31.1.08

Essa é para todas as pessoas que, como eu, sempre quiseram olhos claros.

Olhos de Topázio


Era uma vez uma Princesa muito bonita que tinha olhos castanhos. Ela não gostava de seus olhos castanhos, no entanto, e queria olhos azuis. Queria que refletissem o céu e o mar. Seus olhos castanhos refletiam apenas a terra. E a terra não fazia sonhar.

Sendo Princesa, ela tinha acesso a tudo. Seus pais, o Rei e a Rainha, chamavam feiticeiras, magos, curandeiros e até artistas para tentarem mudar a cor dos íris de sua filha. Nada, porém, funcionava.

Durante certo entardecer, passeava pelos jardins de seu catelo, como fazia em todos os entardeceres. Caminhava calmamente. Os jardins do castelo formavam um enorme labirinto, com arbustos altos e espinhosos, feitos para conter possíveis ladrões e outros malfeitores. A Princesa, claro, julgava-se esperta enquanto fazia o caminho inverso do labirinto, tentando alcançar a saída. Fazia isso em todos os entardeceres, mas nunca alcançava o final.

Esta foi a primeira vez.

Do lado de fora do labirinto, coberta por uma espessa névoa branca que rodopiava com o vento, estava sentada uma bruxa. Ela era diferente das bruxas que adentravam o castelo a mando dos Reis – altas, esbeltas, jovens e belas. Esta bruxa era corcunda, raquítica, velha e feiosa. Tinha as feições tortas, de uma maneira que o rosto parecia uma lua minguante entre a aba do chapéu e o queixo pontudo, e as roupas – em muitas camadas, umas sobre as outras – rasgadas. O chapéu pontudo típico do vestuário das bruxas estava torto e gasto e escondia os olhos da velha. Ela exalava um cheiro forte de carne suja, suor, comida e sangue velhas e endurecidas pelo tempo – talvez até mesmo podridão.

— Eu sei o que você procura, princesinha – disse ela com os estalos de idosos à beira da morte, caquética.

— Quem é a senhora? – quis saber a Princesa, mais curiosa do que amedrontada.

— Eu sou aquela que pode realizar o seu desejo. Só isto basta.

— Não, não é o suficiente. Eu ordeno: quem é a senhora!

— Eu sou aquela que atravessou os desertos do início dos tempos. Sou aquela que adentrou em vulcões para salvar a humanidade de perdição. Sou aquela que transformou meninos em heróis, anjos em demônios e heróis em vilões com uma simples palavra, apenas um olhar. Enfeiticei o mundo para que dormisse e o acordei com pragas e maldições. Fiz milagres àqueles que mereciam e torturei aqueles que o mereciam igualmente. Fiz apaixonar os belos pelos feios. Incendiei o ódio por nações. Fiz guerras perpetuarem-se por séculos. Assassinei os cruéis e os humildes. Transformei montanhas em pradaria, mares em desertos, árvores frutíferas em galhos secos. Eu sou aquela que muda o mundo com apenas um estalo de dedos.

Ao ver o recuo da Princesa, a feiticeira completou:

— Eu sou aquela que pode pintar seus olhos de azul.

Os olhos castanhos da Princesa reluziam, estáticos, de emoção crescente, enquanto dizia, simplesmente “como?” entre as mãos dobradas próximas à boca, os nós dos dedos encostados aos lábios.

A bruxa removeu o chapéu com um gesto surpreendentemente rápido para sua aparente fraqueza, revelando cabelos de um cinza sujo, mais sujos que suas roupas, anelados de uma forma desordenada. Sob os cabelos, no entanto, estavam dois olhos de um azul claro, límpido e brilhantes como topázios. Eram a única parte que parecia realmente viva do corpo da bruxa, como se ela fosse um amontoado de panos velhos e sujos cobrindo duas borboletas. Os olhos brilhavam com uma inquietação louca, transmitindo a vontade de saírem do amontoado de tecidos.

— Eu sou capaz de trocar meus olhos inteiros pelos seus – disse a velha, repondo seu chapéus, tirando suas lindas jóias de vista.

— Não pintaria meus olhos.

— Não pintaria seus olhos. Trocaria. Os meus olhos pelos seus. Tão simples.

Sem hesitar um minuto sequer, gananciosa, a Princesa pediu que trocassem rapidamente de olhos.

