10.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 11

Antonio acendeu o cigarro. Inspirou profundamente e soltou a fumaça devagar pela boca, sugando-a pelo nariz e a soltando novamente. Um espetáculo para o vazio. O aroma da nicotina se misturava ao cheiro de porra e dama da noite. Antonio estava contente por finalmente ter conseguido cobrir o cheiro de formol satisfatoriamente.

Na TV antiga de tubo, uma garota ruiva lambia os seios enormes de uma garota loira. As duas gemiam muito alto.

– Queria conseguir fazer você gemer, minha princesa.

As quatro camadas de base que Ana usava escorriam junto com o sêmen no seu rosto e cabelo. O batom vermelho estava completamente borrado.

Antonio considerou as possibilidades. Como as bonecas falantes faziam? Ele segurou a mandíbula de Ana e olhou para dentro. Talvez arrancar a traquéia e colocar um alto falante no lugar? Controlar o volume por controle remoto.

Seus pensamentos foram interrompidos por um apito de celular.

Antonio esticou o braço para a mesa de cabeceira ao lado da cama e pegou os dois celulares. Um grande, com capa preta, a outra menorzinha, com capa de unicórnio. A mensagem era da menor. Antonio olhou a foto da menina com cabelo laranja e óculos de aro grosso.

– Quer ir na festa da Ariane? – disse Antonio ao cadáver a seu lado.

– Não posso – Antonio fez uma voz muito aguda enquanto digitava – Nesse fim de semana vou chupar meu namorado.

Antonio sorriu. Apagou a última parte. Digitou de novo. Colocou um emoji de unicórnio. Hora de Ana voltar à banheira.

Esse é o décimo primeiro capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar.

Adoraria saber sua opinião, então deixe um comentário me dizendo o que achou, divida com quem você acha que vai gostar e me cobre se eu parar de postar.

Obrigada!

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7.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 10

– Olha isso, Taís. Acho que ela fez uma plástica.

Gabriela estendeu o celular para a amiga.

– Você precisar sair da internet. Urgente. – Taís olhou a tela brilhante – Minha mãe chia até quando eu pinto o cabelo.

Taís devolveu o aparelho para a amiga, evitando olhar por muito tempo. Sentiu a pedra que estava na garganta descer para o estômago. De repente, o pátio da escola ficou muito silencioso, como se estivesse de luto.

– Taís – Gabriela interrompeu o silêncio – Alguma coisa tá muito errada.

Taís saiu do seu estado letárgico, piscando os olhos rapidamente.

– Claro que não, sua louca. Ela só quis fazer uma plástica no nariz. O corpo é dela, ela faz o que quiser.

– Mas olha como ficou tosco!

– Às vezes cirurgias ficam toscas na hora. Depois elas melhoram.

Gabriela estava sentada sob o sol há dez minutos, mas sentiu um tremor descer pela coluna. Abraçou as pernas.

– A mãe da Ana é louca de deixar ela fazer isso – disse Gabriela.

– A mãe da Ana sempre foi louca. Deve até ter sido ela que sugeriu.

Gabriela voltou sua atenção novamente ao celular. Taís observou uma mosca numa teia de aranha próxima. A mosca se debatia exaustivamente tentando sair da armadilha. Quanto mais se esforçava, mais ficava presa na seda pegajosa. Do outro lado da teia, a aranha gorda e preta se aproximava devagar.

– Quero tirar essa mosca daí. – disse Taís.

– Hun? – disse Gabriela.

– Nada não – disse Taís.

Fazia diferença tirar uma mosca morta da teia de uma aranha? Taís sujaria as próprias mãos de visco e ainda corria o risco da aranha subir nela. Taís odiava aranhas. Além do mais, a mosca mesmo só tinha parado lá por conta da própria burrice.

 
Esse é o nono capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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6.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 9

Ele a observava na banheira. O rosto flutuava levemente na superfície da água amarelada enquanto suas orelhas permaneciam submersas. O cabelo formava um halo de vitória-régia adornando sua cabeça. O corpo delicado e nu estava quase todo sob a água, com excessão dos bicos dos seios que quebravam a superfície do formol.

– Você é tão linda quando está quieta, meu amor.

Antônio acariciou os seios duros e molhados, fazendo todo o corpo balançar devagar de um lado para o outro.

– Você gosta de me agradar, não gosta?

