. Respirou fundo, não por medo, não por nervosismo, mas em um ato de soberania. E continuou:
—Sangro por vocês! Vocês não têm sangue em seus vasos de pedra, suas flores
prateadas do inferno! Rego-vos em um ato de misericórdia!
Sangue desaguava nas pétalas caídas e nos galhos nus da palma da mão erguida do cavaleiro, tingindo tudo de vermelho. Gotas salpicavam também sobre a cápsula da princesa, manchando-a aos pouquinhos.
As trevas finalmente baixaram do espírito de Darwin e sua ferida parou de jorrar, pingando só um pouco. Sentou-se ao chão, em um dos únicos cantos que não estavam sujos de seu próprio sangue, onde sua fúria não havia interrompido a paz do mármore. Tirou um lenço do interior da bota de ferro e amarrou-o em torno do machucado, esse ganhou umas gotas vermelhas no início. Darwin assistiu-as nascer e crescer com grande interesse e um pouco de dó por si mesmo. Mais calmo, despiu-se da luva de ferro da mão direita. Flexionou os dedos, todos os dez. Aquele ferro apertava e impedia-lhe do uso correto de suas mãos.
—Ai! – exclamou aliviado, massageando a mão boa com a ferida. Era tão bom tirar toda aquela tensão dentre os dedos.
Lembrou-se de uma vez ter recebido uma massagem nos ombros de uma garota. Havia sido gostoso. Darwin tinha 15 anos na época e a garota era uma camponesa bonitinha. O garoto lembrava-se de suas tranças cor de mel e de seus grandes olhos castanhos. Tinha mãos hábeis, dois anos a mais que Darwin e um papo ousado.
—A única coisa que faço em casa é costurar, cuidar dos animais e da casa – ela havia dito a Darwin enquanto massageava-o. E num tom mais provocante revelou o que realmente queria:
—Agora eu só preciso de um homem para me dar uma vida.
Mas ela havia se enganado ao procurar o cavaleiro. Este não queria garotas e (nessa ela havia se enganado mesmo) nunca dividiria o poder – a verdadeira vida, o significado e a essência da vida – com ninguém, muita menos com uma camponesinha qualquer.
Todavia gostaria que ela – como era mesmo seu nome? – estivesse aqui para massagear seus pés dolorosos. Tirou a bota de ferro do outro pé e esticou seus dedos, separando-os, depois os flexionou algumas vezes. Cruzando a perna sobre a outra, começou a massageá-la. Ainda fazendo isso, olhou para cima, encarando o quarto.
—Pelas barbas de Merlin!
Espantado, viu que o chão continuava repleto de sangue, mas as pétalas haviam sugado aquilo que o manchou, tal como os galhos da roseira. Esta estava crescendo numa velocidade fora do comum cobrindo a princesa por completo. Pelo que deu para Darwin ver, a cápsula também estava limpa. Com passos de mágica, as pétalas levitavam do chão, juntavam-se aos galhos e formavam novas rosas. A roseira nova era mais alta, mais grossa e tinha mais espinhos.
Darwin abaixou a cabeça. Entendera tudo. Teria sido fácil demais... Não podia lutar contra as rosas, contra os arbustos, contra os espinhos. Isto só faria com que crescessem mais... Havia um segredo. E Darwin sabia o que tinha que fazer. Teria que amar a princesa, amá-la de verdade, para poder chegar perto dela. As rosas a protegiam de alguém que a usaria, exatamente como Darwin planejava fazer.
Enterrou o rosto nas mãos. E agora? Ninguém ama por obrigação, isto não é amor.
Aos sete anos Darwin havia perguntado à sua mãe o que era amor. Nesta época ela ainda era apaixonada por seu marido, e este ainda era fiel, então respondera, enquanto cozinhava:
—Amor é sentir calor nas mãos e no rosto, frio na barriga, mas não sentir os pés no chão.
Aquilo era bonito, mas o garoto já afastava os sentimentos quando chegava à primeira etapa: calor nas mãos. Lembrava de ter sentido calor excessivo quando Virgínia – isso! Este era o nome da camponesa – falava com ele. Nacademus havia dito que ela não servia, que nada jamais seria sério com ela. E quem disse que Darwin queria algo sério? Ele queria era se divertir, depois largava a garota em qualquer canto. Ao pensar nisso, o cavaleiro tinha certeza de que novos espinhos cresciam no arbusto.