As bruxa então apertou o rosto para que os olhos saíssem. Eles pularam para fora das caçapas como frutas maduras fariam se puxadas de seus ramos. Segurou as órbitas leitosas nas mãos calejadas e enrugadas, com unhas compridas e grossas pelo tempo. Pediu que a princesa os segurasse. Olhos tinham consistência estranha, gelatinosa. Estavam frios. Então a bruxa retirou os olhos da Princesa e encaixou-os em seu próprio crânio. Em seguida inseriu os olhos azuis no rosto da menina.

A troca estava feita. Ou quase.

A Princesa piscou algumas vezes, certificando-se da veracidade de seus novos olhos. Sorriu apenas quando viu que a feiticeira agora possuía os seus velhos olhos castanhos.

— Não sorria tão cedo, princesinha – advertiu a velha, gravemente – Você sabe que a nossa troca não será desfeita se você mostrar algum sinal de arrependimento. Terá que agüentar as conseqüências - e haverão conseqüências -, as mais terríveis que forem.

A Princesa aceitou esse tratado com um aceno de cabeça e, sem desviar o novo olhar, correu de volta para o castelo.

Já estava tarde. Seus pais estariam preocupados.

[continua...]

30.1.08


H

oje eu levei minha irmãzinha no aeroporto pra ela ficar seis meses entre mercados persas, homens bombas e matza balls (isto é um prato típico). Eu prometi pra ela que eu não choraria na frente dela. Mas eu não consegui. São seis meses, pô!

22.1.08

Meu Nome Não É Johnny lembra Profissão de Risco, com o Johnny Depp por muitos motivos. O primeiro é óbvio, já que ambas as películas contam histórias de traficantes de cocaína. Há também o fato de ambos os protagonistas serem excelentes atores e de suas respectivas esposas serem umas chatas - pra não pôr palavrão no blog. Mas as semelhanças terminam por aí.

Seltom Mello é João Guilherme Estrela, um playboy carioca viciado em drogas que, em função de maus negócios, acaba envolvido no maior esquema de tráfico de drogas do Brasil, com direito a vendas para artistas americanos e entrega na Europa. Observamos uma vida de excessos digna de qualquer playboyzinho viciado, em que João torra todo o dinheiro conseguido com o comércio em mais drogas e coisas supérfluas, esquecendo de pagar contas e deixando seu carro aos frangalhos. Em antítese à sua ascensão no tráfico, sua relação com a esposa Sofia (Cléo Pires, maravilhosa em todos os sentidos), que conheceu antes de se tornar traficante, aos poucos vai esfriando.

A fotografia do filme é maravilhosa, com ótimos efeitos de vídeo caseiro e um colorido especial, apesar da pontinha de filme alternativo. A trilha sonora é outro trunfo do filme. Excelente, ela envolve, aprofundando os sentimentos sentidos pelos personagens em cada cena. Os cortes também foram muito bem colocados a fim de transmitir sentimentos de freneticidade, de excesso ou ainda de tédio.

É interessante assistir à destruição total do protagonista, culminando com a sua prisão. Esse cárcere, no entanto, serve para fazer João crescer e perceber que a vida é muito mais do que drogas. Apesar do comentário em prol da vida, o filme não é clichê e nem se torna chato e existencialista em nenhum momento. O roteiro é uma verdadeira obra de arte.

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sempre me sinto tão inteligente quando faço resenhas.

10.1.08

Fazendo provas em condições adversas

Bom, como eu fiz um monte de vestibulares esse ano, acho que tenho autoridade suficiente para contar tudo de ruim que me aconteceu. E caso eu não tenha, o blog é meu e os "acidentes" aconteceram comigo, então eu vou falar SIM.

É...

Bom, no ano passado eu fiz ENEM numa faculdade no centro de Campinas (o centro de Campinas parece o centro antigo de São Paulo, mas é mais sujo, mais abarrotado de gente - mesmo Campinas sendo beeem menor que São Paulo - e tem uns travestis - exclusividade da cidade). Isso levava a conseqüências como dificuldade de encontrar o lugar, não ter onde estacionar quando finalmente chegasse lá e depois, já lá dentro, ter que fazer prova ouvindo sirenes e buzinas e ofertas de supermercado.