A pele ao redor dos olhos enevoados já estava ficando amarelada. Os lábios começavam a rachar. Antônio acreditava que estava ficando cada vez melhor em esconder pequenas imperfeições com maquiagem.

O nariz apontava diretamente para o céu. Aparecia ainda mais agora que as bochechas começavam a afundar. De todos os defeitos que Ana apresentava em vida, esse era o mais evidente em morte.

Antonio colocou uma mão sob a cabeça de Ana. Com a outra, pressionou o osso do nariz para cima. Era libertador não ouvir que precisava ser delicado.

– Antoniooooooo – veio a voz de Dona Bete do assoalho – Não quebra nada que não consiga consertar!

– Me deixa, velha!

Antonio descartou o osso excessivo. Juntou a pele rasgada com durex.

Agora sim, Ana estava perfeita.

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5.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 8

Taís chegou em casa da escola e largou a mochila perto da porta. Depois guardaria no quarto quando fosse fazer lição. Ou não. Provavelmente ficaria exatamente no mesmo lugar até a manhã seguinte. Não fazia lição de casa desde a sétima série.

Pegou uma maçã na geladeira e se arrastou até a sala. Deixou os tênis pelo corredor. Taís se jogou no sofá sem se preocupar com o suco de maçã que escorria pelo braço direito. Deu outra mordida na fruta e limpou o braço na camiseta. Pegou o controle remoto e ligou a companhia invisível.

“Fábio Gonzales, o famoso ator de programas adolescentes, foi condenado ontem por assassinar a ex-esposa.”

“Amigos do casal dizem que o ator estava tão atormentado de paixão que, quando a esposa o deixou, ele não aguentou. Teve outro acidente desse tipo há algumas semanas com o advogado Lázaro, confere Oswaldo?”

“Sim, Cláudia, esses crimes passionais estão cada vez mais comuns.”

Taís pegou o celular. Vivia rodeada por telas, mas raramente sabia o que estava acontecendo. A única coisa de que tinha certeza era que “crime” e “passional” não cabiam na mesma frase, mesmo que paixão deixasse a gente maluca às vezes.

Taís abriu o app de mensagens no celular, apesar de saber que estava vazio. Abriu a conversa de Ana. A última mensagem tinha sido de algumas semanas. Era a mesma mensagem de Taís escrita de formas diferentes.

– Cadê você, Ana…

Taís clicou na foto da amiga para que aumentasse. Ela se lembrava de quando tinham tirado aquela foto. Ana tinha viajado com os pais para a praia. Ela estava sorrindo para a câmera. Era um dia de sol. Seu cabelo estava esvoaçado cobrindo os olhos. Estava linda.

Esse é o oitavo capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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4.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 7

– Antooooonio! Vem jantar, Antonio!

Dona Bete sabia que não podia atrapalhar o filho enquanto ele assistia ao seu futebol. Na verdade ela já tinha aprendido que não podia atrapalhar o filho enquanto ele fazia qualquer uma de suas coisas. Mas ela também sabia que Antonio detestava comida requentada. E o jantar de hoje já estava ficando frio.

– Antooooonio! Quantas vezes vou ter que chamar?

Ela se inclinou sobre o parapeito da escada que levava ao porão. Dona Bete tinha saudade do tempo quando Antonio ainda morava no quarto de cima, antes de preferir se mudar para o porão para ter “mais privacidade”. Dona Bete preferia não imaginar o que o filho tanto fazia lá embaixo.

– Igualzinho o pai…

Dona Bete voltou à cozinha. Cobriu o strogonoff, o arroz e a batata palha com toalhas de papel. Também cobriu os copos de suco de laranja que já tinha separado para o filho e para a namorada do filho, que estava sempre aqui. Será que ela não tinha mãe?

A senhora ouviu o barulho de passos pesados na escada.

– Nossa, mãe, já tampou a comida? Pensou que eu não vinha mais?

– Faz 40 minutos que eu tô chamando.

– Tava vendo o jogo, mãe. Quantas vezes eu já te falei que eu como na hora que eu quiser?

– Comida já esfriou, filho… Vai ter que aquecer.

– Esquenta na panela pra mim?

– O microondas voltou do conserto ontem. Já pode usar.

– Fica ruim no microondas… Esquenta pra mim, vai?

– Você acha que tenho tempo pra isso, menino?

– Sou um homem, mãe.

– Então esquenta sua própria comida.

Quando Dona Bete deu conta de si, estava na frente do fogão esquentando comida para o filho e para a namorada.