Apertou os olhos fechados. Por que o amor tinha de ser tão complicado? Na verdade não é, dissera o Mago Stein em visita a Nacademus, o amor é muito simples, nós é que a tornamos complexa. Darwin concordava com isso. Bastava arrancar o coração, expô-lo ao vento e esperar o primeiro bonitão tocá-lo. No caso de Nemo, era mais fácil ainda, bastava alguém olhar para ele que já entregaria o mundo a ela. Mas Darwin era diferente. Costumava se isolar e esconder-se emocionalmente. Era fechado.
Parcialmente por causa da mãe que, depois do incidente da princesa, chamava todo e qualquer apaixonado de tolo cego. Darwin também tinha medo de se machucar, assim como sua mãe havia sido machucada.
Na verdade, ele não tinha nada contra mulheres. Sempre apreciou as curvas e delicadeza das moças, raciocínio e visão de mundo diferentes dos homens. Até levaria a camponesa Virgínia para algum lugar distante para reiniciar sua vida com ela. O problema maior eram as princesas, como esta pirralha dentro da cápsula. Uma havia destruído sua família e a mãe de Darwin, que sempre fora alegre e amável, tornou-se fechada e triste, morrera de tristeza. Desde então, Darwin jurou que nunca se relacionaria com princesa alguma para vingar a morte e a solidão de sua mãe.
***
Haviam passado horas. A roseira prateada continuava a florescer à medida que Darwin detestava mais a princesa de pedra.
A luz da lua cheia, pendurada lá no céu negro estrelado, entrava pela janela, iluminando o quarto, tornando-o ainda mais morto e pedroso. Darwin deitava-se no chão, olhando para o teto, a cabeça apoiada nos braços dobrados, pensando.
Nacademus o estaria observando agora? Deixaria sua bola de cristal pela noite? Por esta noite? Teria ele, conhecendo Darwin como conhecia, perdido as esperanças de que ele algum dia viria a amar? Como será que o Mago, lá longe, em seu simples e pequeno chalé na periferia calma do Reino das Fadas, estaria?
Reino das Fadas... Tão perto e ao mesmo tempo tão longe... Estava a 3 metros e a dois anos e Darwin tinha a impressão de que a distância aumentaria à medida que o tempo passasse.
Darwin virou-se para olhar a lua. Viu nela o rosto da mãe: envelhecida em demasia para sua idade, os olhos eram a única coisa que pareciam vivos. Sua expressão era de dor. Como ela estaria orgulhosa do filho que não caíra nas garras do amor.
Mas seria todo amor maldito? Os Magos acreditavam que os sentimentos mais bonitos eram a coragem e o amor. Por isso, quem os tinha seria um bom rei. Darwin leu, também, muitos livros de amores bonitos. Seria capaz de realizar tal ato? E Zaphira? Havia a morte da Fada do Amor sido em vão? Era inevitável pensar em amor sem fazer o mesmo com sua Fada. Darwin fechou os olhos e, no escuro, viu o aspecto meigo da amiga reaparecer. Seus olhos brilhantes, sorriso que iluminaria até a breu torre lá embaixo.
Uma lágrima formou-se nos olhos de Darwin e, sem perceber, deixou que ela caísse. Como sentia saudades da amiga... Havia convivido com ela por tão pouco tempo, mas ela havia o ensinado tanto...
Enquanto subiam a íngreme serra, Zaphira havia contado uma história sobre o início da humanidade e o verdadeiro significado do amor.
No início, ela havia dito, não existiam homens nem mulheres. Existiam seres de duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, mas apenas um coração, uma alma. O sangue era o mesmo, assim como o ar que respiravam. Estes seres eram muito felizes, mas os Deuses divertiam-se atirando raios nessas criaturas, separando-as. Desde então, a sina do ser humano é encontrar seu parceiro, aquele que tem a mesma alma, o mesmo coração. Aquele que voltará a dividir o ar e, algum dia, o mesmo sangue.
O cavaleiro não tinha prestado muita atenção ao conto, mas agora entendia... Olhando a cápsula que se livrava aos poucos dos espinhos que a envolviam, que a protegiam. Despia-se da armadura do anti-social, dos mitos, das mentiras.