Ano passado, ainda, quando eu fiz UNICAMP, eu fiquei numa sala na PUC daqui. Vocês sabem, né?: PUC, escola particular, banheiros em ordem, carteiras boas e ventilador. Entrei na sala e achei tudo que eu esperava: eu fiquei justamente numa cadeira com estofado! (Todos os outros eram de madeira) Aí a menina do meu lado, que também ganhou uma cadeira macia, comentou que tivemos sorte. Aí, quando comecei a separar minha coisas e apoiei no braço da cadeira, percebi que toda faca realmente tem dois gumes: o braço da cadeira mexia. Agora, quem prestou o vestibular da UNICAMP sabe que a prova é um papelão enorme todo dobrável. Aquele braço que mexia foi o meu fim.

Esse ano, na primeira fase da UNICAMP, eu estava de novo na PUC, desta vez sentada no canto, na parede, onde eu fiz prova batendo o cotovelo na parede. Foi muito tenso.

Durante um dos dias da UNESP, eu levei chocolate, pringels genérico e água. Aí, enquanto eu pensava numa questão, comi uma batata - depois de prender a mão na abertura do tubo. E o sal começou a me incomodar muito, então comi um chocolate, pra passar o gosto. Aí o gosto do chocolate ficou muito forte e incomodava muito mais que o sal. Aí eu resolvi ser esperta e tomar água. Mas eu tomei de um jeito que consegui engasgar e fiquei tossindo por uns 5 minutos. Pelo menos deu pra distrair alguns concorrentes - tomara.

No teste de aptidão da USP - cheio de vídeos, sons estranhos, mensagens subliminares e textos gays sobre sonhos e desejos para o futuro - eu tinha que fazer uns recortes. Bom, vocês não têm obrigação de saber isso porque a maioria de vocês não me conhecem pessoalmente, mas as minhas unhas costumam ter cerca de um centímetro (eu sou uma vagabunda que não faço nada com as mãos a não ser digitar e escrever o dia todo. além disso, eu me acostumei com unhas grandes. e tenho uma preguiça descomunal de lixá-las. esse é meu segredo, meninas, para unhas enormes: preguiça.). Bom, se tem uma coisa impossível de se fazer com unhas grandes, é recortar coisas pequenas. Agora imagina eu, com unhas gigantes, tentando cortas tirinhas curvas menores que minhas unhas. Foi um desastre. Eu quase roí as unhas pra facilitar o processo, mas peguei um nojo fenomal desse hábito depois que parei de fazê-lo, então resolvi ir pelo método difícil. E meu recorte ficou horrível...

6.1.08

Suas vestes rasgadas, sujas, arrastando no chão. Deslizava sobre o deserto, a terra rachada, o sol escaldante. Seus pés machucados, embebidos tanto pelo seu quanto pelo sangue dos outros, latejavam cansados.

Os corpos espalhados, recém-mutilados, seriam, daqui a pouco, símbolo de vitória para outras nações, distantes e ricas, onde a terra é frutífera e o sol agradável. E logo mais os "heróis" de guerra serão empilhados e seus corpos, sem identificação, incinerados.

Ele, cabelos engrenhados, cheios do pó, que flutuava em todo lugar, andava lentamente, rondando os cadáveres, como um urubu. Apalpava aos poucos, sentindo os bolsos, as jaquetas ensangüentadas, à procura de algo de valor. Medalhas, relógios, óculos, sapatos... Às vezes achava algo inútil, como cartas de amor, livros velhos ou fotografias. Levava para a filha, que gostava de sonhar.

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Texto originalmente publicado aqui em 10/09/05. Na verdade é vontade louca de postar e falta do que postar. Aproveitei pra pôr isso porque é um dos meus textos favoritos e acho que ninguém que lê o blog atualmente tenha o lido na sua primeira publicação. Não que eu ache que realmente valha a pena, só pra não ficar cansativo.

29.12.07

H

oje eu fiz algo que eu pensei que nunca faria. Me sinto realizada, limpa e de bem comigo mesma. Ainda não acabei, mas já dei uma geral no que precisava ser feito.

Senhoras e senhores: hoje limpei meu quarto!