– Vocês vão comer aqui?

– Não, a Ana tá me esperando lá embaixo. Daqui a pouco começa o segundo tempo.

Dona Bete amava o filho, mas estava começando a torcer para que ele se casasse logo.

Esse é o sétimo capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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3.10.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 6

– Você vai no aniversário da Ariane?

Era intervalo na escola Madre Tereza. Gabriela e Taís estavam sentadas na mureta do pátio assistindo aos outros adolescentes lancharem e se divertirem.

Marília ria exageradamente e ajeitava o cabelo enquanto conversava com Diego.

– Só a Marília não sabe que o Diego é viado, né? – disse Taís.

– Vai ver ela gosta de viado.

– Viado deve ser mais carinhoso. Não bate em mulher. Tipo aquele advogado, você viu?

– Vi com meu pai. Horrível.

Diego sorria enquanto observava Marília. Ele gostava que ela lhe desse atenção. Assim talvez os outros meninos parassem de colocar glitter cor-de-rosa dentro de sua mochila. Marília ignorava a sexualidade de Diego. Sabia que o amor superaria qualquer obstáculo.

– Mas e a festa?

– Eu não sei, Gabi. Não aguento mais mais o povinho desse colégio.

– Mas a Ariane nunca convida a gente. Foi a primeira vez. Será que foi pra comemorar nosso último ano?

– É que ela sabe que a gente não vai.

– A Ana iria. E ia arrasar.

– A Ana é boa mesmo com esse tipo de coisa. Eventos sociais. Faz todo mundo rir. Convida ela, se você quer tanto ir.

– Vou convidar mesmo, – Gabriela tirou o celular do bolso e começou a digitar com os polegares. – Tô cansada de ficar em casa só lendo e jogando videogame.

– Você sai comigo, ow!

– A gente só lê e joga videogame. Num dia mais agitando a gente vê filme ou vai pro parquinho, nessa bosta de cidade.

Mensagem enviada. Gabriela encarou o celular.

– Duvido que ela vá – disse Taís, dura. – Ela só sai com o namorado agora.

Gabriela franziu a testa.

– Eu vi as fotos. Ela tá até de aliança.

– Casou, né? Olha que adulta.

Houve um momento de silêncio. Quando eram crianças, Taís, Gabriela e Ana costumavam se ver todos os dias. Depois da escola, brincavam na rua ou na casa de uma das meninas. Ao passar dos anos, a distância foi surgindo. Primeiro quando Ana se mudou, de casa e de escola. Ainda se falavam com alguma frequência, agora pela internet, mas não era o suficiente para substituir os bilhetes passados em sala de aula. Gabriela se questionava se estava sendo uma boa amiga, apesar da distância. O namoro de Ana parecia sepultar esse abanono.

– Tô com saudade dela – disse Gabriela.

– Quero é que ela se foda – disse Taís.

Esse é o sexto capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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30.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 5

Rodrigo chegou cedo ao cinema. Quarta fileira de trás para frente. No canto. Guardou o ingresso no bolso para jogar fora depois. Rodrigo já tinha tido uma coleção de ingressos de cinema. Dava para acompanhar todos os filmes pelas datas, cores e formatos diferentes. Agora elas eram todas iguais, papel amarelo de cartão de crédito e letras que vão sumindo com o tempo.

As luzes se apagaram. Aviso de emergência.

Rodrigo se aconchegou melhor à poltrona e apoiou os pés sobre a cadeira vazia à sua frente.

O filme já tinha começado quando o casal da frente chegou. O cheiro forte de damas da noite trazia lembranças das flores da escola e de Maria, que Rodrigo ia espiar toda semana no vestiário da piscina. Uma silhueta de gêmeos siameses em frente à tela. O estranho empurrou o pé de Rodrigo para fora do banco. Não houve sinais de arrependimento. Rodrigo decidiu que não valia a pena perder ainda mais tempo do filme discutindo. Acomodou-se melhor na cadeira.

Rodrigo adorava essa franquia. Era um reboot de uma série que ele assistia quando era criança. Praticamente o mesmo roteiro, com atores piores e efeitos especiais mais modernos.

As cabeças do casal da frente ficavam se mexendo e atrapalhando o filme. Olhando direito, só a cabeça dele se mexia. Para frente e para trás, para cima e para baixo. Ela estava quietinha, como se nem estivesse ali. O movimento ritmado se tornou mais irritante quando gemidos abafados começaram a acompanhar.