Darwin ficou de pé. Alto, forte, os cabelos curtos, cor de areia, caídas sobre os olhos verde-água, como o mar. Seria possível? Sim, seria sim. Ah! Zaphira ficaria tão feliz, Nacademus provavelmente estava tão orgulhoso...
Deu dois passos e pôs-se a correr. O quarto se transformava em um comprido corredor, num túnel escuro. Mas nada disso importava, tinha a luz do olhar da princesa para lhe guiar, seus batimentos cardíacos aumentavam à medida que a adrenalina infiltrava em suas artérias. Correndo... Não pensava mais no Reino das Fadas. Bobagem! Nemo seria, certamente, um Rei melhor. Seria mais sábio, teria mais compaixão. Darwin nunca tinha pensado na tristeza de acordar todo dia sozinho, dia após dia, não ter ninguém para dividir as alegrias, para passar noites chuvosas abraçados no divã em frente à fogueira. Isso sim era ser feliz.
Como você estava errada, mãe.
Parou de correr, cessando em frente à cama de pedra. Puxou a cobertura para esquerda, livrando os membros superiores. A respiração acelerada, o coração à mil, pôs a sua mão sobre a delicada mão da princesa, com dedos compridos e finos, unhas bem cuidadas. Como a natureza era gentil com algumas pessoas, como ela conseguia manter, sem o menor esforço, algumas coisas tão belas; tal qual as rosas prateadas e a princesa Alka. Esta agora parecia apenas adormecida, não morta, como estava anteriormente, com sua pele macia e suave... O rapaz passou a mão pelos cabelos negros, macios e sedosos. Como ela conseguia ser tão incrivelmente perfeita...
Sorriu. Darwin abaixou-se e, um pouco nervoso, roçou seus lábios contra a boca da garota. Ela ainda estava fria. Beijou-a mais humanamente desta vez, soprando vida e calor para dentro do corpo à sua frente. Sentiu-se renascer ao toque.
Afastou um pouco o rosto para olhar profundamente nos olhos de seu amor. E surpreendeu-se olhando para dois grandes olhos de íris cor-de-rosa berrante. Por algum tempo, Darwin ficou paralisado, em transe, em favor desta tão bem vinda surpresa. Mas seria mesmo?
—Oizinho, Darwin!
Não era a voz profunda, suave, que era de se esperar de uma princesa. Era aguda demais para os lábios de veludo que a proferiam. Seria até desagradável se não fosse a coincidência...
—P-princesa Alka?!
—Darwin, me chame pelo nome.
Epílogo
Darwin não sabia, Nacademus nunca o havia ensinado que, se uma Fada gostasse realmente da pessoa de quem ajudasse, poderia transformar-se num humano e conviver com ela por mais tempo. Foi isso que Zaphira fez. Ela e Darwin se casaram e foram muito felizes juntos. Seu filho fora treinado por Nacademus, também, para competir o próximo trono.
É, você já adivinhou, mas vou dizer de novo: Nemo surpreendeu a todos (menos ao leitor) com suas habilidades e bravura e reinou por muitos anos até que a morte finalmente o levou.
Bom, esse é o capítulo final da minha epopéia. (viu, Leo, vc vai poder imprimi-lo agora. Quero saber o que achou depois.) Depois disso voltaremos aos posts pequenos.
Aliás, eu sei que tem umas incoerências externas absurdas, mas quando eu escrevi isso eu tinha só 14 anos e se eu corrigir agora, vai perder toda a graça.
CAPÍTULO 4
Rosas de Prata
Darwin sorriu, completamente realizado, seu ego mais inflado que nunca. Sabia que Nacademus, lá longe no Reino das Fadas (seu futuro reino), assistia orgulhoso pela sua bola de cristal. Olhou para a espada e para a armadura coberta de sangue e riu. Pensar que tinha realmente escapado da boca do Dragão...
Estava lá, à porta do quarto que obviamente continha a princesa. Tirou o elmo e os cabelos dos olhos. Respirou fundo, pôs a mão sobre a maçaneta, virou-a e abriu a porta.
Estranhamente, o quarto era incrivelmente limpo, todo arrumadinho e muito bonito. O quarto inteiro era de marfim: as paredes, o piso, o teto... E este cômodo possuía até uma janela. Uma janela média, de onde dava para enxergar o sol, ainda alto no céu.