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E meus pais resolveram comprar uma impressora, com scanner, xerox e todas essas coisas bonitinhas. Ele acabou vindo sem tinta. Também não temos papel nem o cabo USB necessário para ligá-lo no PC, mas - hey! - eu tenho uma impressora agora!! Como estou feliz, alegre e saltitante. \o/
Baratas impedem o melhor andamento da sociedade.

É só eu, ou, em aparencendo uma, o rumo dos eventos é totalmente alterado?

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Layout novo. Gostaram, gostaram?

23.12.07

Bom, gente. Eu não vou escrever muito porque estou na casa da minha tia e - além eu achar que seja falta de educação abandonar a família pra postar no blog, principalmente na véspera do Natal - o teclado aqui é horrível (é todo dura e os acentos ficam em lugares estranhos).

Entããão... Pra quem é Cristão ou adepto do consumismo: Feliz Natal! Pra quem for judeu: Feliz Chanukah. E pra quem for pagão: Boa Festa das Luzes!

20.12.07

Não estava funcionando direito.

Primeiro passaram o anti-vírus. Depois checaram se o problema era de software. Viram que todos os programas estavam instalados direito. Resolveram abrir o CPU. Checaram todas as conexões, vendo se nada estava fora do lugar. Limparam por dentro. Ligaram novamente, na esperança de que fosse funcionar.

O problema era que não era uma máquina. Era um homem. E as conexões internas de um ser humano são bem mais complicadas que as de uma máquina.

---x---


Congratulem-me. Pensei nisso durante o vestibular.

E mais: eu não entendo nada de informática.

16.12.07

Então eu vi A Lenda de Beowulf ontem. E na cena que aparece a Anjelina Jolie pelada, coberta de uma coisa amarela (cobertura de caramelo - heh), meu amigo - aparentemente heterossexual - virou pra mim e disse:

- Viu? Ela é estranha!

Estranho é ele!


Bizarro mesmo é que todos os personagens do filme (que é uma animação digital) têm cara de desenho animado, no maior estilo Shrek, menos a Angelina Jolie, que tem cara dela mesma, bem perfeitamente. É estranho. Meu cunhado disse que é porque a gente já é acostumado a vê-la de photoshop, então não fez diferença. Se me dissessem que ela é um robô, eu provavelmente não acharia estranho. Ficaria decepcionada, mas não acharia tão improvável.

Aliás, Beowulf é um filme legal. Eu esperava mais dele, considerando que o roteiro é do Niel Gaiman (aka deus). Maaas, em todo caso, é um desenho bem feito (NÃO leve seu sobrinho pra ver, não é pra crianças), a história é interessante e os caras cantam umas musiquinhas muito legais!!

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A propósito: pra quem lê meu perfil diariamente, deve ter percebido que minha idade mudou. Isso significa que eu fiz aniversário. Aguardo cartas, presentes e outros mimos. Obrigada desde já!

6.12.07

Então ontem (quarta-feira) teve churrasco do cursinho. E teve pagode ao vivo, pessoas bêbadas, pessoas seriamente machucadas, pessoas que não via há um tempinho, fotos, truco, pessoas violentas jogando truco, presença de professores, narguille, futebol, piscina e outras coisas das quais não sou muito adepta (Eu sou meio anti-social. Não nasci pra diversão com a galera).

Em todo caso, uma meia hora depois de um dos professores chegarem, ele já estava caindo de bêbado. E ele daria nossa primeira aula do dia seguinte. E nós, alunos malandros que somos, resolvemos o deixar ainda MAIS bêbado para que ele não aparecesse na manhã seguinte. *Insira risada maléfica aqui*

Acontece que hoje cedo metade da sala faltou, a outra metade estava dormindo na aula e o professor teoricamente de ressaca estava muito desperto, como se nada tivesse acontecido. Deus castiga, viu...

30.11.07

Tem coisas na vida que a gente descobre e mudam o sentido de absolutamente tudo. Tudo mesmo. Esses dias eu estava conversando no cursinho, com o Coelho Branco do Alice no País das Maravilhas nas mãos quando me deram a informação bombástica:

LOL significa Laughing Out Loud¹.

Meu mundo parou. E não adiantava o Coelho me dizer que tinha pressa.