A alguns bancos a frente, Ligia se virou para ver de onde vinha o barulho. Ela tinha vindo ao cinema com Simone e Clarisse e agora as três estavam de costas em suas cadeiras e tentavam abafar risinhos.

Os ninjas da tela atravessavam uma nevasca, que iluminava toda a sala.

– Meu, olha a cara de tédio dela! - disse Simone, não se importando em manter a voz baixa.

Ela estava com a cabeça tombada levemente para a esquerda, a boca entre-aberta e o olhar perdido em algum lugar da neve da tela. Ela estava absolutamente estática, exceto pelo pulso que subia e descia sob os comandos do homem ao lado.

– E ela realmente precisa aprender a comprar base, né, amiga? - disse Clarisse.

– Esse cinza é cigarro. Quem fuma muito fica assim. - disse Ligia.

Ligia tinha uma tia que fumava quatro maços por dia. Ela tinha a pele meio esverdeada e tinha cheiro de gato morto. Ligia tinha muito medo de ficar verde algum dia.

Do outro lado do cinema, Dona Irene arrastava o neto pelo braço para fora do cinema.

– Mas eu quero acabar de ver os ninjas, vó! - disse Pedrinho.

– Não tem nada nesse cinema além de pouca vergonha. - disse Dona Irene.

As meninas passaram o resto da sessão dando risadinhas.

Rodrigo fez muito esforço para se concentrar no restante do filme e não na sua ereção.


Esse é o quinto capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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29.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 4

“…continuam as investigações sobre acusações de suposta violência sexual de advogado sobre ex-namorada…”

Gabriela tentava bloquear as mazelas do mundo vindas do noticiário com fotos bonitas dos seus amigos e das coisas que gostava na internet. O pai fazia questão de passar as poucas horas que estava em casa com a filha, mesmo que a maior parte desse tempo fosse absorvendo os raios catódicos de uma tela colorida.

– É meio exagero isso de cultura do estupro, não acha? Tem que ser muito doente pra se forçar em alguém assim.

A pior parte de ver TV era ouvir os comentários especializados do pai. Gabriela encolheu ainda mais as pernas para cima do sofá. Aproximou sua própria telinha mágica do rosto. Preferia saber da vida de quem estava mais perto.

Gisele está na praia. Beatriz comprou uns livros novos com capas bonitas. Mariana adora fotografar o próprio rosto. Olha o cachorrinho com chapeuzinho de mágico! Henrique foi naquela sorveteria cara. Ana não para de tirar foto com o namorado. Ana está usando cada vez mais maquiagem. Ana deve achar que fica mais bonita séria. Ana nem avisou que está com aliança de compromisso.

Ana esquece as amigas.
Esse é o quarto capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar.
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28.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 3


Bárbara ouviu a porta do restaurante abrir. Continuou passando o pano sobre a bancada, disfarçando preguiça com meticulosidade. Perfume forte de dama da noite invadiu o ambiente. Bárbara torceu o nariz. Olhou para cima.

Mesa para dois. Uma garrafinha de vidro verde com uma florzinha do campo branca no centro. O rapaz corpulento ajudava a namorada a sentar na cadeira de madeira com encosto de vime. Ele encostava nela com a delicadeza de quem tivesse medo que ela fosse quebrar.

Bárbara se aproximou do casal. Bom dia. Deu os cardápios. A cliente nem se dignou a pegar o seu. Olhando de perto, a moça estava uma bagunça. A maquiagem excessiva estava borrada nos cantos e seu cabelo estava oleoso e desarrumado. O perfume forte emanava dela.

– Já sabem o que vão pedir? – Bárbara bateu a caneta na borda da caderneta.

Ele pediu um bife à parmegiana para si mesmo – o melhor da casa, concordou Bárbara – faz com bastante queijo e bastante molho – e uma salada para a namorada.

– Mulheres – disse ele, com uma piscadela – sempre de dieta.

Bárbara esboçou um sorriso educado. A namorada se manteve imóvel, encarando um ponto fixo do outro lado do bistrô. Bárbara a olhou novamente. Ela realmente não parecia nada bem. Não entendia porque algumas pessoas insistiam em sair de casa mesmo tão doentes.


Esse é o terceiro capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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27.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 2

– Ela tem respondido suas mensagens? – perguntou Taís, balançando na única balança que ainda estava inteira no parquinho de concreto.