Aquela claridade toda fez bem a Darwin, que estivera cerca de três horas no escuro. Seus olhos haviam ardido no vermelho e laranja do fogo, suas narinas e garganta queimaram com a fuligem. Mas aquela claridade, aquele branco, o sol no céu, aquela paz... Darwin andou em direção à janela. Olhou para fora e viu a Floresta de Iridis lá longe. Tão bonita, tudo tão verde visto daqui de cima... Mais perto, estava Black. O cavalo negro pastava tranqüilamente, exatamente como seu cavaleiro havia o deixado, algumas horas atrás. Logo, logo, porém, estaria cavalgando de volta para casa, para o Reino das Fadas, para ser coroado e... E...
Havia esquecido daquele tão simples detalhe, o motivo pelo qual estava lá, pelo qual este quarto estava tão decorado. Olhou para a parede que ainda não tinha observado e viu uma espécie de velório altamente sofisticado. Três degraus cresciam do solo e, no alto, jazia uma cama. Era mais uma cápsula de vidro, mas o importante é que lá estava a princesa. Ao todo seu redor haviam deslumbrantes rosas prateadas. Aquelas rosas não morriam, pareciam florescer ainda mais a cada dia que passava. Perdiam as pétalas, mas novas nasciam em seus lugares. Eram flores enigmáticas, certamente mágicas.
—Bonito, disse Darwin, aproximando-se da princesa.
Talvez o beijo não seria tão ruim. Havia lido em alguns livros de Nacademus que o beijo era “como uma rápida passagem pelo paraíso”, não só um ato de amor. Bom, Darwin abriu um sorriso maroto, se fosse assim, como os outros haviam descrito, não seria nada mal.
Chegou ainda mais perto, o coração batendo com ansiedade. Seria o último obstáculo até o trono, até a coroa, até o poder...
Esticou a mão, a fim de retirar o vidro cobrindo a princesa. Ela era realmente linda. Os cachos pretos emoldurando sua bela face, branca como a lua, os olhos fechados com longos cílios, sob sobrancelhas finas e bem feitas. O nariz arrebitado bem no centro do rosto, uma boca pequena, o lábio inferior mais carnudo que o superior, de um rosa pálido. Tinha um pescoço fino, o vestido do mesmo prateado das rosas era solto e deixava seus ombros à mostra. Todo o seu corpo a partir da cintura estava coberto por pétalas caídas. Mesmo com tamanha beleza, a princesa parecia distante, congelada de um modo muito bizarro, parecia morbidamente morta: um fantasma colorido.
Darwin recuou, puxando a mão, deslizando-a bruscamente sobre o vidro. Quando sua mão esquerda tocou uma das rosas laterais, sentiu uma imensa dor na palma. Fora tudo muito rápido, mas Darwin ainda sentia a perfuração do espinho rasgando sua pele, atravessando sua carne e abrindo sua armadura como se rasga uma folha de papel alumínio.
Ainda com a mão sobre a cápsula de vidro, o cavaleiro, gritando de dor, puxou o braço para trás, arrancando a rosa de seu buquê. Em seu lugar, nasceram outras três flores. Enfurecido, Darwin arrancou a planta amaldiçoada, sem cor e sem cheiro, de seu punho, separando-a, violentamente, do espinho grosso. Jogou a flor desgraçada no chão e ficou algum tempo olhando-a caída, o sangue borbulhando em desgosto.
Quando retornou sua atenção à mão ferida, viu que ela sangrava um pouco. Um rastro vermelho e fino de sangue novo ia do espinho até a ponta do dedo indicador, donde escorriam pequenas gotas que caíam ao chão manchando aquele mármore puro com uma pequena poça vermelha. O espinho cinza azulado como a manhã antes do sol, fincado bem no centro da palma recoberta de ferro, saindo por ambos os lados. Com a mão desocupada, tratou de retirar o “invasor” cuidadosamente, mergulhado em profunda comiseração.
Resolveu tirar a armadura das mãos para ver o estrago que o espinho fizera. Puxou a mesma da mão machucada como se fosse uma luva. Sim, presumiu Darwin com os lábios tremendo de ódio contra a flor maldita, o estrago havia sido grande. A palma estava completamente furada como se tivesse levado um tiro. O buraco tinha um diâmetro de mais ou menos um centímetro e o círculo que a formava parecia ter sido queimada ao seu lugar. Não sangrava muito. Até agora.