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¹rindo em voz alta (a tradução fica horrível, mas ao pé da letra é isso mesmo)

27.11.07

Hoje a aula começava mais tarde. Então eu acordei uma hora mais tarde, saí de casa uma hora mais tarde... E aí tudo começou a dar errado. O combustível entrou pra reserva, tinha uma fila gigaaante no posto (há dois minutos do cursinho, diga-se de passagem), passamos 20 minutos só na fila e quando finalmente chegamos ao cursinho...

...uma menina cega estava atravessando a rua.

E tivemos que esperá-la passar, claro, no cruzamento, na freeeente da entrada do cursinho.

Eu nunca vejo pessoas cegas em Campinas. Sempre tem uma primeira vez, né? E que primeira vez mais inoportuna...

Obs: Claro que perdi a aula.

21.11.07

Uma noite dessas eu vi um vagalume no meu quarto. Até agora não sei se realmente aconteceu ou se eu estava sonhando ou vendo coisas.

Aí eu liguei a luz.

O suposto vagalume era um insetão feioso.

Impressionante como as coisas são mais bonitas no escuro.

15.11.07

Ano passado foi o medo de fracassar. Fracassar por mim mesma onde eu achava que era minha única habilidade. Depois que não passei, pensei em todo mundo que decepcionei: professores, amigos, pais, irmãos... Era mais uma coisa para os outros do que pra mim. Olhando para trás, acredito que foi bom eu não ter passado, ou teria me tornado insuportavelmente arrogante. Agradeço às minhas falhas por isso.

Este ano, quando penso no cursinho, no quanto eu tive que estudar, na dor de deixar de fazer muita coisa - na verdade não mudou muito dos últimos anos para cá, eu nunca fiz nada mesmo -, de ter que deixar tudo para o ano que vem, sobrepõem-se os fatos de eu ter aprendido muito, ter conhecido pessoas excelentes e, principalmente, ter baixado a minha bola, reconhecendo que há pessoas mais inteligentes que eu. O ano foi bom.

Mas na boca da garganta fica guardada uma angústia que não quer sair. Ela surgiu há uma meia hora e resolveu ficar.

Esse ano é o medo de ter que repetir o cursinho ano que vem. É bom uma vez, mas duas é demais. Medo de decepcionar, novamente. Medo de estagnar. Para sempre. Medo de seguir sozinha.

Pensei em chorar até que ela passasse ou estudar para esquecer que existia. Até domingo vai passar - tem que passar. Mas é bem mais provável que até lá as coisas só piorem.

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Vestibular da UNICAMP domingo agora, gente. 40 candidatos por vaga. Torçam por mim :]

31.10.07

Eu tive meu momento Alex Delarge hoje. Meu professor de história passou um filme sobre a ascensão de Hitler e, numa cena onde os alemães estavam felizes com o Führer, começou a tocar Primavera do Vivaldi. Quase comecei a gritar que aquilo era um pecado.

26.10.07

A Estranha História dos Carneiros


Todo mundo tem uma história estranha envolvendo animais de fazenda. Não, não esse tipo de história, seu pervertido. Pelo menos não aqui. ainda.

Durante a maior parte da minha infância, minha tia teve uma fazenda. No início era uma fazenda mesmo, com animais, pomar e toda aquela pompa toda. Ao passar do tempo, ele foi se tornando um minifúndio improdutivo - mas isso não vem ao caso. Era bem longe da minha casa (18 horas de ônibus), mas meus irmãos e eu íamos para lá em praticamente todas as férias porque tínhamos primos da nossa idade por lá.

Uma das primeiras vezes que fomos para lá, quando a fazenda era recém-comprada e havia bichos e muuuito mato, minha prima, Julia, minha irmã, Rebecca, e eu resolvemos explorar o terreno. Observação: éramos todas bem pequenas na época. Eu e minha prima devíamos ter lá nossos 6 anos e minha irmã, 8. Assim, o terreno ficou ainda mais gigante, o mato ainda mais alto e os bichos ainda mais selvagens. Não sei de quem foi a brilhante idéia de nos contar que carneiros eram perigosos. Então tínhamos por objetivo principal evitá-los.

Acontece que, àlguma altura do nosso passeio, os carneiros nos alcançaram. Ó! Bestas Peludas do Inferno com seus chifres em forma de caracol! Imagens do Bode em pessoa (no caso, em animal)! Vimos-os lá longe andando uns atrás dos outros, seus olhos aguados famintos por carne de crianças perdidas.