– Ela visualiza, – respondeu Gabriela, que checava as mensagens do celular com os cotovelos apoiados nas coxas – mas nunca responde.

Taís parou a balança com os pés. As duas garotas ficaram em silêncio por um momento. Ouvia-se apenas a música metálica do vento batendo nas correntes das balanças quebradas. O outro barulho, menos sonoro, vinha das notificações constantes do celular de Gabriela.

Gabriela quebrou o silêncio digital:

– É engraçado que ela atualiza tudo.

– Será que ela está brava com a gente? – Taís começou a cutucar a pele em volta das unhas com os dentes.

– Sei lá. Ela ficou bem puta quando a gente falou mal do namorado dela. – disse Gabriela, que não tirava os olhos do celular – Qual era o nome dele mesmo?

– Antonio, acho, mas ela não chamava ele disso. Chamava pelo sobrenome. Nunca vou lembrar.

– Ela deve é estar muito apaixonada. Só tira foto com ele. Nunca pensei que a Ana fosse dessas meninas que começa a namorar e esquece as amigas.

– Se ela não quer falar comigo, eu é que não vou falar ela.

Pela primeira vez durante a tarde quente, Gabriela guardou o telefone. Abraçou as pernas, o olhar estava longe, nos prédios além do parquinho, onde Taís, Gabriela e Ana moravam quando eram crianças. Ana tinha se mudado com os pais há alguns anos para uma casa maior e mais afastada, quando ganhou um irmão e um cachorro. Gabriela sempre quis um cachorro.

Naquela ocasião, Ana tinha levado as duas meninas para brincarem com Thor. O pastor alemão era grandão e carente, roçava na perna de quem estivesse por perto pedindo carinho. Mas nunca trazia de volta as bolinhas que as meninas jogavam. Ana adorava o cachorro.

Gabriela se levantou. Estava tarde, precisava voltar para casa.

– Espero que ela esteja feliz.

Esse é o segundo capítulo de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
Adoraria saber sua opinião, então deixe um comentário me dizendo o que achou, divida com quem você acha que vai gostar e me cobre se eu parar de postar. 
Obrigada!

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26.9.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 1

O silêncio pesava no ambiente depois de tanto barulho. O cheiro de ferro, muito vivo, inundava a sala. Seu corpo, ainda quente, estava estirado no chão. A cabeça estava de encontro com a perna da mesa, de onde escorria a nascente de sangue quente, que aumentava aos pouquinhos a poça vermelha ao pé da mesa.

– Ainda bem que ela bateu a parte de trás da cabeça – ele disse, andando pela sala, enquanto desviava do líquido vermelho que esfriava. – Seu rosto é tão bonito.

Ela sabia, é claro. No fundo, bem no fundo, ela sempre soube. Os medos, as palpitações, a ansiedade. Tudo aquilo que se confundia com amor. Nunca deveria ter exigido tanto do namorado, era só o jeito dele. Deveria era ter escrito sua carta de suicídio.

Olhando bem, nem parecia estar morta. Bastava dar uma lavadinha, encher o buraco da cabeça na frente e atrás de algodão e pintar para dar uma corzinha. Igual os agentes funerários fazem. Ficaria perfeito. Nunca desconfiariam.

Esse é o primiro capítulo de um livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar. 
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30.8.16

Boa noite, eu disse à porta. Dei dois beijinhos. Não queria que tivesse acabado tão rápido.

Boa noite, ele disse, meio sem jeito. Ria de nervoso, claramente apaixonado. Voltaria, eu sabia que voltaria. Tinha sido ótimo pra mim, tinha sido ótimo pra ele.

Voltando pra cama, abracei o travesseiro que ele tinha usado. Sorvi seu perfume de homem. Adoro dormir envolta dos aromas pesados de amor recente.

***

Ele disse que você é louca, a Aninha me contou.

Ele disse que você tentou roubar os pêlos das costas dele, a Juliana me disse.

Ele disse que viu cabeças de paus decepados na sua geladeira quando foi pegar água, disse o Evandrinho.

Ele contou todos os meus segredos. Filho da puta.

15.8.16

Ladrão de Bicicletas

O ladrão de bicicletas levou meu relógio, meu passa-tempo, meu app de meditação, meu controle hormonal, meu controle de gastos, meu calendário, minha vida social, minha caixinha de memórias, meu rádio, meus milequinhentos reais.

Deixou o ódio, o vazio e o tédio.
E todas as possibilidades que o tédio traz.