De repente, Darwin tornou-se uma nascente de um verdadeiro rio de sangue. Horror e fúria prevaleceram e o garoto correu até a porta, onde havia deixado sua espada, pegou-a com as duas mãos, foi em direção das flores e—
—AHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!
Com a garganta solta, livre, o humor pior que nunca, a mão sangrando muito tingindo a armadura, a espada, o chão... Cortava frenética e furiosamente contra as rosas: pétalas e espinhos voavam pelo cômodo, como penas numa guerra de travesseiros. Essa batalha continuou por vários minutos, até que todas as flores foram despedaçadas e jaziam caídas no solo parecendo uma estátua de pedra estatelada. Satisfeito, mas não se sentindo ainda vingado, jogou a espada ao chão com a mão boa, agora coberta pelo sangue que continuava saindo da outra. Ergueu a mesma, macabramente regando as rosas cortadas e mortas.
—Vinguei-me de vocês, flora infernal! São idênticas à princesa que guardam: bonitas por fora, mas detestáveis e pontudas por dentro! Tal qual a princesa que matou meu pai! – falou Darwin num tom alto e claro, ganhava coragem, orgulho, à medida que
falava.
Era ele quem mandava, aquele que tinha o poder no quarto. Aquelas rosas eram vegetais de pedra, a princesa estava tão morta quanto o dragão a muitos andares abaixo deles. Darwin dominava neste momento. Sua ferida já não doía mais, mas o sangue persistia em jorrar. Respirou fundo, não por medo, não por nervosismo, mas em um ato de soberania. E continuou:
—Sangro por vocês! Vocês não têm sangue em seus vasos de pedra, suas flores
prateadas do inferno! Rego-vos em um ato de misericórdia!
Sangue desaguava nas pétalas caídas e nos galhos nus da palma da mão erguida do cavaleiro, tingindo tudo de vermelho. Gotas salpicavam também sobre a cápsula da princesa, manchando-a aos pouquinhos.
As trevas finalmente baixaram do espírito de Darwin e sua ferida parou de jorrar, pingando só um pouco. Sentou-se ao chão, em um dos únicos cantos que não estavam sujos de seu próprio sangue, onde sua fúria não havia interrompido a paz do mármore. Tirou um lenço do interior da bota de ferro e amarrou-o em torno do machucado, esse ganhou umas gotas vermelhas no início. Darwin assistiu-as nascer e crescer com grande interesse e um pouco de dó por si mesmo. Mais calmo, despiu-se da luva de ferro da mão direita. Flexionou os dedos, todos os dez. Aquele ferro apertava e impedia-lhe do uso correto de suas mãos.
—Ai! – exclamou aliviado, massageando a mão boa com a ferida. Era tão bom tirar toda aquela tensão dentre os dedos.
Lembrou-se de uma vez ter recebido uma massagem nos ombros de uma garota. Havia sido gostoso. Darwin tinha 15 anos na época e a garota era uma camponesa bonitinha. O garoto lembrava-se de suas tranças cor de mel e de seus grandes olhos castanhos. Tinha mãos hábeis, dois anos a mais que Darwin e um papo ousado.
—A única coisa que faço em casa é costurar, cuidar dos animais e da casa – ela havia dito a Darwin enquanto massageava-o. E num tom mais provocante revelou o que realmente queria:
—Agora eu só preciso de um homem para me dar uma vida.
Mas ela havia se enganado ao procurar o cavaleiro. Este não queria garotas e (nessa ela havia se enganado mesmo) nunca dividiria o poder – a verdadeira vida, o significado e a essência da vida – com ninguém, muita menos com uma camponesinha qualquer.
Todavia gostaria que ela – como era mesmo seu nome? – estivesse aqui para massagear seus pés dolorosos. Tirou a bota de ferro do outro pé e esticou seus dedos, separando-os, depois os flexionou algumas vezes. Cruzando a perna sobre a outra, começou a massageá-la. Ainda fazendo isso, olhou para cima, encarando o quarto.
—Pelas barbas de Merlin!
Espantado, viu que o chão continuava repleto de sangue, mas as pétalas haviam sugado aquilo que o manchou, tal como os galhos da roseira. Esta estava crescendo numa velocidade fora do comum cobrindo a princesa por completo. Pelo que deu para Darwin ver, a cápsula também estava limpa. Com passos de mágica, as pétalas levitavam do chão, juntavam-se aos galhos e formavam novas rosas. A roseira nova era mais alta, mais grossa e tinha mais espinhos.