Então, logicamente, saímos correndo o mais rápido que pudemos. E era difícil correr lá porque o chão era irregular e tinha muito mato. E de repente, não mais que de repente, aconteceu o inevitável: Rebecca tropeçou e ficou enroscada em alguma coisa no chão.

Julia e eu continuamos correndo. Caída, Rebecca clamava por ajuda, chorando copiosamente. Os carneiros chegavam cada vez mais perto. Mutilada entre compaixão pela minha irmãzinha querida e minha própria vida, exclamei:

- Julia! Temos que salvar a Rebecca!

Neste momento minha prima me olhou muito séria e disse:

- Ela já está perdida, Deborah. Temos que tentar nos salvar agora.

Não lembro o que ocorreu em seguinte. Se algum adulto foi nos salvar ou se a Rebecca conseguiu se desenroscar sozinha e voltamos sãs e salvas. Mas carneiros me aterrorizaram durante muito tempo depois disso.

Observação que pode não ter muita relevância para a compreensão do texto (ou toda, dependendo do seu ponto de vista): hoje minha prima está no segundo ano de direito. Mas ela é boa pessoa. Juro.

19.10.07

Mulher de fases



Eu passei por taaaantas fases musicais que acho que posso criticar todas, porque gostei de quase todos os estilos.

Quando eu comecei a me considerar gente, eu ouvia Spice Girls (aliás, vocês viram que elas voltaram? Pô, se conseguirem trazê-las pro Brasil, eu vou no show com certeza). Eu tive os dois primeiros CDs e amava. Eu nunca fui uma Spice Girl numa bandinha de criança, porque minhas amigas não gostavam (Na época eu tinha só uma amiga, então nem dava pra montar a bandinha, nem se eu quisesse. Mas a minha irmã era a Baby Spice na bandinha dela, que tinha 7 meninas em vez de 5). Ah, claro, Spice Girls era coisa do demônio no colégio evangélico porque elas dançavam "peladas" atrás de uma cadeira em uma música (Naked, lembram??) e tinham altas mensagens subliminares sobre sexo no meio das músicas (ouvindo hoje eu fico estarrecida, mas isso eu nem percebia porque tinha um coração puro). Depois eu dei o CD, quando cansei delas. Não acredito até hoje que fiz isso. O meu único consolo é que dei para uma amiga da filha da minha empregada (grande amiga, por sinal), então ela deve ter ficado feliz.

Depois delas, eu tive minha fase POP/MTV e eu ouvia tudo que a mídia lançava. Backstreet Boys (tenho 2 CDs) primeiro, depois NSync (2 CDs também)(aliás, o Justin Timberlake era bem mais legal no NSync do que é hoje), Britney Spears na época que ela ainda era virgem (2 CDs), Christina Aguilera antes de virar putona (2 CDs) (Inclusive eu fui num minishow dela de 25 minutos quando ela veio pro Brasil lá por 99. Foi meu primeiro show. Não revelamos as fotos até hoje.), Five (2 CDs) (pra quem não lembra, Five foi uma tentativa mais ou menos frustrada de recriar as Spice Girls numa boy band. Não era tão legal e só um deles era lindo. As músicas eram todas iguais e tinham altas mensagens subliminares sobre sexo. Escabroso.) e até umas bandas menores que eu curtia porque passava na MTV, mas eu não tinha CDs, como Westlife (quem?). E Hanson, claro, não podia faltar (2 CDs). A grande vantagem dessa época é que minha mãe trabalhava muito e ganhava horrores, então era possível comprar todos os CDs (inclusive as trilhas sonoras de todos os filmes da Disney e dos outros desenhos animados da época). Era uma boa época. Eu me achava o máximo porque tinha os CDs que todo mundo queria. Observação básica: eu tinha, inclusive, um CD que a Mattel lançou que era da banda da Barbie, um tal de Beyond Pink, com a capa rosa choque. Eu, minha irmã e a filha da minha empregada tínhamos as três barbies da banda (a minha está até hoje na minha estante - ela brilha no escuro!). Não me zoem, vocês gostavam de É o Tchan que eu sei!