Darwin abaixou a cabeça. Entendera tudo. Teria sido fácil demais... Não podia lutar contra as rosas, contra os arbustos, contra os espinhos. Isto só faria com que crescessem mais... Havia um segredo. E Darwin sabia o que tinha que fazer. Teria que amar a princesa, amá-la de verdade, para poder chegar perto dela. As rosas a protegiam de alguém que a usaria, exatamente como Darwin planejava fazer.
Enterrou o rosto nas mãos. E agora? Ninguém ama por obrigação, isto não é amor.
Aos sete anos Darwin havia perguntado à sua mãe o que era amor. Nesta época ela ainda era apaixonada por seu marido, e este ainda era fiel, então respondera, enquanto cozinhava:
—Amor é sentir calor nas mãos e no rosto, frio na barriga, mas não sentir os pés no chão.
Aquilo era bonito, mas o garoto já afastava os sentimentos quando chegava à primeira etapa: calor nas mãos. Lembrava de ter sentido calor excessivo quando Virgínia – isso! Este era o nome da camponesa – falava com ele. Nacademus havia dito que ela não servia, que nada jamais seria sério com ela. E quem disse que Darwin queria algo sério? Ele queria era se divertir, depois largava a garota em qualquer canto. Ao pensar nisso, o cavaleiro tinha certeza de que novos espinhos cresciam no arbusto.
Apertou os olhos fechados. Por que o amor tinha de ser tão complicado? Na verdade não é, dissera o Mago Stein em visita a Nacademus, o amor é muito simples, nós é que a tornamos complexa. Darwin concordava com isso. Bastava arrancar o coração, expô-lo ao vento e esperar o primeiro bonitão tocá-lo. No caso de Nemo, era mais fácil ainda, bastava alguém olhar para ele que já entregaria o mundo a ela. Mas Darwin era diferente. Costumava se isolar e esconder-se emocionalmente. Era fechado.
Parcialmente por causa da mãe que, depois do incidente da princesa, chamava todo e qualquer apaixonado de tolo cego. Darwin também tinha medo de se machucar, assim como sua mãe havia sido machucada.
Na verdade, ele não tinha nada contra mulheres. Sempre apreciou as curvas e delicadeza das moças, raciocínio e visão de mundo diferentes dos homens. Até levaria a camponesa Virgínia para algum lugar distante para reiniciar sua vida com ela. O problema maior eram as princesas, como esta pirralha dentro da cápsula. Uma havia destruído sua família e a mãe de Darwin, que sempre fora alegre e amável, tornou-se fechada e triste, morrera de tristeza. Desde então, Darwin jurou que nunca se relacionaria com princesa alguma para vingar a morte e a solidão de sua mãe.
Haviam passado horas. A roseira prateada continuava a florescer à medida que Darwin detestava mais a princesa de pedra.
A luz da lua cheia, pendurada lá no céu negro estrelado, entrava pela janela, iluminando o quarto, tornando-o ainda mais morto e pedroso. Darwin deitava-se no chão, olhando para o teto, a cabeça apoiada nos braços dobrados, pensando.
Nacademus o estaria observando agora? Deixaria sua bola de cristal pela noite? Por esta noite? Teria ele, conhecendo Darwin como conhecia, perdido as esperanças de que ele algum dia viria a amar? Como será que o Mago, lá longe, em seu simples e pequeno chalé na periferia calma do Reino das Fadas, estaria?
Reino das Fadas... Tão perto e ao mesmo tempo tão longe... Estava a 3 metros e a dois anos e Darwin tinha a impressão de que a distância aumentaria à medida que o tempo passasse.
Darwin virou-se para olhar a lua. Viu nela o rosto da mãe: envelhecida em demasia para sua idade, os olhos eram a única coisa que pareciam vivos. Sua expressão era de dor. Como ela estaria orgulhosa do filho que não caíra nas garras do amor.
Mas seria todo amor maldito? Os Magos acreditavam que os sentimentos mais bonitos eram a coragem e o amor. Por isso, quem os tinha seria um bom rei. Darwin leu, também, muitos livros de amores bonitos. Seria capaz de realizar tal ato? E Zaphira? Havia a morte da Fada do Amor sido em vão? Era inevitável pensar em amor sem fazer o mesmo com sua Fada. Darwin fechou os olhos e, no escuro, viu o aspecto meigo da amiga reaparecer. Seus olhos brilhantes, sorriso que iluminaria até a breu torre lá embaixo.
Uma lágrima formou-se nos olhos de Darwin e, sem perceber, deixou que ela caísse. Como sentia saudades da amiga... Havia convivido com ela por tão pouco tempo, mas ela havia o ensinado tanto...
Enquanto subiam a íngreme serra, Zaphira havia contado uma história sobre o início da humanidade e o verdadeiro significado do amor.
No início, ela havia dito, não existiam homens nem mulheres. Existiam seres de duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, mas apenas um coração, uma alma. O sangue era o mesmo, assim como o ar que respiravam. Estes seres eram muito felizes, mas os Deuses divertiam-se atirando raios nessas criaturas, separando-as. Desde então, a sina do ser humano é encontrar seu parceiro, aquele que tem a mesma alma, o mesmo coração. Aquele que voltará a dividir o ar e, algum dia, o mesmo sangue.
O cavaleiro não tinha prestado muita atenção ao conto, mas agora entendia... Olhando a cápsula que se livrava aos poucos dos espinhos que a envolviam, que a protegiam. Despia-se da armadura do anti-social, dos mitos, das mentiras.
Darwin ficou de pé. Alto, forte, os cabelos curtos, cor de areia, caídas sobre os olhos verde-água, como o mar. Seria possível? Sim, seria sim. Ah! Zaphira ficaria tão feliz, Nacademus provavelmente estava tão orgulhoso...
Deu dois passos e pôs-se a correr. O quarto se transformava em um comprido corredor, num túnel escuro. Mas nada disso importava, tinha a luz do olhar da princesa para lhe guiar, seus batimentos cardíacos aumentavam à medida que a adrenalina infiltrava em suas artérias. Correndo... Não pensava mais no Reino das Fadas. Bobagem! Nemo seria, certamente, um Rei melhor. Seria mais sábio, teria mais compaixão. Darwin nunca tinha pensado na tristeza de acordar todo dia sozinho, dia após dia, não ter ninguém para dividir as alegrias, para passar noites chuvosas abraçados no divã em frente à fogueira. Isso sim era ser feliz.
Como você estava errada, mãe.
Parou de correr, cessando em frente à cama de pedra. Puxou a cobertura para esquerda, livrando os membros superiores. A respiração acelerada, o coração à mil, pôs a sua mão sobre a delicada mão da princesa, com dedos compridos e finos, unhas bem cuidadas. Como a natureza era gentil com algumas pessoas, como ela conseguia manter, sem o menor esforço, algumas coisas tão belas; tal qual as rosas prateadas e a princesa Alka. Esta agora parecia apenas adormecida, não morta, como estava anteriormente, com sua pele macia e suave... O rapaz passou a mão pelos cabelos negros, macios e sedosos. Como ela conseguia ser tão incrivelmente perfeita...
Sorriu. Darwin abaixou-se e, um pouco nervoso, roçou seus lábios contra a boca da garota. Ela ainda estava fria. Beijou-a mais humanamente desta vez, soprando vida e calor para dentro do corpo à sua frente. Sentiu-se renascer ao toque.
Afastou um pouco o rosto para olhar profundamente nos olhos de seu amor. E surpreendeu-se olhando para dois grandes olhos de íris cor-de-rosa berrante. Por algum tempo, Darwin ficou paralisado, em transe, em favor desta tão bem vinda surpresa. Mas seria mesmo?
—Oizinho, Darwin!
Não era a voz profunda, suave, que era de se esperar de uma princesa. Era aguda demais para os lábios de veludo que a proferiam. Seria até desagradável se não fosse a coincidência...
—P-princesa Alka?!
—Darwin, me chame pelo nome.
Darwin não sabia, Nacademus nunca o havia ensinado que, se uma Fada gostasse realmente da pessoa de quem ajudasse, poderia transformar-se num humano e conviver com ela por mais tempo. Foi isso que Zaphira fez. Ela e Darwin se casaram e foram muito felizes juntos. Seu filho fora treinado por Nacademus, também, para competir o próximo trono.
É, você já adivinhou, mas vou dizer de novo: Nemo surpreendeu a todos (menos ao leitor) com suas habilidades e bravura e reinou por muitos anos até que a morte finalmente o levou.
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