Aí eu me mudei de São Paulo e vim pra Campinas e, aos poucos, ouvir pop não era mais tão pop. Aí eu comecei a ouvir punk rock (isso foi com uns 12 anos), com Blink 182 (2 CDs, um original - que é uma bosta - e outro copiado - que era legalzinho e meu irmão perdeu emprestando para alguém. Pessoalmente, eu prefiro a fase emo do Blink, é mais sonoro) e Avril Lavigne (1 CD - depois me dei conta de que era uma bosta - isso é uma mancha negra no meu histórico musical, mas pelo menos me dá autoridade de odiar muito a Avril hoje).

Mas a fase punk rock durou pouco. Até eu conhecer um amiguinho que curtia metal na oitava série e eu comecei minha fase de odiar tudo que todo mundo adorava. O problema era que era meio difícil conhecer bandas alternativas sem baixar músicas nem comprar CDs (agora minha mãe não ganhava mais horrores, nem nunca mais voltou a ganhar, e os CDs começavam a ficar muito caros), aí eu ouvia o metal que todo mundo ouvia, como Angra, Iron Maiden e Metallica e bandas que eu ouvia na extinta Rádio Rock (bons tempos...). Isso firmou minhas bases pra ouvir majoritariamente bandas de metal estranho de países eslavos que ouço hoje. Mas até o fim do ano passado eu realmente me forçava a odiar MUITO tudo o que todo mundo ouvia.

Hoje eu sou mais livre, leve e solta e ouço tudo o que eu gosto, passando desde música clássica até Pussycat Dolls (mas eu me nego a ouvir Don´tcha, não porque foi muito pop, mas pq é podre, mesmo).

Ah, eu tive minhas fases de funk e axé, da época que eu ia em festinhas (gente! eu era convidada para festas!!) e sabia as coreografias. Isso durou pouco, da 7ª série até o 1º colegial, que foi a minha fase não tão antisocial na escola. Explosão Chacaboom (como escreve essa bagaça??) e Elas Estão Descontroladas ("Ah! Que isso? Elas estão Descontroladas!") marcaram muito. Até o dia que eu fui num axé com uma amiga minha e ela me abandonou pra ficar com um cara, o som tava ruim e eu fiquei traumatizada para sempre.

Além, claro, da fase Mamonas Assassinas que acho que todo mundo teve. Mas eu só ouvia quando os meus primos de Recife estavam aqui (ou seja, quase nunca), porque minha mãe nem minha escola deixavam, por motivos óbvios. "Mãe, o que é uma suruba?" Tinha certeza que era uma espécie de massa.

10.10.07

Quando a gente se abraça no escuro, não faz a escuridão sumir. As coisas ruins continuam ali. Os pesadelos continuam à solta.

Quando a gente se abraça, não se sente seguro, mas se sente melhor. "Está tudo bem", sussurramos. "Estou aqui. Eu te amo." e mentimos: "Nunca vou te abandonar".

Só por um ou dois instantes, parece que a escuridão não é tão ruim. Quando a gente se abraça.


- Niel Gaiman, Me Abraça

2.10.07

Os textos se escrevem. O escritor os inicia, mas eles mesmos seguem seus próprios caminhos, tomando rotas alternativas àquelas que estavam planejados, extendendo alguns caminhos, encurtando outros, tirando outros do papel completamente. E acabam quando querem. Não quando o autor quer. Terminam como e quando querem. Se tentar continuar, vai parecer errado. Têm de terminar com uma frase de impacto - sempre. O final é o que importa, disse Johnny Depp em A Janela Secreta. É mesmo. Se você escrever uma história magnífica e tiver um fim ruim, não será uma boa história. A última frase, por sua vez, tem de ser a mais explendorosa de todas. Tem que haver aquele gostinho de que deveria ter continuado no fim da história. Aquele último suspiro. O "boa noite" da escrita. E, claro, pode tentar se esforçar o quanto quiser para elaborar a boa frase final. Mas ela sempre vem pronta.

É como se os textos estivessem esperando por serem escritos. Me sinto psicografando, às vezes, e, ao reler, me surpreendo com o que escrevi. Eles têm vida própria. Não fui eu quem escreveu. Os personagens seguem seus rumos. O cenário se mostra. As ações ocorrem. Tudo isso independe do escritor. Ele é o historiador: aquele que apenas relata verdades que não presenciou, ocorridas em terras distantes nas quais não acreditamos mais.